Campus dos sonhos
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de junho de 2007
Angela Raizer Barbosa<br> Reportagem Local 
Trabalhar é verbo de tempo permanente para Cristina Bortoni Versari, Ph.D. em psicologia do esporte, a primeira brasileira a obter esse título. Por conta do trabalho, ela vive com a agenda lotada, seja em San Diego, na Califórnia, onde mora; seja em Londrina, onde nasceu e que de tempos em tempos visita para rever familiares e a trabalho; seja em qualquer cidade do mundo, sempre convidada a dar palestras sobre a área em que atua.
Foi o que aconteceu no último final de semana, quando ela chegou em Londrina para cumprir uma agenda interminável em apenas dois dias: passou o sábado no Hotel Bourbon, em reuniões com diretores de escolas de inglês, pais de estudantes e imprensa. À noite jantou com amigas de infância e, no domingo, antes de embarcar para os Estados Unidos, reuniu-se com parentes num café da manhã.
Isso tudo nada mais é que o resultado de sua ascensão no seletíssimo mercado profissional norte-americano, onde aportou assim que concluiu as faculdades de psicologia e educação física, no Rio de Janeiro. Cristina foi para a Califórnia com a promessa de voltar assim que concluísse o mestrado, mas acabou ficando para o doutorado, dando início a uma trajetória brilhante, que culminou com a criação de sua própria universidade, em 1999, a San Diego University For Integrative Studies, onde também é reitora.
A história de Cristina poderia terminar normalmente com a conclusão do doutorado e o retorno ao Brasil, caso ela não tivesse espírito inquieto e vocação empreendedora, a exemplo de sua mãe, Maria Bortoni (coordenadora executiva do Projeto Pixinguinha na década de 80), que atualmente mora em Londrina e representa a universidade da filha em convênios e intercâmbios para estudantes brasileiros. A San Diego oferece 12 cursos de pós-graduação em várias áreas, cursos de inglês, do básico ao avançado, para estudantes do mundo inteiro, além manter um programa de ensino a distância para 32 países de vários continentes.
Mulher de personalidade forte, Cristina aprendeu desde cedo com a mãe a correr atrás de seus sonhos e realizá-los por conta própria. Workaholic assumida, cosmopolita, sempre em busca de novos desafios, Cristina desempenha também um cargo de extrema responsabilidade junto à NBA - Liga de Basquete Profissional dos Estados Unidos, um esporte que em termos de paixão que desperta equivale ao nosso futebol. Nessa função, ela é a terceira pessoa na hierarquia da NBA, prestando orientação vocacional aos atletas na escolha de uma nova carreira quando deixam as quadras. É a primeira vez na história da NBA que uma mulher ocupa essa posição; sendo estrangeira, então, o cargo é mais do que honroso para essa londrinense que desenvolveu seu verdadeiro talento longe daqui.
Tudo em sua trajetória remete à concretização do que para muitos é puro sonho. Da infância e parte da adolescência, vividas em Londrina, ela não esquece jamais. Cristina conta que estudou no Colégio Hugo Simas até os 15 anos, quando mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde se formou em psicologia e educação física na Universidade Gama Filho. Foi com o incentivo dessa universidade que ela aceitou o desafio de partir para um mestrado em psicologia do esporte, seguido de doutorado na United States University, em San Diego.
Mas não foi um caminho suave até chegar lá. ''Sempre tive que estudar e trabalhar muito'', lembra. Ao tomar a decisão de deixar o Brasil, para continuar os estudos no exterior, há 25 anos, numa época em que a palavra globalização ainda não estava na moda, ela não pensou muito nas dificuldades que teria pela frente. Recém-formada, casada, com duas filhas, de quatro e um ano de idade, longe da família, num país estranho e conhecido pela frieza com que trata os estrangeiros, sem a ajuda de ninguém, até porque mão-de-obra para serviços domésticos praticamente não existe lá. E, mesmo hoje, com as condições financeiras que a profissão permite, continua desempenhando dupla jornada. ''Passo o dia trabalhando na Universidade ou viajando pela NBA, e quando chego em casa vou para a cozinha preparar o jantar'', admite.
Ao falar de seu cotidiano, Cristina revela que é difícil ter vida social nos Estados Unidos, ''as pessoas não costumam receber em casa, os vizinhos não se conhecem e qualquer encontro com colegas de trabalho tem de ser planejado com muita antecedência''. O pouco tempo que sobra para o lazer, ela aproveita para curtir o que lhe dá mais prazer. ''Quatro a cinco vezes por semana faço natação. Nos fins de semana vou dançar, fazer caminhadas por trilhas ou passear de avião com meu namorado (divorciada do primeiro marido, Cristina namora o advogado e empresário americano Randall McManus, que veio com ela a Londrina). Mas reconhece que a maior parte do seu tempo investe mesmo no trabalho, que ela adora.
Voltar para o Brasil? Nem pensar. O sucesso que alcançou até agora não permite que ela sequer sonhe no retorno. ''Gosto muito daqui, de encontrar os amigos, do carinho das pessoas, mas não conseguiria mais viver no Brasil, minha vida gira em torno da universidade, minha irmã (Cíntia, casada com um americano) também mora lá, minhas filhas, Daniela e Juliana, hoje com 29 e 26 anos, já terminaram a faculdade e trabalham comigo. Hoje tenho estabilidade financeira, segurança e tranquilidade. Consegui muito além do que eu planejava, mas ainda pretendo escrever livros sobre psicologia do esporte, um assunto que domino, para passar adiante tudo o que aprendi''.
®MDBO¯®MDNM¯
Cristina mora hoje numa mansão à beira-mar na ensolarada San Diego, mas a praia que ela tanto curtiu quando morou no Rio, hoje se resume à paisagem que se descortina à frente de sua casa. ''O cenário é lindo, parece Ipanema, mas impossível entrar no mar, mesmo no verão, a água é muito fria'', lamenta ela.
Na despedida, Cristina entrega seu cartão pessoal. No pequeno retângulo de papel branco, o que chama atenção ao lado do endereço, telefone e e-mail, é o delicado coração vermelho desenhado dentro de um círculo vazado... um sinal de que, apesar do sucesso, ela não perdeu a ternura.


