Benza Deus! Ela também escreve
Ela não tem vergonha de admitir que é mimada. ''Quando se é uma atriz de sucesso, as pessoas retribuem com regalias'', confessa Maitê Proença. Mas ela acrescenta que há uma espécie de mal-entendido ''As pessoas acham que te conhecem, mas na verdade criam outra coisa. Usam as personagens das novelas, somam duas ou três entrevistas que nem sempre são verdadeiras e criam uma imagem.'' Maitê viveu e ainda vive no imaginário dos brasileiros como essa imagem de desejo. Talvez por isso, como ela diz, ''tenha dado para escrever''. Cronista da revista Época, faz tanto sucesso que as crônicas estão saindo agora no livro ''Entre Ossos e a Escrita, pela Ediouro.
É o tipo do livro que você vai querer ter em casa, nem que seja como colírio, para descansar os olhos com a foto de Maitê, que está linda na capa. Mas é injusto com a mulher e a autora ficar só no invólucro, por mais atraente que seja. Acostumada a expor seu material de trabalho o corpo , Maitê agora faz uma auto-exposição mais plena. Desnuda seus sentimentos, fala sobre tudo na primeira pessoa. Amor, sexo, comportamento, política. O território da crônica é suficientemente amplo para permitir que ela aborde tudo, do adultério de Luma de Oliveira à situação dos hospitais no País. Você vai ter de se despir do preconceito. O estereótipo diz que uma loira como Maitê não pode ser inteligente. Bonita e talentosa? Ó céus, o mundo é injusto. Na distribuição das riquezas naturais, Maitê consegue ser as duas coisas.
Maitê detém altos índices de leitura em Época e, às vezes, é a mais lida da revista. Como atriz, já desfruta uma exposição além do desejável. Por que expor-se ainda mais? Talvez para assumir mais livremente suas contradições. Maitê não quer ficar presa na camisa-de-força do que os outros pensam e dizem sobre ela. Como adquiriu sua liberdade de expressão em Época? ''Minha primeira crônica foi 'Peru de Natal'. Não tive sutileza nenhuma. Fui logo escancarando.'' O peru do título não é a ave, mas aquele outro. Aquele. O sexo aparece muito nas crônicas, mas não se pode dizer que Maitê só tenha sexo na cabeça.
No livro estão crônicas publicadas ao longo de 2003 e 2004. ''Mexi em grande parte delas para o livro. Teria mexido mais, mas aí o livro não sairia, porque eu ia ficar melhorando, melhorando.'' Raros desses textos saíram de um jato. O parto de muitos foi dolorido. ''Eu escrevia, achava que a idéia estava ali, mas não gostava da forma. Não faz sentido escrever, e publicar, se a forma não nos satisfaz.''
Suas crônicas discutem o papel do homem e da mulher no mundo atual. Lamenta que as mulheres andem todas siliconadas, como objetos fabricados numa linha de montagem. Aponta o próprio corpinho cheio de recursos. ''Nada aqui é falso.'' Você pensa Benza Deus! Entende as angústias do homem moderno, mas não desiste de ter um bom homem para ela.
Quem a vê tão bela, tão delicada, não avalia sua transformação. ''Fui uma criança teimosa, uma adolescente sem freios e uma adulta defendida e agressiva.'' Hoje, tendo trocado de pele mil vezes, ela gosta da pessoa que virou. As crônicas não omitem a tragédia familiar seu pai matou a mãe e se suicidou, um irmão morreu alcoólatra em seus braços. Maitê é uma sobrevivente? ''Nada disso é engraçado'', ela diz, mas não fica lembrando quanto teve de ser guerreira para enfrentar a barra. Fez análise. ''Uns três anos, depois me dei alta.'' Não sabe explicar como nem por que, mas um belo dia acordou de bem com suas circunstâncias.
Veio, recentemente, de uma viagem à Birmânia. O que foi fazer lá? ''Turismo. Era, até há pouco, um país fechado. Agora abriram, mas muita coisa permanece vedada para os turistas.'' As plantações de papoula, das quais sai a heroína, na fronteira do Laos, por exemplo. Viveu sua experiência inesquecível na Birmânia. Conheceu um monge que lhe passou a idéia do auto-equilíbrio. ''Era sólido.'' É essa solidez que ela busca nas pessoas, nos homens de sua vida. Pode ser difícil de alcançar, mas não é impossível.
Acabou da fazer a novela ''Da Cor do Pecado'' e vai fazer o próximo de Guilherme de Almeida Prado. Gostaria de parar um pouco para escrever alguma coisa maior. Tem 25 páginas que lhe agradam, mas ainda não sabe dizer que rumo vai tomar. ''Adoraria parar uns três meses, mas aí acho que seria pouco. Teria de parar, quem sabe, um ano para fazer literatura. É muito tempo, não posso, preciso trabalhar para me sustentar.'' Não só a ela. Maitê é mãe de Maria, uma adolescente. Seu sonho seria fazer como Chico Buarque de Holanda, que larga tudo e vai escrever um livro em Paris. Maitê já morou na França, estudou na Sorbonne e tudo, mas não precisaria ser lá. ''O importante seria parar um pouco, ter tempo para pensar e refletir.'' A derradeira confissão pode parecer surpreendente. Maitê tem convicção de que ainda vai criar galinhas no interiorzão. ''Me ambiento muito bem nesses lugares mais ermos. Na verdade, onde mais me sinto estranha é em Copacabana, onde moro.''
A coluna de Wall Barrinuevo deixa de ser publicada nesta edição por motivos técnicos





