CARMEN RIBEIRO - MARINGÁ
Rita Maia Paes é um desses seres humanos especiais. Independente da amizade que nos une há muitos anos, procuramos fazer da isenção um trunfo, não uma obrigação jornalística. Só assim poderemos chegar o mais perto possível da realidade. Esposa, mãe, avó (fresca), generosa, é uma das pessoas mais bem relacionadas de nossa cidade, com um bom humor a toda prova. Eternamente alegre e de bem com a vida.
Há poucos dias comemorou os 25 anos de sua Varig Rio/Sul, comandando uma empresa forte, consolidada e respeitada por seu profissionalismo e retidão no trato com seus clientes. Há 30 anos ligada à aviação, começou na Transbrasil, e depois, em 1975, convidada pela VRS que nascia e se expandia por todo País, estruturou e é até hoje a responsável pela empresa maringaense. Fez do lema crescer e crescer com seriedade e competência seu objetivo, e como afirma, poucos maringaenses voaram pelos céus do Brasil ou do mundo sem passar pelas minhas mãos. Mas Rita Maia tem o seu outro lado. Não o da profissional, não o da bem humorada amiga, não o da empresária participativa, mas o lado humanitário e afetivo realçado não somente por sua colaboração com eventos beneficentes, mas pela descoberta há alguns anos de um outro lado da vida, do cotidiano, da realidade dura e sofrida das crianças filhas dos bóias-frias, quando não elas próprias trabalhadoras braçais. E ao dar-se conta do privilégio de ser uma mulher/empresária bem sucedida, com filhos bem criados e resolvidos, sucumbiu ao coração e dispôs-se a proporcionar aos pequenos pelo menos um dia de de felicidade, de sonhos (quase sempre tão pequenos) realizados. Travestiu-se de Mamãe Noel urbana e saiu a campo, literalmente. Sem pedir ajuda financeira a ninguém, com a cara e a coragem começou a estruturar sua Festa de Natal Rural particular.
Filha de uma grande família mineira, que veio pra Maringá há dezenas de anos, aprendeu e cultivou um princípio basilar de companheirismo e solidariedade. Desde jovem se integrou à comunidade, dando sua colaboração ao Albergue, e encantada com o trabalho das freiras, decidiu seguir o coração. Foi para o Mercês em Curitiba, e lá descobriu que apesar de bela e fecunda, a vida religiosa não era sua vocação, seu trabalho em favor dos menos favorecidos poderia ser feito aqui fora mesmo. Mano-a-mano.
Partindo do princípio de que o individualismo não é um bom conselheiro, e que o todos por todos, ou todos somos responsáveis por todos é a semente que dá fruto, jamais negou-se a dar uma força a quem precisasse. Amigos, familiares, desconhecidos, enfim, todos que a procuram têm sempre um retorno positivo. Por isso sua afirmação: Meu otimismo e minha fé são tamanhos que nunca deixei de realizar o que desejei. Realizou e realiza. E distribui.
Rita, que literalmente vive nas nuvens em sua empresa, também tem seu pé fincado no chão, ou melhor, na terra. Um dia, numa igreja da comunidade pertencente à sua propriedade rural, em Terra Boa, assistiu emocionada à 1ª comunhão de um grupo de crianças, filhos de bóias-frias, de chinelinhos nos pés e Jesus nos olhos. E lá, em sua conversa com Deus, com sua linha direta, pensou, se não posso mudar totalmente essa realidade posso tentar minorá-la, posso dar um passo, e quem sabe um dia outros me sigam, nascendo daí seu Natal Rural, e já se vão quatro anos. No início foram 90 crianças com seus pais, irmãos, num total de aproximadamente 200 pessoas que tiveram um dia da guloseimas, presentes, refrigerantes, brincadeiras e a família Noel, formada pelos Papai, Mamãe e Filho, para dar um sentido familiar às crianças tão carentes e humildes. Nos natais seguintes o número de participantes aumentou, aumentou, e este ano foram 250 crianças + familiares num total aproximado de 600 pessoas. Sábado, dia 16, depois de meses de organização, pois o cadastro é feito no armazém local desde julho, a festa aconteceu: o salão da paróquia todo enfeitado com 5000 bexigas, 30 bexigões para serem estourados, cheios de lembrancinhas, 20 mesas decoradas, e a Família Noel distribuindo os presentes à garotada. Todos os presentes caprichosamente separados por sexo e idade, embalados em papel de seda e laçarotes de fita. Um dia de fraternidade e alegria.
Segundo Rita, nada, absolutamente nada do que é distribuído é desperdiçado, todos comem e bebem à vontade, sem limites, e o que sobra é embrulhado pelas mães que levam para casa, inclusive a decoração, que servirá para enfeitar as casas humildes. Apesar de tudo, a dignidade está presente, a gente vê que ainda há esperança. No olhar de cada criança, de cada mãe, há um sentimento de amor indescritível, comovedor. Detalhe: a festa é animada por música ao vivo, com todos dançando, brincando, felizes e esquecidos da dura realidade. E já pensando no ano que vem, que certamente terá repeteco. Palavra de Rita.
Mas ela ainda tem outros objetivos, o Médico Rural, uma campanha que quer realizar levando até a comunidade rural profissionais que façam consultas e exames, que cuidem da saúde da garotada. Descobrir líderes, desenvolver a auto-estima dos trabalhadores, e se possível levar a Pastoral da Criança até os pequeninos do campo, também estão em sua mira. Todos unidos na luta pela vida e dignidade desses pequenos seres que precisam de uma base moral, religiosa e física para poderem lutar por um futuro menos degradante. Ensinar as mães a produzir produtos artesanais tipo compotas, defumação, bordados também fazem parte do plano, assim a mulher do campo terá opções de trabalho quando está em casa ou desempregada.
A mamãe Noel da Rio Sul também nos conta que sempre que pode entra em contato com os coordenadores de congressos, seminários e eventos realizados em Maringá, e pede que doem o material que sobra, tipo bolsas, pastas, canetas, bloquetos de anotações, cadernos, para serem entregues às crianças .A maioria só vai até o 4º ano, indo às escolas longe de casa, a pé, de bicicleta, de charrete. Elas precisam de nós, não é só o governo que tem a obrigação, nós também temos. Cada um que faça sua parte. Somos todos responsáveis pelo futuro dessas crianças.
A propósito, Rita nos pede que divulguemos que se algum proprietário rural estiver interessado em realizar seu Natal Rural no próximo ano, é só procurá-la: Eu me proponho a dar todos os subsídios, pois eu sei que muitos podem arcar com as despesas. Eu pago tudo sozinha, não peço nada a ninguém, e o retorno é um dos momentos mais bonitos que se possa imaginar. Nada, preço algum paga o sorriso e o olhar feliz de uma criança ao receber seu presente, tocar em Papai Noel, tomar um refrigerante, comer um doce .
E certamente os céus os abençoarão.
No apagar das luzes, Rita ainda filosofa sobre a responsabilidade e o papel de toda uma geração que hoje está no comando, respondendo pelos erros e acertos, Nossa geração foi uma geração sanduíche. Prensada pela tradição do passado e pela evolução do futuro, do desafio, do novo. Comecei com minha empresa com o telefone ligando interurbano através telefonista, passei pelo telex, hoje estou na Informática. Foi tudo muito rápido. É preciso olhar sempre para a frente, se olhar pra trás, tropeça e cai. Mas foi ela, nossa geração, quem segurou a onda, quem criou base para a atual. E retorna ao batente, pois além de organizar a festa dos 25 da Rio Sul em Maringá, o Natal Rural, ainda saiu a campo para coordenar o Natal em família que reunirá 160 pessoas para ceia e almoço.
É isso aí, mulher de verdade, sim senhor!





