Resumir a trajetória do pintor Carlos Erick Araújo, 61 anos, é uma tarefa quase impossível; afinal, lá se vão 38 anos de carreira. Jornadas intensas dedicadas à arte que inclui, além da pintura, litografia, desenho, aquarela e programação visual de grandes ambientes. Autodidata ''aos 3 anos de idade já rabiscava calçadas com pedaços de tijolos'' nunca frequentou uma escola convencional de arte. Seus conhecimentos foram aprimorados em inúmeros cursos no vasto mapa-múndi por ele percorrido de Lhasa, na China, a Los Angeles passando por Kyoto, Marselha, Florença e Nova York, só para citar os mais importantes ''per-cursos'' na rota internacional. Ele também teve o privilégio de trabalhar, ainda adolescente, como office boy de Di Cavacanti e de conviver com figuras do calibre de Arcanjo Ianelli, Marcelo Grassmann, Otávio Ataújo, Mário Gruber e até do norte-americano Andy Wharol, entre outros.
Dos cacos de tijolos aos pincéis e outras ferramentas artísticas demorou um pouco, tempo suficiente para Erick crescer e ir atrás de sua vocação. Hoje, instalado em Londrina, ele recebe a reportagem da Folha numa ampla casa/ateliê, que não é moradia e, sim, abrigo para sua inspiração, suas telas, tintas, pincéis. ''Há poucos dias estava recheada de telas esparramadas pelo chão, escoradas nas paredes, à espera dos novos donos que as levaram para fazer bonito em outros espaços'', observa. Da nova fase, geoabstrata, restou apenas uma tela inacabada, que serviu de pano de fundo para a foto acima.
Encontrar um novo um estilo de pintura de tempos em tempos não é tarefa simples, mesmo para um artista tão experiente como ele, mas, a cada década, ele entra em mutação e se recria. ''Essa reinvenção de estilo é uma tendência natural, quase automática, acompanha as mudanças dos tempos. Nessas quatro décadas passei do desenho figurativo para a abstração visual e desta para a geometrização, o redondo dentro do quadrado, minha fase atual'', resume. A primeira tela dessa nova fase, exposta na última MD&I, é um exemplo eloquente de pesquisa repleta de referências à cultura flamenca, representada nas telas por um violão em perspectiva abstrata de volumes e linhas estreitas, um retorno ao passado, a sua origem cigana/marroquina.
A singularidade do seu trabalho começa já no paciente processo de pintar sem cavalete: ele deita a tela branca sobre uma pequena mesa e vai aplicando as tintas com precisão milimétrica traço a traço, camada sobre camada, a tela vai ganhando espessura, formas, sentido, com desenhos cheios de idas e vindas em pinceladas vigorosas
O confronto da linguagem geométrica e as metáforas visuais são reforçados pela sua enorme bagagem cultural. Inquieto, com certeza Erick viveu a vida que sempre quis, experimentando um sem número de linguagens, numa trajetória gigante, até aportar em Londrina, onde vive hoje com a mulher Neusa Montoya, ceramista, braço direito do pintor, proprietária de uma galeria de arte no Shopping Catuaí.
Cosmopolita, Erick percorreu o mundo, fazendo jus as suas raízes ciganas numa época em que a palavra globalização ainda não estava na moda. Com dupla nacionalidade (espanhola/brasileira), ele chegou ainda bebê em São Paulo, onde morou 30 anos. Adolescente, trabalhou no setor de montagem do jornal Última Hora, de Samuel Wainer, fez bicos nas tecelagens Bangu e Votorantim, como desenhista copista ''foi minha grande escola: os desenhos vinham da Itália, eu copiava nas dimensões pré-determinadas para imprimir nos tecidos''. Nessa época trabalhou para o pintor Di Cavalcanti ''preparava tintas e telas para o mestre'' e tinha trânsito livre entre a elite cultural paulistana.
De São Paulo decidiu ir para a Ásia, Europa e, depois, para Nova York, onde trabalhou como faxineiro ''fazia cafezinho e limpava o chão na impressora de gravuras Tamarind Graphics, do artista Andy Wharol''. Resultado: aprendeu tudo sobre o antigo método de litografia e, de quebra, saiu de lá com a prensa inglesa Mann, de 1932, presenteada pelo próprio Andy, que a despachou para o Brasil em 1977, onde Erick também aportou em seguida. Mais tarde, ele doou a raridade à prefeitura de Curitiba, que a instalou no Parque São Lourenço, e é usada até hoje.
No São Lourenço também está a prensa alemã Krause, de 1801, que fazia parte do atelier curitibano do artista. Únicas na América Latina, as preciosidades foram assunto da seção Gente, da revista Veja, em março de 1992, que mostra uma foto de Erick em sua casa de 1.000 metros quadrados, no Parque Barigui. A revista descreve a residência como ''o maior ateliê gráfico do mundo, que abriga impressoras (Mann e Krause) de quase 10 toneladas cada, raridades que juntas valem 1 milhão de dólares'' (sic).
Em 1980, o pintor migrou para Foz do Iguaçu. Foz é um capítulo à parte na vida de Erick. Convidado para fazer toda a programação visual do Hotel Carimã, ele se instalou lá durante três anos, desenvolvendo projetos de mobiliário, tapeçaria, painéis, telas, enfim, ambientou com arte os 40 mil metros quadrados de área. ''O Carimã é um museu pessoal concentra o maior acervo de obras minhas, mais de 1.500 peças, só de desenhos em preto e branco têm mais de 500, sem contar os painéis, um em concreto e outro de 120 metros quadrados em madeira com relevos de instrumentos musicais indígenas''.
De Foz foi para Curitiba, época em que consolidou sua carreira como gravurista com a ajuda das velhas máquinas. Nove anos depois, nova revoada, desta vez para Congoinhas, norte do Paraná, onde definiu sua fase atual, e, de lá, em 2000, para Londrina.
Erick já expôs em quase todas as capitais do País e em grandes cidades no exterior são mais de 400 exposições entre coletivas e individuaisá , tem trabalhos espalhados em museus, universidades e acervos particulares em diversos países. É Membro daá Association Internationale des Arts Plastiques/Paris, da Unesco, através da qual ganhou uma placa afixada na parte nova do Museu do Louvre, onde está impresso um texto seu.

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