Com a bola toda
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de maio de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 

Das brincadeiras de rua no Parque Ouro Branco (zona sul) à medalha olímpica. O sonho da menina na bola de vôlei e a concretude poucos anos depois. A cara brava engana, mas é fácil perceber que a menina continua ali, brincalhona, riso fácil, abusada, como disseram. Elisângela Almeida, a Lili, ex-atleta e coordenadora do Vôlei Positivo/Londrina relembra a infância, o amadurecimento e os desafios no esporte londrinense.
Tímida, faz pose para a foto meio sem saber como se posicionar. Com a bola na mão já começa a se soltar, brinca, tenta acertar a cesta de basquete enquanto o fotógrafo configura o equipamento. Ao ser questionada se é boa em outras modalidades, responde com um "Opa! Handebol, basquete, jogo bem", e olha para a câmera com a timidez inicial.
É que na infância não tem muito essa de ser bom só em um esporte. Com a criançada na rua, é preciso ser bom também na bola queimada, corrida, e o famoso bets dos anos 1980 e 1990. "Naquele tempo tinha muita criança na rua e eu vivia na rua, brincava muito. Chegava da escola, estudava de manhã, fazia tarefa e partia pra rua. Ficava até 6h da tarde pra brincar, antes do pai chegar", ri.
Vivia o esporte da forma mais saudável que podia. Em 1992, aos 14 anos, viu o Brasil ser campeão olímpico no vôlei masculino. "Eu decidi que eu seria uma jogadora de voleibol e que eu queria jogar uma Olimpíada", determinou. Do Ieel (Instituto de Educação Estadual de Londrina) foi para o colégio Albino Feijó Sanches por causa do voleibol. "Tinha um time que treinava lá, eu sabia que umas meninas jogavam. Eu não tinha noção que existia clube, time, campeonatos. Quando me matriculei e comecei a jogar com o professor Osvaldo (Nascimento), participei de campeonatos", recorda.
Apoio
O primeiro campeonato a participar, nos Jogos Escolares da Juventude, atraiu a atenção das meninas que jogavam no Londrina Country Clube, mesmo local onde o Vôlei Positivo/Londrina treina hoje. "Quando contei para minha mãe que fui convidada, ela imediatamente respondeu: você vai lá, vai treinar sim, vai falar com as meninas, minha mãe sempre me apoiou, sempre sonhou que eu fosse jogadora, ela via", conta.
O início foi uma brincadeira, mas no primeiro campeonato pelo clube Elisângela já foi convocada para a Seleção Paranaense, em 1995. Em 1996 foi a única do Paraná a ser escalada para a Seleção Brasileira. Jogou o Sul-Americano, o Mundial e em 1998 já estava no adulto. "Foi tudo muito rápido, se for pensar no início, em oito meses minha vida deu um giro", recorda.
Destaque nas quadras, a atleta foi convidada por Bernardinho para jogar pelo Rexona/Curitiba e viu a carreira deslanchar. Olimpíadas de Sidney, depois Atenas. Jogou em vários países e clubes brasileiros. Nesse meio tempo, casou-se e teve o Lorenzo, 13 anos. Viveu o esporte até parar de jogar, há dois anos. "Já estava com certa idade, 37 anos, pensei que era melhor parar por cima do que depois me tirarem, era um medo que eu sempre tive", afirma.
O plano era voltar para Londrina, iniciar um projeto social na cidade. "Você lembra que a gente tinha jogos de inverno aqui? Jogava Country, Arel, Grêmio, Iate... Nós tínhamos competições. Isso acabou. Hoje é tudo aqui (mostra o celular). As crianças preferem ficar no aparelho", alerta. Impossível não comparar com a sua adolescência, quando o vôlei de Londrina era bem movimentado e muitas escolas tinham suas equipes.
Retorno
Então iniciou no ano passado o Projeto de Voleibol Formando Campeões, incentivado pela Associação Desportiva Pro Sport (ADEPS). Nem um ano e já foi possível sentir as dificuldades, teve a base lançada sem aprovação no edital da prefeitura. "Então não veio o dinheiro e eu fiquei com a conta. Assim mesmo eu toquei o projeto." Começaram as disputas de campeonatos e a vinda de estratégia de marketing com apoio de empresa de gestão para divulgar o vôlei. A intenção era promover um amistoso.
Já estava tudo certo para o jogo entre Nestlé e Valinhos em outubro do ano passado. Passagens emitidas, hotel reservado, alimentação garantida com o patrocínio acertado. Rio do Sul cai na Superliga e entra Valinhos. "Acabou o amistoso. Estava tudo certo já, o Grupo Positivo apoiando, o que a gente ia fazer?", lembra o desespero. "Pensei então em ligar para o time do Rio do Sul, as meninas estavam desempregadas, queria ver se elas vinham". Formou-se daí a equipe Positivo/Londrina para entrar na Superliga B, coordenada por Elisângela.
"A gente prometeu a classificação, o que a gente conseguiu. Não é uma frustração, mas eu esperava que a gente ganhasse", fala com exigência de atleta. A final teve 4.280 pessoas na torcida, no ginásio Moringão. "A cidade abraçou, deu pra perceber que Londrina gosta muito de voleibol. Você vê o povo falando que verá uma Tandara jogando, Jaqueline. É a oportunidade de a cidade ver essas meninas que eles veem na televisão", anima-se.
Depois de tanto tempo fora, poder participar do movimento do esporte na cidade é uma realização. "Isso foi muito legal, muitas pessoas vindo dar os parabéns e agradecer por estar trazendo isso para Londrina, então isso foi muito gratificante. Depois de 20 anos voltar para minha cidade e fazendo uma coisa que eu vivi a minha vida inteira", orgulha-se.
O projeto está em seu primeiro ano, mas Elisângela sonha com garra e disciplina de quem viveu o esporte. Pretende voar alto, mas sempre com os pés no chão. "Esporte no Brasil é muito difícil, Londrina é uma cidade dentro do Brasil com uma mentalidade pequena e sem apoio. Londrina não tem apoio para o esporte, isso é fato", afirma. Além dos órgãos públicos, chama atenção também das instituições privadas. "Empresa que investe e se constrói no esporte, divulga o nome e evita de construir presídio", defende.
Bagagem
Hoje, Elisângela pretende fazer o esporte mudar a vida de outras crianças como viu mudar a sua e de sua família. "Quando eu falei que ia jogar e fazer o que eu gosto, eu queria mudar a vida da minha mãe, minha família". E fez. Desde o primeiro salário como jogadora, em 1997, mandava o dinheiro para a mãe que passou por dois cânceres e criou os sete filhos na força, garra e determinação. "Ela é a minha inspiração", enfatiza.
Além da tão sonhada medalha olímpica, Elisângela conheceu 18 países, viveu no Japão, experiência que julga ser especial. Tudo sem esquecer o passado. "Eu tenho muito orgulho. Lembro que eu passava nos prédios da beira do Lago Igapó e falava que ia comprar um apartamento ali. Eu comprei cinco anos depois. Todo mundo tirava sarro porque eu dizia: pega autógrafo agora que depois vocês não pegam mais", ri.
Brincalhona, reconhece que tem cara de brava, mas que fazia todo mundo rir com as respostas. "Nos vestiários, quando as meninas me sacaneavam eu já falava ah você não tem medo da minha boca? Perdeu o respeito?. É que eu não penso muito, eu já falo", ri com saudosismo das amizades que fez e que carrega.
Abusada era a acusação. Determinada é a correção. Com tanta bagagem, Elisângela ainda acredita que está para viver sua melhor fase. "Eu estou buscando, estou no caminho e tem tudo para acontecer e a gente vai fazer essa entrevista numa melhor fase ainda, você vai ver", fala em tom de juramento. Alguém ousa duvidar?


