Campeão do carinho
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sábado, 02 de agosto de 2014
Érika Gonçalves<br> Reportagem Local 
Periodicamente, o analista de documentação Abel Domingues Souza, de 45 anos, pega sua velha bicicleta, uma mala e segue para alguma comunidade carente nos arredores de Curitiba. Dentro da mala vai a alegria de muitas crianças. Há oito anos Abel está à frente do Cabeça de Coco, um projeto que leva teatro de bonecos, feitos com materiais reciclados, a crianças que vivem em comunidades carentes, ou que estão em hospitais, orfanatos, escolas, aldeias indígenas, entre outros lugares.
"Na verdade, minhas atividades voluntárias iniciaram aos 17 anos de idade, como papai noel, inclusive em 2005 recebi o Título de Operário Padrão da Cidade de Curitiba por realizar trabalhos voluntários como papai noel em hospitais do câncer, asilos, orfanatos e comunidades carentes", explica.
Como o personagem natalino só aparece uma vez ao ano, Souza conta que resolveu pensar em alguma outra coisa que possibilitasse o voluntariado todo os dias. Em 2006 surgiu a Cia Cabeça de Coco, onde - como o nome diz - a cabeça dos bonecos é feita com coco seco.
A escolha pelo teatro de bonecos vem da infância de Souza. "Minha família era muito carente. Algumas vezes vinha um circo para Curitiba e a escola em que eu estudava levava os alunos para assistirem ao espetáculo. O problema é que a gente precisava levar um sabonete ou uma lata de sardinha e eu não tinha condições. Me lembro de eu e outros meninos voltarmos para casa, às vezes chorando, porque não podíamos ir ao circo e eu não entendia o motivo. Então decidi fazer teatro de bonecos, é uma coisa simples, que eu posso levar para qualquer lugar", conta, emocionado.
Segundo ele, o objetivo maior é transformar lixo em arte e sair de um espaço comum, entre quatro paredes. "É deixar nossa zona de conforto e levar espetáculos gratuitos para crianças e comunidades que jamais tiveram acesso aos shoppings, museus, salas de teatro, e que talvez nunca em suas vidas terão oportunidades e condições para tal", reforça.
A escolha pela bicicleta também é proposital. Souza diz que até poderia ir de carro, já que o veículo atual limita um pouco, além de exigir uma boa forma física, mas acredita que dessa maneira fica mais próximo das crianças. "Mesmo um carro mais simples acaba causando um impacto. Dependendo do lugar vou de carro porque algumas comunidades ficam muito longe, mas estaciono antes e termino o percurso com a bicicleta." Além da mala com os bonecos, ele leva o palco desmontado. Seu fiel ajudante é o filho caçula, Gabriel, de 14 anos, que desde os 5 o auxilia.
"Ele faz com o maior carinho e tenho certeza de que quando eu parar, ele vai continuar. Mas minha esposa (Márcia) e meu filho mais velho (Thiago) também são parceiros, pois entendem quando em pleno domingo deixo a companhia deles para ir para alguma comunidade."
Além do teatro, em algumas dessas visitas Souza e o filho também ensinam as crianças a fazerem os bonecos. "A ideia do uso de materiais reciclados é justamente para poder possibilitar que eles também confeccionem seus bonecos e, quem sabe, até mesmo criem sua própria cia de teatro de bonecos, para também levarem arte e cultura para dentro de suas comunidades."
Nas histórias os personagens do folclore, como o curupira, fazem companhia para crianças que sofrem bulling e têm as mesmas dificuldades daquelas da comunidade visitada. "Antes pegava histórias prontas, mas agora observo as crianças e vou contando conforme a situação. Quando possível, falo também sobre drogas, por exemplo, mas nem todo lugar permite", afirma.
Com tanta dedicação ao próximo, Souza foi um dos três voluntários brasileiros eleitos como Campeões do Carinho, em campanha promovida pela Johnson & Johnson. Além de um troféu, ele ganhou uma viagem ao Rio de Janeiro e dois ingressos para a final da Copa do Mundo no Maracanã, jogo ao qual assistiu na companhia de Gabriel.
"Meu filho mais velho soube da campanha e pediu que eu me inscrevesse, então achei que seria uma ótima ideia para criar multiplicadores através da divulgação. Nosso projeto, entre milhares em todo o Brasil, foi um dos três mais votados. Foi uma sensação muito prazerosa e gratificante. Através desse reconhecimento, podemos ter a certeza de que cada segundo de intensa dedicação e amor valeu a pena. E tudo isso serve como incentivo para que sigamos sempre nessa caminhada do bem em prol de nossas crianças" reforça.


