Depois de uma hora de conversa, Cacilda Pereira Widmer Stadler abre um enorme sorriso que lhe é característico e diz: "resumindo, é isso!". As histórias da sua vida são tantas e com tamanha intensidade que ela poderia ter passado muito mais tempo contando as aventuras desde que saiu de Marilena e ganhou o mundo. Nascida quase na divisa do Paraná com os estados do Mato Grosso do Sul e São Paulo, Cacilda cresceu vendo a junção dos rios Paraná e Paranapanema. Deixou a cidade para estudar, passando por Maringá e Londrina, onde cursou Biomedicina. "Mas aí meu pai faliu, depois de uma segunda geada que devastou a plantação", lembra. "Parei de estudar e fui trabalhar para pagar a faculdade do meu irmão, que já estava terminando." Em uma conversa com uma amiga, descobriu que ela não pagava mensalidade por conta de uma bolsa de atletismo. "Pensei, eu tenho essas pernas longas, vou tentar isso", explica. "Foi o que realmente abriu as portas para mim. Até hoje tenho amizades (daquele tempo) pelo mundo." Segundo Cacilda, sua última participação como atleta foi em uma edição dos Jogos Abertos, em 1984. "Fomos vitoriosos", lembra. Como pesquisadora, fez várias incursões por universidades dos Estados Unidos e Europa. Passou dois anos na Alemanha e outros dois na Holanda, onde se inspirou para o doutorado com base em sociologia, educação e feminismo. "Nunca pensei em morar fora do Brasil, eu ia estudar, mas sempre voltava. Até que conheci, em uma das viagens, um alemão. Por ele me mudei para a Alemanha, larguei marido, a Unicamp, tudo", relata. O homem por quem se apaixonou arrebatadoramente era um famoso químico chamado Reimund Stadler. "Só fui descobrindo com o tempo o quanto ele era importante, ele era considerado o pai do polímero. Se estávamos em uma conferência, todos vinham falar conosco", conta Cacilda. Vinte e dois anos após a mudança para a Europa, ela está de volta ao País e escolheu Londrina. Em abril, ela veio participar de duas reuniões com antigos amigos em Marilena e Londrina. "Algo aconteceu, não sei explicar, e eu decidi voltar", explica. Visitou algumas casas e em junho já estava instalada em uma casa alugada e com dois dos quatro filhos. "Fiquei grávida seis vezes. Meu terceiro filho nasceu morto e o quarto morreu quando completou dois anos", conta Cacilda, que ficou viúva na terceira gestação. "Fazia dois meses que tinha comprado a casa dos sonhos, bonita, com laguinho, tinha dois filhos, estava grávida do terceiro, quando meu marido faleceu. Ele descobriu que estava doente e morreu em 50 dias", relata Cacilda, que na época morava em Bayreuth, cidade alemã onde viveu o compositor Richard Wagner. Nas mais de duas décadas na Alemanha, ela conta que nunca parou de estudar. Fez medicina e uma série de cursos pela Europa. Também trabalhou para uma empresa inglesa ligada à área de saúde. "Mesmo com quatro filhos, uma casa para cuidar, eventos para organizar, ainda ia para Londres de manhã, muitas vezes seguia de lá para um outro país e ainda conseguia estar em casa para o jantar", lista. Cacilda se casou novamente com Georg Krausch, da Johannes Gutenberg-Universität Mainz. "Na Alemanha, reitor é usado para as universidades pequenas. Na universidade de Georg, ele é chamado de presidente", ensina. Por conta da importância do cargo do marido, ela ampliou as tarefas em casa, tendo que organizar vários eventos. "Às vezes, quatro ou cinco por semana. Recebi dois presidentes alemães em casa", conta. Sempre ativa também profissionalmente, ela enveredou para a área da estética com um rol de clientes tão famosos quanto os que frequentavam sua residência. "Não tinha uma clínica minha, mas atendia de norte a sul do país", explica Cacilda, que chegou a ter cinco spas. "A aparência ganhou um outro papel na sociedade. O que acontecia com a mulher de 50 anos em séculos passados? Ela morria, se vivessem até lá. E hoje, com 50 anos a mulher está na metade da vida, está tendo filhos, casando de novo. Então a medicina estética tem um papel muito importante. Quem precisa lutar por um lugar no mercado de trabalho precisa da aparência", enfatiza. "Não dá para falar que o que vale é o intelecto. Até descobrirem que uma pessoa é mais inteligente que a outra, a com melhor aparência já ganhou a vaga." Mas ao mesmo tempo em que é prática neste quesito, Cacilda também é categórica na questão dos limites dos procedimentos. "Envelhecer com suavidade", avisa.