CARMEN RIBEIRO - MARINGÁ
Como Noel nem sempre está acessível para uma conversinha, aproveitamos que o espírito natalino paira no ar e tentamos um contato com o Pólo Norte. Felizmente o velhinho estava em seu momento de descanso, deixando seus ajudantes terminarem de embrulhar os presentes, e nos atendeu de bom humor e gentilmente. Muito bem acomodado em sua cadeira de balanço, de pança pro ar, com Mamãe Noel fazendo um cafuné, achou oportuno o bate-papo, pois assim poderia esclarecer algumas inverdades a seu respeito, que circulam neste mundão de Deus. É fruto de nossa imaginação, mas façamos de conta que é real, pois assim fica mais saboroso.
Noel, vou começar com um assunto que sempre me chateou, e que há muito quero uma resposta. Por que naquele Natal deixou meu sapatinho vazio na janela, quebrando o encanto?
Ah, minha filha, eu devia estar muito atarantado, muito atarefado distribuindo presentes e passou despercebido aquele pedido, ou então eu não achei seu endereço...
Não senhor, isso não é desculpa, pois a amiguinha na casa ao lado recebeu o seu, igualzinho ao meu pedido. Era só pular o muro.
Pobre criança! Você não sabe que as distâncias muitas vezes não são medidas por metros? Existem outros parâmetros, acima da compreensão infantil.
Não entendo mesmo, afinal, sempre ouvi dizer que você era o Noel de todos, que o Natal era um momento de igualdade, fraternidade.
Mas era pra ser isso mesmo. Infelizmente, existem certas barreiras que nem eu consigo ultrapassar.
Tá bom, a explicação é metafórica, não objetiva. Não vou ficar filosofando com você sobre problemas pessoais, pois não vamos chegar a um ponto em comum.
Você é mesmo teimosa, garota, vou ter que abrir seus olhos, fazê-la acordar e compreender minhas limitações. Nasci do sonho, da compaixão, do desejo humano de compartilhar com todos a data mais bela do calendário cristão. Fui criado à imagem e semelhança dos homens de boa vontade, humanistas, mas falhos, por isso, quer queira ou não, também sou falível. Você reclama que eu não lhe dei tudo o que pediu, mas pense bem, olhe pra trás, veja o presente e pense no futuro. Quanto momentos lindos viveu para compensar as tristezas; quantos amigos tem para compensar as lutas do cotidiano. Dei-lhe muitas coisas, não somente no Natal. Os dias difíceis foram compensados com semanas felizes, os meses complicados foram recompensados com um balanço do ano positivo. E você ainda acha que eu estou em dívida com você?
Mas Noel, e aquele presente??!!!....
Escute bem, a vida já é um brinquedo, sensível, quebradiço, um quebra-cabeça difícil de se encaixar, as peças racham e se desgastam. O que posso fazer é tentar facilitar, mas você tem que ser a mecânica, compor, recompor, engraxar, lubrificar, colocar pra funcionar e andar. Quando não, voar. Os homens só pensam em ganhar, chega o Natal e todos pedem, todos querem.
Agora pergunto eu: Quantos presentes você deu, quantos você agasalhou, quanta fome você saciou? Quantos você amou e quantos você perdoou? Estes são presentes divinos, são dádivas, sem cobrança, sem preço, sem juros. Sem data específica de doação. É sua humanidade sendo cultivada, regada, adubada, colocada à prova.
Tudo bem, seu discurso é comovedor, mas ainda assim acho que você deve muito a muitos!
Você é mesmo uma cabeça dura, intransigente. Pare e pense. Não sou eu quem deve nada a ninguém, a muitos, milhares, milhões como você afirma. Não fui eu quem os relegou à miséria, à fome, ao frio, à doença, à desesperança (aliás, até eu que sou o símbolo da esperança, sofro os respingos). Tudo isso é um presente do homem ao próprio homem, a seu próprio irmão. O meu consolo é saber que pelo menos um dia no ano, a esperança, a bondade e a dignidade desabrocham no coração de muitos. Já é o primeiro passo.
Tá legal Noel, desculpe meu egoísmo e vamos conversar sério. O senhor sabe o que acontece com as crianças por aqui, não é?
Sei sei, mas não tenho nada com isso...
Claro, mas não tem um jeitinho só seu pra mudar essa realidade?
Infelizmente não, sou Noel, não milagreiro. E pelo que se vê, ouve e sabe, nem mesmo uma varinha de condão consegue modificar a situação.
Pois é, os responsáveis falam, falam, falam, criam programas, inventam siglas, mas nada é resolvido. As boas intenções afundam, o dinheiro evapora, e a realidade torna-se a cada dia mais dura.
Tô sabendo, faltam escolas, moradias, políticas familiar e de saúde, em sendo assim, nem Papai Noel com toda sua boa vontade consegue resolver o caos.
Verdade, verdade. Crianças abandonadas, sem educação, frequentando o mundo do crime, pais desempregados e trabalho infantil desumano formam o mapa capenga e desinforme de uma realidade brutal que atinge milhões de famílias brasileiras.
Tenho tido notícias. Tem hora que me dá vontade de abandonar tudo e fechar minha fábrica de sonhos, pois não é justo que enquanto uns ganhem tanto, outros sejam podados, despojados, humilhados.
Faz isso não, bem ou mal o senhor ainda é a esperança de um mundo melhor.
Eu sei, eu sei, por isso mesmo que meu desâmino é regado a esperança. Os homens foram feitos à semelhança do Pai, têm dentro de si, nem que sejam resquícios, bondade e honestidade. É terrível imaginar o contrário. E eu, por mais que possa querer, não consigo fazer com que os que decidem tragam à tona, de volta, a criança e a ternura que eu acredito devem estar adormecidas em suas almas, talvez enlameadas, mas latentes. Esse não é um tipo de presente que se dê, tem que ser fluido, desabrochado, cultivado pelo próprio eu.
Noel, é bom conversar com você, seu otimismo é contagiante.
Mas só sendo otimista para poder enfrentar a dura, pétrea verdade. Se no Natal sou o símbolo do amor, sou também o espelho de uma realidade que fere e desfere tapas na consciência dos homens de boa vontade. Por mais que pensem que sim, eu não tenho autonomia, não posso e não consigo chegar até determinados endereços. Eles me são fechados, trancados, escondidos. Já tentei mas não consigo realizar um Natal pleno em que a esperança de todos seja realizada, que todas as crianças me recebam sorrindo. Pra isso acontecer preciso, desesperadamente, da ajuda de vocês. Agora sou eu quem pede socorro! Sou eu quem, na minha impotência, tangido pela miséria humana, me sinto diminuído, incompleto, injusto. Sou eu quem na noite de Natal vou ter que me desviar de certas casas, de certos barracos, de algumas ruas, de algumas pontes, de algumas marquises. Fugindo dos seres humanos ao relento, abandonados, desesperançados. Não vou conseguir olhá-los, ver em suas retinas a decepção, e mesmo assim o perdão. Só vocês podem me ajudar. Não dá mais pra deixar pra depois, não dá mais pra postergar. Salvem minhas crianças, meu adultos, meus velhos, meus filhos! Eu sou impotente em meu limitado espaço de ação.
Assim o senhor me emociona!!!
Só emoção não resolve, minha jovem, é preciso transformar emoção e sentimentos em ação. É preciso transmudar homens comuns em papais noéis durante todo o ano. É preciso que a classe política se humanize, priorize, realize. Não adianta quando chega dezembro tentar encobrir a realidade. Tudo bem, um brinquedo, um doce, um Feliz Natal, suavizam a cicatriz por um segundo, por um relâmpago de tempo. Mas os natais deveriam ser cotidianos.
Estou começando a me sentir culpada...
É muito bom, porque daí talvez a mudança comece. A culpa só tem quem deve, quem não participa, quem não luta, não sai da letargia. Eu sei que você faz, a seu modo, alguma coisa, mas não é o suficiente. Nada do que os homens estão fazendo fazendo é suficiente. Pois se fosse, há muito a realidade seria outra. Ou quem sabe ela nunca tivesse existido.
Quer dizer que todos nós, bem ou mal, temos nossa parcela de responsabilidade pelo que acontece com nossos irmãos? Assim, sem dó nem piedade?
Claro que sim, a humanidade é uma só. Una, entrelaçada, o que acontece com um reflete em todos.
Ok, prometo que vou cumprir minha parte e tentar fazer com que os à minha volta também o façam.
Certo, como dizem vocês aí neste País cheio de encanto e cheio de graça, uma andorinha sozinha não faz o verão, mas um mutirão faz o ciclo completo. E em meu nome e em nome da minha turma agradecemos, vai nos ajudar muito, vai facilitar nosso trabalho no próximo ano.
Quem tem que agradecer somos nós, pelo privilégio de poder contar com sua simpatia e seu puxão de orelha. Vez em quando deitamos em cima dos louros e nos esquecemos dos nossos pecadilhos.
Não se preocupe, faz parte. Tem dias que eu também dou uma escorregada, mas depois me recomponho e vou à luta. Afinal eu não sou nem melhor nem pior que todos vocês. Somos absolutamente iguais, sua missão é que talvez seja um pouco mais espinhosa, pois enquanto eu esgrimo com o imaginário, você tem de de viver e conviver com a realidade. Mas tudo bem, cada um na sua, mas com alguma coisa em comum (tá vendo como eu conheço bem este Brasil). Feliz Natal!
Obrigada, mas antes do tchau vamos falar rapidamente de um assunto importante e urgente: Será que o senhor não poderia dar uma forcinha para o nosso prefeito eleito, José Claudio, que assume daqui a alguns dias? A coisa aqui em Maringá está fervendo (você deve ter ficado sabendo do rombo na Prefeitura, que daria pra comprar presentes pra todas as crianças deste mundaréu e ainda sobraria troco) está um caos, e o moço vai precisar de muita paciência, trabalho e determinação, e até ajuda divina para reverter a situação. Só pra informar, este talvez tenha sido o Natal mais sem brilho e apático de nossa cidade, com todos fungando e refungando com a anarquia e despudor de alguns cidadãos.
Tá legal, vou dar de presente para seu prefeito uma boa dose de tolerância, sapiência e saúde pra aguentar o tranco, desculpe o palavreado. E já que vou ser destaque na Folha, em agradecimento, vou também dar uma força ao novo prefeito de Londrina, e ao de Curitiba, ao de Foz, Toledo, Cascavel...a todos os prefeitos do Paraná. Eles também merecem!
Obrigada. Ano que vem conversaremos novamente. Ah, só uma coisinha, me despedindo e agradecendo a atenção dispensada pelo ilustre personagem, mais uma vez eu pergunto, por que eu não ganhei aquela...
Carmen, por favor, pode parar. Com perdão da gracinha, não enche mais meu saco. Ho, ho, ho, FELIZ NATAL!
Tá bom, tá bom Papai Noel, se acalme, e me ouça com atenção: Feliz Natal pra você também e ...obrigada por você existir!





