Balenciaga é para sempre
Paris- Num mundo onde as disputas e as vaidades são tão acirradas como o da moda, a imagem de Cristóbal Balenciaga está intacta mesmo 34 anos após sua morte. Mito máximo da alta-costura do século 20, o costureiro nascido em 1895, na pequena cidade basca de Guetaria, Espanha, começou bem jovem, aos 19 anos, a fazer roupas. Sua mãe era costureira e através dela teve sua iniciação no ofício. Mas foi a marquesa de Casa-Torrés, sua vizinha, quem o incentivou a aperfeiçoar seu talento em uma escola de Madri.
Aos 24 anos, ele abriu sua primeira maison, em San Sebastian, e começou suas viagens a Paris num período que precedeu a Guerra Civil espanhola de 1936. Precoce, o jovem espanhol que encantava pelo trabalho impecável, teve duas maisons em Madri. Todas elas com o nome de sua mãe, Elisa. Depois outra em Barcelona.
Tudo que Cristóbal fazia era automaticamente comprado pelas elegantes espanholas da época. Mas as coisas foram apertando e a depressão atingiu em cheio o país. Balenciaga inicialmente vai para Londres trabalhar. No ano seguinte chega a Paris.
Na eterna capital mundial da moda abre sua maison, em 1937, no número 10 da Avenida George V a loja permanece até hoje lá e faz sucesso novamente nas mãos de Nicolas Guesquiére, 35 anos, novo criador da grife comprada pelo grupo PPR. Sua primeira coleção foi apresentada em agosto daquele ano e imediatamente seu estilo explodiu na mídia. ''Os compradores e a imprensa se batem como num jogo de futebol para ver a coleção de um jovem espanhol que revoluciona a moda'', escreve o jornal Daily Express.
As peças de caimento perfeito, a utilização do preto e branco para roupas de noite, os vestidos e blusas sem gola, feitos inteligentemente para que as mulheres pudessem usar e valorizar os colares de pérolas, a saia-balão, conhecida hoje como balonê e atualmente em todas as passarelas do mundo.
Além dessas invenções que modificariam o estilo da época, Balenciaga nunca se desconectava do estilo espanhol. Sem criar peças pitorescas, ele se apoderou de traços das roupas da renascença espanhola (que viraram vestidos chiquérrimos usados por Alice Ccea e Hélène Perdrière em eventos nos teatros), das capas, boleros e mangas bufantes da indumentária dos toureiros. Enfim, tudo o que Balenciaga tocava alcançava o sucesso. Foi estrela durante o tempo que produziu e hoje ainda é um dos costureiros mais copiados, e reinventado a cada desfile da marca, que em 2001 abriu o acervo do mestre para Nicolas Ghesquière ''beber na fonte'', mantendo os traços que o eternizaram.
As mulheres mais chiques pagavam fortunas para ter uma roupa feita pelo criador. Não importava quanto. E ele sabia cobrar por isso. Esse estilo rígido de criar e produzir peças únicas disputadíssimas o transformaram no estilista que mudou a economia da moda. O ''Milagre Balenciaga'' como o consagrou o amigo e companheiro Hubert de Givenchy. Balenciaga fez escola porque, além de produzir roupas maravilhosas, tinha um estilo de trabalho peculiar. Um homem incansável que podia fazer em um só dia 120 revisões de roupas. Ele corrigia silhuetas. Tinha o poder de esconder imperfeições ao fazer roupas não ajustadas ao corpo que tornavam as mulheres ''obras de arte''.
Seu espírito independente o fazia cada vez mais um homem que arrematava admiradores como Chanel e Christian Dior que, pessoalmente, foi pedir ao estilista que não se retirasse da moda em 1948, quando ele estava prestes a parar. Num encontro com Dior em São Francisco, uma cliente de Balenciaga foi surpreendida por um comentário incrível. Ao vê-la portando um elegante tailleur do concorrente, Dior diria que ''somente Balenciaga poderia ter feito um traje tão perfeito''. Foi ainda Dior que o definiu como ''o mestre de todos nós''
Com esse trabalho, Balenciaga foi se consagrando como um gênio do alto luxo e nunca quis sair disso, chegando a se recusar a participar da Câmara Sindical da Alta-Costura Francesa. Não se interessava em fazer roupas em grande produção. Queria ele mesmo revisar as encomendas de sua maison. Tinha um gosto infalível por tecidos. E os escolhia como ninguém. Muitos começaram a ser criados somente para ele.
Algumas vezes, depois de uma apresentação, mesmo que fatigado, o mestre de Courréges, Emannuel Ungaro e Fredéric Castel, retomava o trabalho numa roupa que não estivesse, para ele, perfeita. Desse jeito teve clientes que seriam capazes de fazer qualquer coisa para ter uma roupa sua. Essa loucura feminina tem histórias fantásticas como a de Madame Biddle, que em uma só compra escolheu oito vestidos e e le colocou 40 pessoas para trabalhar em torno deles.
A condessa Bismarck (que recentemente fez uma exposição em sua casa, em Paris, com 40 peças de Balenciaga), ficou dois dias de cama quando, em 1968, teve a notícia que Cristóbal fecharia sua maison e se recolheria na Espanha. O mestre estava cansado. Queria se refugiar no lugar de que jamais se desligou. Durante toda sua vida sempre ia para lá passar férias, onde encontrava com outros gênios espanhóis como Miró. Ao encontrar o amigo pintor, Balenciaga confessou: ''Tens a sorte de poderes fazer sozinho uma obra de arte. Para mim são necessárias 150 pessoas''.
Com esse espírito apaixonado, Cristóbal se despediu da moda. Poucos anos mais tarde se despediria da vida. Ele morreu em 1972, e entrou para a história como um criador excepcional, capaz de dar ao mundo uma lição: é possível fazer o que se quer sem se corromper.
Quem quer acompanhar a evolução do trabalho do grande mestre pode, numa viagem a Paris, conferir até 28 de janeiro de 2007, a exposição Balenciaga Paris, no Museu da Moda e do Tecido, parte do complexo do Louvre. Na mostra estão 160 peças de Cristóbal, entre vestidos e imagens, e 23 de Nicolas Chesquière, o jovem estilista francês que ocupa seu lugar na maison e que atualmente revive o sucesso do antecessor no mercado. Nicolas foi o criador do vestido de noiva mais comentado e fotografado dos últimos dias: um longo de organza de seda com um ombro descoberto e outro com manga bufante, no corpo da belíssima Nicole Kidman no seu casamento com o músico Keith Urban, dia 22 de junho. Uma criação que faz jus ao talento de Balenciaga, que tinha entre suas clientes atrizes como Grace Kelly e Marlene Dietrich.
Serviço:
Exposição Balenciaga Paris
Museu da Moda e do Tecido
107 Rue de Rivoli, 75001 Paris





