Às vésperas do casamento, quase três décadas atrás, a paulistana Aissa Basile recebeu uma proposta tentadora de emprego. ''Foi como ganhar o prêmio da loteria'', lembra Aissa, que na época trabalhava como publicitária. Convidada para ser consultora de moda uma fábrica têxtil cliente da agência na qual trabalhava, ela foi sincera logo de início. ''Disse que não entendia nada de tecido'', conta. Foi contratada mesmo assim.
''Eu ganhava cinco e me ofereceram 15, mais carro e curso em Paris'', diz Aissa. ''Quase que desisti de casar'', brinca. Não desistiu, mas também não abriu mão da oportunidade de ouro. Na capital francesa, a consultora teve aulas no Promostyl, badalado bureau de estilo. Desde então não parou mais de estudar. ''Moda é interminável. Quem não gosta de estudar não pode trabalhar com moda. Aliás, todo profissional, de qualquer área, que não se recicla morre na praia'', avisa.
Depois de passar 13 anos na indústria têxtil, passou para o varejo, como diretora de moda de lojas como Renner e Riachuelo. Em sua passagem pela extinta Sears, do mesmo grupo inglês que comanda a Selfridge's, teve a oportunidade de conhecer o sistema de vendas da conceituada loja de departamentos de Londres.
''Sou uma varejista nata'', garante a consultora, que esteve no Paraná esta semana para apresentar o novíssimo Fashion Preview. Para um público formado basicamente por empresários de moda, Aissa falou, em Curitiba e Londrina, sobre o Verão 2006, antecipando em um ano o que vai estar nas lojas e ruas do Brasil.
Foi a segunda vez que a consultora esteve em Londrina num intervalo de apenas dois meses. Em setembro, durante o Estação Fashion Londrina, Aissa antecipou para a platéia as tendências para o outono-inverno. O convite partiu da parceria do Sebrae/PR, Associação Paranaense da Indústria Têxtil e do Vestuário (Vestpar), Sivepar (Sindicato das Indústrias do Vestuário do Estado do Paraná), Conselho da Mulher Empresária, Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil) e Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). A apresentação do Fashion Preview fez parte das ações do Programa de Competitividade para o Vestuário de Londrina e região iniciado em agosto.
''Saí da Riachuelo numa sexta-feira à noite e no sábado às 9 horas já tinha uma proposta do Paulo Skaf então presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit) e atual presidente da Fiesp'', lembra Aissa. Desde então ela é a ''trend-setter'', uma espécie de farejadora de tendências da Abit. ''Viajo no mínimo quatro vezes por ano para a Europa e duas vezes para os Estados Unidos'', explica.
Dessas viagens, o resultado são quatro ''Fashion Preview'' por ano que apresenta pelo Brasil. ''Desta vez, o Paraná saiu na frente e é o primeiro a ver este produto atrás apenas de São Paulo'', conta. ''Todos querem saber ao mesmo tempo'', lembra a consultora, que tem na platéia desde profissionais de redes como Wal-Mart e Pernambucanas até a consultora Costanza Pascolato. Para Aissa, isso é prova ''de confiança no meu trabalho. A Costanza assiste aos mesmos desfiles que eu, mas também vai ver a minha apresentação'', lembra.
''Sou uma varejista nata'', confessa Aissa. E na hora de montar um Fashion Preview tem a preocupação com os resultados de caixa do seu público. ''Faço adequações para o Brasil e até para as diferentes regiões que visito'', lembra. ''A minha função é pesquisar, definir e informar. E toda a cadeia têxtil deve pensar desse modo'', ensina.
De olho nos criadores internacionais, Aissa acredita que os grandes influenciadores estão na Itália. Cita as grifes Prada e Dolce & Gabbana como aquelas ''em que eu me mato para ver os desfiles'', lembra. Entre as viagens para as quatro capitais da moda Paris, Milão, Nova York e Londres , a consultora não desgruda do seu acessório mais fashion, o notebook. ''Depois dos desfiles, à noite no hotel, já vou definindo os temas'', relata. ''O que eu faço é deixar o caminho suave para os empresários'', diz Aissa. Sua apresentação de tendências indica o caminho e, por sua agilidade, sai na frente de muitos outros consultores.
Sobre a polêmica recém-lançada que diz que o preto agora é cafona, Aissa é taxativa. ''As jornalistas que disseram isso que me perdoem, mas algumas coisas são irretocáveis e merecem no mínimo muito respeito'', explica a consultora. ''Mademoiselle Chanel deve ter se virado no túmulo ao ouvir isso'', completa. ''O preto chegou nos anos 1980, com o japonismo e o pauperismo. Depois de 24 anos, há um novo grupo de cores na base da pirâmide, mas é impossível pensar que grifes como Hermés, Chalayan, Yamamoto e Watanabe vão tirar o preto de sua cartela'', explica. ''Quando me perguntam, digo que o preto foi dar uma descansada e já volta''.
Para os interessados, a consultora avisa que a nova base é formada pelos tons naturais. ''Costumo dizer que os criadores passaram mais horas no café da manhã, por isso os tons são leitosos, cremosos e amanteigados'', ensina Aissa. Os beges também aparecem bem ao lado do cáqui, ''em grande retorno'', completa.
No Inverno 2005, que será apresentado a partir de janeiro em eventos como São Paulo Fashion Week e Fashion Rio, a consultora avisa que o tom deverá deverá ser o marrom em combinação com o rosé e o turmalina. ''Estávamos esperando pelo marrom há dois anos'', lembra. ''Assim que vi que o surfwear masculino da Califórnia estava pedindo marrom, senti que era o momento'', lembra. E para quem quer saber o que está na bola de cristal fashion de Aissa, o Verão 2006, em poucas palavras: ''Viagens e anos 1960'', antecipa. ''Viagens para o Marrocos, Ibiza, Índia e safáris na África.

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