Ele não tira férias há dez anos e trabalha em média 12 horas por dia, incluindo finais de semana. Foi desta forma que o curitibano Alcione Gabardo Júnior, 37 anos, construiu a partir do zero um império que hoje se chama Sexxes.
Formado em Eletrônica pelo Cefet e em Informática pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), ele confessa que procurou a área técnica por pura questão financeira, mas que sempre preferiu a moda. Prova disso é que atuava durante o dia numa empresa de Informática e à noite trabalhava de graça no ateliê de alta costura de César Monteiro.
‘‘Sempre tive muita facilidade com matemática, então era muito fácil lidar com todos aqueles cortes, cálculos e moldes’’, conta. ‘‘Nessa época, comecei a pensar na hipótese de ter uma marca só minha e fiz uma experiência’’, conta.
Foi no verão de 1991. Ele desenhou e confeccionou umas 30, 40 peças e foi para Caiobá, no litoral do Paraná. ‘‘Em uma semana vendi tudo e não sabia o que fazer, já que tinha alugado uma pequena loja para toda a temporada’’, lembra. Então foi para Florianópolis, comprou um monte de roupas prontas e vendeu tudo até o final do verão. ‘‘Ali eu senti pela primeira vez que havia um grande espaço na área de moda para explorar’’.
Com uma pequena grife batizada inicialmente de Ópio, ele abriu a sua primeira loja num shopping direto da fábrica, na Avenida das Torres. ‘‘Fiquei ali uns três ou quatro meses e consegui grana para comprar uma loja no Out-Let Center que havia na Rua Brigadeiro Franco. Aí foi uma atrás da outra... Cheguei a ter dez lojas da Ópio’’. Isso incluía pontos em grandes shoppings como Itália, Água Verde, Omar e um em Blumenau (SC).
A partir daí, numa fase de reavaliar todo o processo, acabou surgindo um projeto para criar a Sexxes. A primeira loja foi aberta no Shopping Mueller, em 1996. ‘‘Já abrimos como uma grande marca, a primeira coleção foi lançada com catálogo, campanha de out-door e grande investimento’’, lembra.
Simultaneamente, as lojas do Omar, Itália e Água Verde foram redecoradas e reabriram como Sexxes. Então começou a surgir um volume de vendas mais pesado, que acabou levando a montagem de uma fábrica, que começou a funcionar na mesma casa onde Júnior nasceu, no bairro Parolin, e onde seus pais moravam desde que se casaram.
Mais tarde, a velha casa acabou sendo substituída por um prédio e vários barracões, onde hoje mais de 90 costureiras trabalham diariamente a todo vapor para produzir cerca de 45 mil peças a cada nova coleção.
Ao todo, a Sexxes já tem mais de 200 funcionários e dez lojas espalhadas pelo País. Quatro estão em Curitiba, duas em São Paulo, uma em Florianópolis (SC), uma em Joinville (SC) e duas em Campo Grande (MS). Seu faturamento anual é de aproximadamente R$ 4 milhões.
Dono de polêmicas opiniões sobre o mercado curitibano, as escolas de moda da cidade e o Crystal Fashion, Júnior conversou com a reportagem da Folha. Ele falou ainda sobre o processo de criação de cada nova coleção e sobre a trajetória da Sexxes no mercado nacional. Acompanhe alguns trechos:
O senhor até hoje comanda sozinho todo o processo de criação da Sexxes. Como isso funciona?
Eu crio as coleções muito mais pensando no marketing do que no estilismo propriamente dito. Não tem como separar as duas coisas. A criação tem que estar direcionada para aquilo que o público consumidor quer e pode usar. Você não pode chutar para os lados, correndo o risco de perder a identidade da marca...
Na prática, como funciona a criação de cada nova coleção?
O processo é o seguinte: eu tenho uma idéia que é discutida. Enquanto eu apresento propostas de roupas, a equipe de marketing vai trabalhando estamparia, catálogo, produção pré-desfile; é tudo simultâneo... Normalmente a gente une algo que o mercado dite como tendência a um assunto que esteja ligado ao nosso público, mas a prioridade é sempre para o nosso próprio conceito. Apenas um pedacinho da tendência é jogada dentro da coleção... Na última coleção, por exemplo, praticamente viramos as costas para as tendências...
Qual é o caminho de uma peça desde a sua concepção até chegar a loja?
Não trabalhamos com croquis porque não dá tempo. Uma coleção nossa chega a ter 200, 250 itens. Imagine o tempo que gastaríamos para desenhar e fazer ficha técnica... Então fazemos só um desenho técnico que é transformado na peça-piloto que vai para testes. Aí já entra o trabalho do modelista. Cada peça é analisada separadamente e as que não se encaixam no conceito da coleção são descartadas. As aprovadas são repassadas para o departamento de compras, que vai atrás do tecido. Aí a coleção vai tomando corpo...
Ser uma grife curitibana de porte nacional aumenta a responsabilidade da Sexxes no mercado local?
Nem gosto de falar muito sobre isso... Por exemplo, eu não vejo vantagem nenhuma em ser a única grife curitibana a desfilar no Crystal Fashion. Primeiro, porque ninguém em Curitiba me ajudou em nada até hoje. Segundo, porque aqui há uma cultura muito forte em se valorizar o que vem de fora. Eu até acho que a Sexxes só cresceu tanto porque ela tem cara de grife nacional... E, sinceramente, porque cerca de 75% do nosso público nem sabe que a Sexxes é curitibana...
Qual foi o progresso do segmento de moda nestes últimos cinco anos em Curitiba?
Esse mercado ainda precisa amadurecer... Há muitos estilistas em Curitiba mas não tem como expôr todo mundo. E a maioria deles tem carreira solo, o que é bem diferente do meu trabalho, por exemplo... A Sexxes é uma empresa grande, uma marca com grande volume de produção, que visa lucros... No caso dos estilistas que trabalham sozinhos, eu acho que não há tanta mídia para a exposição de todos eles. Existe uma grande dificuldade em dar visibilidade para o trabalho destas pessoas.
E as recentes escolas de moda que estão formando novos estilistas a cada ano em Curitiba?
Na minha opinião, estas escolas formam pessoas muito técnicas. É a mesma coisa que comparar um músico erudito a alguém como o Herbert Vianna, que nunca pisou numa escola de música mas que tem uma grande capacidade criativa. A falta de compromisso com coisas conceituais e técnicas acabam levando-o para um segmento que o diferencia de todos os outros músicos... É isso que acontece com as escolas de moda. Elas estão muito técnicas e a criatividade acaba ficando bem abaixo do desejado. Por exemplo, nós temos vagas para estilistas aqui na Sexxes e não conseguimos completá-las. Infelizmente, tive que trazer gente de fora, como o modelista ou o engenheiro de produção, porque não achava ninguém em Curitiba... Nós precisamos de pessoas criativas e quem chega aqui domina apenas a técnica...
Qual é a importância do Crystal Fashion no cenário da moda local?
O evento cresceu muito e acabou se fechando totalmente para marcas pequenas ou novas, principalmente para as locais. Ninguém mais pode fazer o seu primeiro desfile lá, porque a grife estará correndo um risco muito grande de receber uma crítica pesada e ficar desorientada...
Na última edição, o editor de moda da revista Vogue, Giovani Frasson, elogiou muito o desfile da Sexxes...
Eu levei muita sorte de ele estar ali no dia do meu desfile... Nós conversamos bastante e ele comentou que tinha achado o meu desfile ousado e que gostou muito do público que estava presente. Aquilo foi muito bom, especialmente porque ele não tem nenhum compromisso com a Sexxes, portanto não precisava falar bem ou mal da marca... Isso foi muito motivador para mim e eu acho que daqui para frente o nosso caminho é este mesmo: temos que nos expôr, dar a cara para bater e então ver o que vai acontecer...

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