"Se abaixar para pegar o celular que caiu no chão é capaz de não me ver no filme", brinca Aníbal Ferreira, sobre sua participação especial em Boi Neon. Dirigido por Gabriel Mascaro e estrelado por Juliano Cazarré, o filme estreou em janeiro, mas desde o ano passado vem colecionando conquistas internacionais com o prêmio especial do júri no Festival de Veneza.

Um dos leiloeiros mais importantes do País, Ferreira não precisou encarnar um personagem para o filme. Na telona, ele surge comandando um leilão de cavalos, algo que vem fazendo nos 25 anos de profissão. Filho caçula de imigrantes portugueses, Ferreira foi o primeiro da família a nascer em Londrina.

"Meus pais eram da região de Fátima e vieram para cá porque já tinham família aqui. Uma parte foi para a França, outra veio para o Brasil", lembra. O pai, que vivia da produção de azeites e criação de pequenos animais, aprendeu o ofício de sapateiro após a Segunda Guerra. No Brasil, abriu uma loja de sapatos, que inspirou a aptidão de vendedor no filho.

E foi na terra natal que Ferreira entrou para a história da pecuária nacional ao bater o martelo na venda de uma vaca de um milhão e meio de reais. "Eram outros tempos", explica. Mesmo com os valores menores da atualidade, o leiloeiro segue ajudando a comercializar animais valiosíssimos. "São cerca de 170 leilões por ano", contabiliza.

A morte prematura do pai acabou mudando a trajetória de Ferreira, que é formado em Educação Física. "Por dois anos morei no Pará trabalhando como professor. Tive que me virar", conta. "Queria ter feito Agronomia, mas naquela época a faculdade era particular e em Bandeirantes", explica. No retorno a Londrina, ficou sabendo que uma leiloeira estava precisando de pisteiros freelancers e foi atrás.

Por alguns anos levou duas carreiras simultaneamente, a de pisteiro e a de bancário. "Era bom porque eu via quem dava o lance e depois ia lá oferecer uma conta no banco", diverte-se. Mas em 1991, quando surgiu a vaga para a formação de um novo leiloeiro, Ferreira não titubeou em aceitar mais um desafio. Até porque sempre soube que a vida bancária não era para ele. "Não tinha nada a ver", afirma.

Sempre se reinventando, mesmo que a profissão não tenha mudado, Ferreira precisou fazer muitas escolhas até ser um dos maiores em seu ofício. "Fiz leilões até no Rio Grande do Sul", aponta o leiloeiro, lembrando o bairrismo gaúcho. O feito foi ainda maior, considerando que por conta de uma venda recorde, o londrinense acabou estampando a capa do jornal Zero Hora.

Mirando novos horizontes, Ferreira foi estudar espanhol para poder trabalhar na Bolívia. "Hoje mudou muito, é mais organizado, mas naquela época era muito complexo", lembra sobre a experiência. Outra opção do leiloeiro, conhecido dos conterrâneos principalmente pelos remates de Nelore, foi desbravar o Nordeste. "De novo eu me encantei."

"Naquela época os leilões lá vendiam pouquinho. Eles não tinham dinheiro para pagar para eu ir e voltar dali três ou quatro dias, então eu acabava ficando. E nesse tempo fui aprendendo a criar, a conhecer o nordestino, as dificuldades que eles têm", diz o leiloeiro, que há 18 anos trabalha naquela região.

Responsável hoje por 95% da agenda de leilões da vaquejada, Ferreira contextualiza a sua atuação por lá. "A vaquejada para o nordestino é igual o futebol aqui no Sudeste e no sul", exemplifica o londrinense. "De uma necessidade de manejo nasceu um esporte, que é a vaquejada", explica. E é justamente sobre a vaquejada que trata o Boi Neon. "Quando vieram me convidar para o filme, nem falamos sobre cachê. Disse que aceitava e que queria ajudar a divulgar", afirma. Ele também faz parte do primeiro anuário da vaquejada, lançado este ano.

"Eu gravei o CD e ganhei o disco de diamante agora, os outros 28 anos foram cantando em barzinho", diz Ferreira, numa metáfora musical sobre sua trajetória. "É bonito participar de filme, ir ao Programa do Jô, mas passei por muita coisa", afirma. "No Pará, eu passei fome pela primeira vez na minha vida. Cheguei a pesar 57 quilos quando os salários dos seis meses atrasaram", lembra sobre a experiência como professor. "Foi importante para mim aquilo, porque com meus pais também foi assim. Saíram de uma situação muito crítica em Portugal para vir para cá", lembra.

"Hoje estou realizado. Tenho saúde e casa própria", relata o londrinense, casado e pai de dois filhos. "Mas eles já avisaram que não querem a vida que eu levo", conta sobre a rotina intensa de viagens por todo o Brasil. Se fosse em um dos seus leilões, Ferreira se despediria aqui com o bordão "uma arroba de abraços", numa alusão à medida usada na agropecuária. Para quem não é da área, são cerca de 25 quilos de carinho.

mockup