O visual sóbrio e o jeito tranquilo de se movimentar mostram de cara que Camila Pitanga e sua personagem, a prostituta Bebel de Paraíso Tropical, estão anos-luz de distância uma da outra. Avessa aos exageros, a atriz precisou se livrar de alguns preconceitos antes de achar o tom certo na novela de Gilberto Braga. Além de entender melhor os motivos que levam as mulheres a viver da prostituição, Camila está reaprendendo a fazer coisas que, para uma mulher de 29 anos, não deveriam ser incomuns. ''No início achei que ia apanhar muito para gravar com os saltos altos que a Bebel usa, mas estou me acostumando''.
E diversão é a palavra que a atriz mais usa para definir o atual momento. O que, no início, era um peso, se transformou em uma grande brincadeira. Quando foi cogitada para o papel, Gilberto Braga temia que Camila não convencesse encarnando uma mulher vulgar e sem escrúpulos. Aliás, o personagem foi escrito inicialmente para Mariana Ximenes, que recusou o convite. Camila chegou a ter o mesmo receio de Gilberto, mas a autoconfiança falou mais alto. ''Eu tinha de acreditar em mim. Hoje vejo as cenas e me divirto demais com o resultado''.
Ela conta que, de cara, ficou apavavorada. ''Reagi um pouco, com medo, e não aceitava esse lado ruim que ela tem. Ficava entusiasmada, mas sentindo um peso nas costas. Tive dúvidas se conseguiria convencer com as atitudes da Bebel. Além disso, eu julgava muito a minha personagem. Quando comecei a conhecer melhor o mundo das prostitutas, enxerguei finalmente a situação desarmada de preconceitos. Foi aí que a Bebel começou a ser construída''.
Camila aguçou o foco em coisas que poderiam ter relação com a Bebel, ligada em tudo que pudesse usar para encontrar o tom da personagem. ''Quando estava na Bienal de São Paulo, por exemplo, vi uma instalação da fotógrafa Virgínia Medeiros sobre travestis. Entre elas havia uma chamada Bebel. Fiz contato com a artista e ela me mandou um DVD com um documentário que fazia parte dessa instalação. Na Barbarella, uma boate de prostituição de Copacabana, até procurei algo, mas não gostei. Tive orientação para as cenas de stripper de uma dançarina de lá, a Adriana, e isso me ajudou muito. A Adriana ficou em um palco e eu, no outro. Aos poucos, fui encontrando o meu jeito de dançar. O que me chamou atenção na Adriana é que ela consegue mostrar a bunda, o peito, de maneira sensual. Ela é especial entre todas as dançarinas que conheci. Mas o clima daqueles lugares não era o mesmo da Bebel''.
Camila revela que visitou também a Ong Davida, formada pelas meninas da Daspu, e aí começou a se definir. ''Acho que ali foi o meu antes e depois para esse trabalho. Quebrei meus preconceitos, me livrei do estereótipo da prostituta coitada, lasciva... São pessoas com histórias diversas e vi que tinha de entrar a fundo no que era do caráter da personagem. A prostituição não é um detalhe, mas, na verdade, é só o trabalho dela. Caráter é outra coisa. Não posso me apegar ao ofício para idealizar quem é aquela mulher. A Bebel é metida, se acha melhor que as outras, é arrogante. Isso independe da profissão. Seria assim em qualquer outra área. Ela é uma jogadora ambiciosa, se camufla para poder ganhar alguma coisa''.
Mesmo assim ela achou que iria demorar a achar o tom certo. Era um receio enorme, segundo Camila. Não foi à toa que Gilberto Braga conversou com ela. ''Disse que me achava muito princesa. Aí me explicou que a Bebel era uma puta, piranha no pior sentido da palavra, mulher da vida, rodada até dizer chega. Ainda não deu tempo para ter o retorno de público, mas assisto e me divirto. Quero aprimorar. Não estou fazendo uma revolução, mas não me vejo fazendo feio''.
Durante o período de composição da personagem, Camila conheceu várias strippers e percebeu que todas as meninas que trabalham com isso acabam tendo um corpo mais definido. Mesmo assim, não pretende malhar mais do que o necessário. Para a atriz, não vale a pena colocar o corpo à frente da saúde. ''Não sou marombeira, não me vejo bem daquele jeito. Além disso, preciso trabalhar o texto e não tenho tempo para tudo''. Para evitar que seu corpo mude, Camila varia os exercícios físicos que compõe seu horário de ginástica diário. A atriz ocupa esse tempo com hidroginástica, musculação e atividades aeróbicas, como corridas. ''A Bebel se exibe muito. Se vou ter de mostrar meu corpo, que seja com dignidade'', defende, às gargalhadas.
Ao falar de sua trajetória, Camila, que começou na tevê aos 14 anos, lembra que ficou assustada com o sucesso. ''Eu era moleca, estava descobrindo minha feminilidade e as pessoas começaram a me usar como referência de sensualidade. Era um peso ruim porque eu chegava em lugares que já frequentava antes com meu pai (o ator e diretor Antonio Pitanga) e virava um acontecimento. Eu rejeitava, achava aquilo totalmente equivocado. Meu pai era um ator importante no Cinema Novo e não tinha aquela recepção. Eu me sentia mal. Isso me me entristecia, aliás, me entristece até hoje.''

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