Curitiba - Independentemente de ter em seu currículo vasta experiência em trabalhos nacionais e internacionais como cabeleireiro e de ser embaixador da L'Oreal no Brasil, o angolano Viktor Manoel Gonçalves ou melhor, Viktor I, já teria muitas histórias para contar.

Nascido na África do Sul, filho de uma mulher à frente de seu tempo, o menino desde pequeno foi predestinado a batalhar e muito. ''Minha mãe tinha vontade de me dar nome de rei e Viktor I foi um dos reis da Itália. Porém, isso era uma ficção, já que a mãe era artista, modelo e bailarina em Angola e pensava diferente. Naquela época, nos anos 1960, era uma mulher muito avançada para a idade dela, mas morreu num trágico acidente e eu fui criado pela minha avó.''

A primeira perda e o primeiro desafio na vida de Viktor apareceram muito cedo. Aos cinco anos, ele perdeu sua maior musa e saiu de mudança com a família rumo à África do Sul e de lá para Portugal. Aos 14 anos, uma nova mudança: Barcelona, na Espanha. E foi onde tudo tomou rumo em sua vida.

A paixão pela estética e pela beleza, no entanto, Viktor carrega na alma. ''Sempre tive paixão por cabelos. Desde que nasci.'' Aos 4 anos, sem ter noção do que estava fazendo, Viktor cortou o rabo-de-leque de uma cabra que sua avó tinha. Com os cabelos das primas, a brincadeira era grande também.

''Como a minha mãe tinha essa imagem de modernidade e de querer mudar e estar sempre com os cabelos diferentes, quando a perdi eu olhava para as mulheres e sempre as imaginava diferentes. Mas elas não mudavam porque eram mulheres normais e a minha mãe era uma artista. Então, eu não entendia muito bem tudo isso e queria criar visuais diferentes.''

Quando chegou à Espanha, a idéia de ser cabeleireiro já era certa. ''Consegui uma bolsa numa escola bem conceituada, onde comecei a estudar de manhã. À tarde e à noite trabalhava no salão e fazia bicos de barman e garçom. Tudo isso com 14 anos. Para quem perdeu seu lar, sua mãe e sua pátria aos cinco anos, aos 14 eu já era um homem feito. Desde os nove anos, eu tinha que trabalhar para me sustentar. Trabalhava fazendo artesanato para vender nas feirinhas. Fazia ''plim-plins'', que são esses tubinhos para colocar atrás das portas, cestinhas, descanso para panelas quentes e por aí vai. Quando eu cheguei a Portugal, vindo da África do Sul, nós éramos tidos como refugiados políticos, tínhamos que nos virar.''

Dessa época veio a formação adventista que faz de Viktor, no trato com as pessoas, uma antítese do que sua aparência física demonstra. Ele é doce e não difere ninguém por classe social. ''Estudei numa escola adventista, minha família toda era dessa religião. Sem dúvida, minha formação de valores de conduta e espirituais são muito presentes em minha vida. Sempre tive princípios muito rígidos. Isso hoje se tornou uma característica minha. As pessoas gostam de estar perto de mim e falam que me acham humilde, apesar de eu ter chegado aqui sem nada e hoje ter um nome importante na minha área. E eu sei que isso não é presunção, nem vaidade, mas reconheço que existem pessoas que crescem na vida, se dão bem e ficam inacessíveis. A minha melhor referência é não ter perdido o meu prumo.''

Em Curitiba, Viktor chegou aos 18 anos. Veio para passar três meses por conta de uma viagem de presente que ganhou num concurso de jovens talentos da L'Oreal. Na casa onde estava, aproveitou para cortar alguns cabelos. Foi convidado para trabalhar num salão e em pouco tempo já tinha o seu próprio espaço. Foi sempre tudo meteórico.

E como é criar o tempo todo? ''Bem, eu faço parte do grupo de criação da L'Oreal e trabalho nas campanhas veiculadas em mais de 140 países. E tenho esse dom de renovação instantânea. Crio com muita facilidade. A escola te dá a base, mas o lado de criação é de cada um. E isso é importante em qualquer profissão, senão você se torna mais um.''

Como é conviver com gente famosa? Trabalhar com tops? (É ele quem assina os cabelos dos desfiles de Lino Villaventura, na São Paulo Fashion Week, só para dar um exemplo).

''Já trabalhei com muitas tops aqui no Brasil e lá fora também. Trato todas com muito carinho e naturalidade. A chave do sucesso para todo ser humano é a naturalidade. Elas são pessoas como qualquer outra. Já trabalhei com Gisele Bundchen, Linda Evangelista e Brooke Shields. Ano passado conheci Nicole Kidman. Minha irmã trabalha num circuito muito bom em Londres e fomos jantar juntos, como qualquer ser humano normal. Todos riem, todos vão ao banheiro, todos comem, dão risadas, se divertem e tomam porre. Somos todos seres humanos, uns com grandes oportunidades de brilhar, outros com menos, mas na hora de apertar a mão, dar um abraço, um beijo, todos somos humanos.''

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