Dia desses doutor Annibal Bianchini da Rocha nos recebeu em seu confortável e familiar endereço para um almoço e uma conversa amiga e descontraída, que na verdade foi mais um monólogo, pois preferimos ouvi-lo com raras intervenções, para podermos conhecer um pouco de sua vida, e consequentemente a história de Maringá, já que estão interligadas. Quase não perguntei, anotei afirmações e divagações de um homem que simboliza a vitória pessoal e o pioneirismo maringaense. Um verdadeiro arquivo vivo, merecedor de homenagens especiais neste final de ano, como cidadão e filho ilustre de nossa cidade. Como suas reminiscências dariam um livro, tamanha é sua fonte de informação, torcemos e secamos as anotações para podermos compor o texto, talvez com falhas ao omitir alguns dados, fatos ou nomes. Mas vale a intenção. E nosso espaço é limitado.

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Santista, pai português, comerciante, e mãe italiana, professora, decidiu por vontade própria ser engenheiro agrônomo, distanciando-se dos então chamados cursos de ‘‘profissões do futuro’’, como médico ou dentista. Os pais aceitaram sua decisão e os incentivaram em sua vocação, herdada quem sabe dos ancestrais europeus fortemente ligados à agricultura, e lá se foi o jovem fazer seu curso na Escola Superior de Agricultura Luis de Queiróz, em Piracicaba, onde além de formar-se, conheceu sua musa e futura esposa, Cida, que depois de ‘‘amargar’’ quatro anos de espera, casou-se, e juntos vieram para Maringá. E aí já é uma outra história.
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Em 1952, o jovem Annibal, recém formado, precisava de um emprego para poder casar e constituir família, foi então que o futuro bateu à sua porta. Convidado a trabalhar na cidade que nascia, sem conhecê-la, aceitou o desafio e desembarcou por aqui, cheio de esperança e disposto a muito trabalho. Maringá dava seus primeiros passos, fundada em 10 de maio de 1947 pela da Cia. de Terras do Norte do Paraná, que posteriormente passou a chamar-se Cia. Melhoramentos do Norte Paraná (em 1951). Detalhe curioso, o projeto urbanístico da cidade foi idealizado por Jorge de Macedo Vieira, urbanista paulista que jamais a conheceu, nunca pisou nossa terra vermelha. Tudo começou no Maringá Velho, com os diretores da empresa, com formação humanista, preocupados com a preservação do verde e com a ecologia, antecipando uma visão que hoje move líderes e cidadãos. Como diz Annibal, ‘‘Maringá não caiu do céu, como um sonho de uma noite de verão’’, foi concretizada em bases sólidas e muito bem estruturadas.
Com duas áreas de preservação em seu projeto original os Bosques I e II, ‘‘A cidade que era uma moça bonita, precisava se vestir ainda melhor’’, e com a vinda do doutor Luis Teixeira Mendes ganhou o Horto Florestal, ainda hoje uma reserva preservada pertencente à Cia Melhoramentos, que foi usada para o cultivo de 75 mil árvores para serem plantadas nas vias públicas. Tudo planejado com cuidados especiais quanto às espécies adequadas para nosso clima, e plantadas em pontos estratégicos para que as floradas se alternem, fazendo com que hoje Maringá seja, além da Cidade Canção, nome nascido da música de Joubert de Carvalho, a cidade das flores, das plantas, do verde, das árvores, da natureza soberba. A vinda de Teixeira Mendes é saudada como ‘‘fundamental e extraordinária ’’, pois sendo uma autoridade em reflorestamento, arborização e ajardinamento, e com uma visão futurista, determinava sabiamente: ‘‘Plante árvores até para seus inimigos. Os homens vão e as árvores ficam’’. Essa lição o jovem profissional aprendeu, assimilou e cultivou. Doutor Annibal revive e relembra os tempos de luta e labuta cheio de emoção e sabe que faz parte dessa história. Não com orgulho soberbo, mas com o orgulho típico dos homens de caráter e conscientes de seu valor. Do homem que sempre soube, mesmo de antemão, que a natureza é um bem que deveria ser cuidado, preservado, que o desenvolvimento da cidade jamais deveria ser à custa da destruição desse bem vital, pois como dizem os entendidos ‘‘a Terra é mãe...’’
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Hoje, Annibal Bianchini da Rocha é personalidade respeitada por seu trabalho como homem, profissional e até político. Consciente que a cidade por uma fase difícil, afirma que ‘‘O verde de Maringá constitui o embrião de um pólo turístico, faz-se muito marketing, mas é preciso manter e a ampliar. O modelo está pronto, é preciso preservar e melhorar.’’ Crítico, determina que o serviço público deixa muito a desejar, a cidade não recebe o tratamento que merece: ‘‘Não concordo com a estrututra atual da Secretaria do Meio-Ambiente. Ela deveria ter uma Divisão de Parques e Jardins, e sob sua alçada o verde, o ar, o som, e poluição, com nomeação de um especialista, sem interferência política, para comandá-la’’. A união com nossa Universidade seria, segundo seu entendimento, basilar para o sucesso do empreendimento, com profissionais à frente de projetos que devem se pautar pelo embelezamento e humanização. Entre suas preocupações estão a preservação dos mais de 70 quilômetros de fundo de vale, essenciais para a manutenção de nossa qualidade de vida... Os novos loteamentos que precisam de uma ferrenha fiscalização, com urbanização de suas áreas, o que não encarece em absoluto o projeto... ‘‘Precisamos continuar e aperfeiçoar o padrão, o modelo que a Cia. Melhoramentos nos deixou... É preciso levar em conta o tamanho, o clima, o local para o ajardinamento. Flores somente nas praças; nos canteiros centrais das avenidas, gramas verdes e pretas certamente são as mais indicadas, pois além de visualmente belas não exigem tanta manutenção, sendo menos onerosas aos cofres públicos... A roupagem de Maringá está mal feita’’. Conclusão: Estamos precisando urgente de um estilista, um expert na alta costura da natureza.
Afirmando que boa parte dos maringaenses é consciente de sua bela cidade, determina que mesmo a consciência evolui, é um processo lento, mas precisa ser readequada. E isso segundo doutor Annibal somente através de investimentos ordenados e maciços em duas frentes prioritárias, a Educação e Saúde, pois um cidadão educado no sentido formal da palavra é um cidadão que tem chances maiores de preservar e cuidar de sua saúde. São itens interligados, interdependentes, mas a Educação é o ponto de partida.
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Sua preocupação como humanista não poderia estar desvinculada de uma atuação política. Quando eleito em seu primeiro mandato, o governador Ney Braga o convidou para secretário da Agricultura, mas por motivos pessoais não pôde aceitar. Num segundo convite, para substituir Paulo Pimentel, então secretário da Agricultura que se desligava para ser candidato a governador, aceitou. Foram poucos meses no governo, mas o suficiente para elaborar um de seus orgulhos na vida política: a pedido de Nelson Fayet, da Codepar, criou a Carta de Solos, o zoneamento e o perfil do solo do Estado do Paraná e sua consequente utilização prática na Agricultura.
Doutor Annibal nos afirma que se desapontou sim com a política, teve decepções com o trato da coisa pública. Mas é claro que sua vida não poderia ficar à margem dos acontecimentos. Em resposta a um convite de Ney Braga, do bispo Dom Jaime Luiz Coelho e João Paulino Vieira filho, aceitou sair candidato a prefeito de Maringá nos anos de 1980. Não ganhou, mas teve expressiva votação, o que mesmo assim não o incentivou à novas candidaturas, preferiu continuar sendo o ‘‘Jardineiro de Maringᒒ, epíteto que ganhou por seu amor e sua luta em favor da preservação da natureza desde sua chegada, e que se solidificou durante seus anos de trabalho. Nem é mais um adjetivo, é um slogan, um sinônimo de vida. Sem vontade política e algumas desilusões preferiu continuar seu trabalho como diretor da Cia. Melhoramentos, acumulando cargos de relevâncias econômica, social e filantrópica. Hoje, além de diretor, agropecuarista, Conselheiro do Codem-Conselho de Desenvolvimento de Maringá, membro fundador do Instituto Brasileiro do Café/Maringá, e presidente do Sindicato Rural de Maringá há 27 anos, ainda aceitou fundar e trabalhar ao lado do arcebispo Dom Murilo Krieger, na recém criada Associação do Hospital Universitário.
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Mesmo não participando partidariamente é óbvio que doutor Annibal tem suas idéias, seus projeto direcionados à cidade e ao bem comum da comunidade. Afirmando que Maringá está muito bem servida com relação à Educação, com uma boa estrutura, seja no plano educacional e profissional, sua preocupação é com o excesso da oferta em contraponto à qualidade. ‘‘No ensino superior, o ensino, a pesquisa e a extensão são fundamentais para a formação de profissionais qualificados’’, explica. Só vagas não resolvem.
Se está satisfeito nesta área suas metas atuais são agilizar a criação da Fundação da Saúde, reunindo partes interessadas para uma melhor racionalização de recursos públicos direcionados à area, e fundar a Escola de Formação de Jardineiros, ‘‘não a nível de um Canadá, por exemplo, onde o profissional estuda três anos, o que para nós é impossível, mesmo sendo o ideal’’ , mas para formar profissionais especializados que possam atender a demanda, sendo responsáveis pela manutenção de nossa imensa, bela e verde Maringá.
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E como a partir de hoje passamos a ser governados por um novo prefeito, José Cláudio, doutor Annibal divaga sobre alguns temas políticos por nós comentados: ‘‘Sou contra a reeleição, reeleição é como café requentado. Em qualquer nível...o bom administrador via de regra faz seu sucessor, mas o que na verdade acontece, por uma questão de vaidade, é que o político não prepara seu sucessor...’’
A nosso pedido manda um recado ao novo prefeito: ‘‘Agora que se inicia um novo governo, desejo que o a preservação do Meio-Ambiente , a qualidade de vida, o desenvolvimento sustentado em bases humanistas sejam fatores primeiros para nosso crescimento. Faço votos que possa, frente à Prefeitura, realizar um grande trabalho, pois ele é depositário da esperança dos cidadãos maringaenses’’. E se prontifica: ‘‘Se José Claudio precisar de minha colaboração estou à disposição. Aceitarei de bom grado participar de assuntos ligados ao meio-ambiente, como conselheiro, não com cargo público. Sem nenhum vencimento, sem nenhum salário. Só quero continuar ajudando esta cidade que tanto amo’’. Cidade que tanto lhe deu, mas que também tanto recebeu, pois como nos disse relembrando uma máxima aprendida com seu pai: ‘‘O homem quando nasce adquire a paternidade de seus pais, e quando ele morre adquire a paternidade de suas obras.’’

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