Asas à imaginação
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domingo, 14 de dezembro de 2014
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Observar uma das obras da artista plástica londrinense Raquel Carraro pede um pouco de tempo e bastante imaginação. À primeira vista, a sensação pode ser de estar frente à reprodução de um galho de árvore, por exemplo, mas com mais atenção, o galho pode se transformar no sistema circulatório ou ainda em algum exemplar da flora subaquática. E é justamente esta a intenção da artista: fazer com que cada pessoa use seu próprio repertório visual para enxergar significados diferentes nas pinturas.
Mesmo nas pinturas menos subjetivas é possível observar muitas nuances, como no desenho feito especialmente para a capa do caderno especial em comemoração aos 80 anos de Londrina, publicado no último dia 10.
Agora, algumas dessas obras podem ser observadas em uma exposição temporária, que serve também de laboratório para Raquel. "A exposição é mais para eu ter contato com as pessoas e elas com a obra. Acho importante esse contato direto, as pessoas me dão retorno sobre coisas que eu não pensava, tudo isso é carga para criar outros trabalhos. Aqui eu vejo que o meu trabalho pode tocar as pessoas. O maior objetivo é tocar as pessoas de alguma maneira, de forma positiva, se possível", explica.
Usando diferentes materiais, como nanquim, aquarela, tinta látex, caneta esferográfica e até giz escolar, Raquel consegue diversos resultados muitos que nem ela esperava - sobre tela, papel, porcelana e paredes. Cada quadro acaba se transformando em muitos, já que é possível mudá-lo de posição. E, conforme o ângulo de visão, as cores se transformam e formas escondidas se revelam.
"Acho legal experimentar, testar coisas novas, colocar sobreposição de materiais. Os efeitos são surpresa, gosto muito disso na obra, de ter diálogo com o material. Às vezes eu chego no dia seguinte e vejo que a tinta mudou de cor ou entortou um pouco, e me dá uma outra perspectiva. Gosto de ver o que a pintura está me oferecendo", destaca.
Aos 31 anos, Raquel experimenta um novo olhar em sua carreira. Apaixonada por desenho desde criança e formada em Artes pela Universidade Estadual de Londrina, desde 2006 vem desenvolvendo diversas fases artísticas. No início ela se dedicou a pintar rostos de pessoas, mas acabou desistindo depois que percebeu que não teria tanta liberdade criativa. "Eu usava cores, usava tinta verde no rosto, roxa no fundo, mas as pessoas queriam um 'photoshop' na imagem. Descobri que não tinha muito o que acrescentar às pessoas nesse sentido e fui trabalhar no comércio. Aí você tem liberdade criativa, quando não tem que vender (as obras). E foi então que essa experimentação, essa técnica mista foi surgindo. As pessoas começaram a gostar, começou a fluir o trabalho de verdade e resolvi me dedicar à parte artística", diz.
Usando a natureza como inspiração, Raquel faz questão de ressaltar que não copia as formas e define seu trabalho no momento como algo entre o abstrato e o figurativo. "Não abstrai totalmente, mas não é algo exato, a figura certinha", explica.
A artista, entretanto, continua fazendo intervenções em diversos locais, a pedido. Bares, lojas, estacionamentos, apartamentos decorados são alguns deles, onde ela procura dar seu toque pessoal. "Procuro levar algo diferente do que as pessoas teriam se comprassem algo pronto. É sim um pouco mais comercial porque querem algo específico, mas tento levar um pouco do manual, do feito à mão. Procuro oferecer algo mais criativo, que fique exclusivo e aquilo fica no ambiente como se fizesse parte da personalidade daquele ambiente."
As telas de Raquel estão espalhadas por diversas cidades brasileiras como Cuiabá, Curitiba, Campo Grande, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, além de Nova Iorque e Tenessi, nos Estados Unidos. Seu jeito simples e carismático acaba transformando os clientes em amigos, como ela mesma conta e algumas vezes recebe fotos das casas, mostrando onde suas pinturas estão.
"Fico feliz que o meu trabalho esteja rompendo essas fronteiras, mesmo daqui da cidade. A primeira coisa que eu gostaria e que está acontecendo é o reconhecimento das pessoas daqui, do meu povo, para depois isso extrapolar e ir para fora. E isso está acontecendo naturalmente. Cada coisa que eu vivi, cada parte da minha pesquisa em pintura contribuiu para eu estar aqui. Tenho muito a crescer, muito a aprender, mas as coisas naturalmente vão acontecendo."
Para 2015, além de diversas intervenções agendadas, Raquel pretende se dedicar ainda mais à pesquisa, usando as experiências e conversas da exposição. "Quero desdobrar mais meu trabalho. Vou experimentar mais, ousar mais nas telas e pinturas. Quero ver o que a pintura tem de mais para me oferecer e vice-versa", finaliza.


