''Aqui é o meu lugar''
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sábado, 30 de abril de 2005
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Exceção no mundo gastronômico, o chef de cozinha Celso Freire não mora nem em São Paulo, muito menos no Rio de Janeiro, capitais onde se come melhor, segundo os mais conceituados críticos do País. Apesar de escolher Curitiba como morada e estar longe do eixo badalado, Freire consegue sempre figurar nas listas dos melhores do Brasil.
Desde 1991, quando inaugurou seu Boulevard Restaurant, na capital paranaense, o chef curitibano tem chamado para si e suas receitas diferenciadas os holofotes da crítica nacional. Em 1995 foi eleito o melhor chef do País. De lá para cá vem colecionando outros tantos prêmios. Mesmo assim não se deixa levar pelo glamour da fama ou sequer pensa em se mudar da cidade.
''Com todo respeito aos meus conterrâneos, acredito realmente que a minha comida seria melhor reconhecida em São Paulo, mas não penso em sair daqui'', diz Celso Freire, que há cerca de um ano, ao lado da mulher, Cristiane, e um casal de amigos abriu um outro restaurante, o Zea Mais. ''É uma proposta rejuvenescida para que eu possa exercitar uma nova cozinha'', explica.
Economista por formação, o chef de cozinha conta que entrou na faculdade porque tinha que estudar, da mesma forma que passou pelos ensinos fundamental e médio. Mas só por isso. ''Sempre brinquei de cozinhar, isso desde pequeno'', lembra Freire, que passou horas na cozinha comandada por uma empregada que está há 45 anos no convívio da família. ''Ela fazia uma cozinha empírica, mas às vezes pedia pra gente ler algumas receitas'', explica o chef, que dos cinco filhos foi o único que enveredou para a gastronomia.
Apesar de nunca ter feito cursos de culinária, um ano antes de pegar o diploma de economia, Freire já estava trabalhando num hotel cinco estrelas de Curitiba. ''Fiz a minha escola sem pagar matrícula porque aprendi tudo nas cozinhas que passei'', diz.
Depois da formatura foi morar em São Paulo, onde trabalhou ao lado de chefs como Giancarlo Bolla e Laurent Suaudeau. As duas experiências, tanto na cozinha italiana quanto na francesa (duas maiores influências), foram intercaladas por uma temporada de um ano em Londres, onde Freire comandou a cozinha da embaixada brasileira.
''Já me perguntaram porque decidi voltar para Curitiba. Bom, porque aqui é o meu lugar. Aqui exerço meu lado mais tranquilo. Lá (em São Paulo) não seria dono do meu tempo'', diz chef, que apesar de trabalhar longas horas nos dois restaurantes, não deixa de estar em contato com a mulher e as duas filhas.
''Isso aqui foi uma forma de ficar mais perto delas'', aponta o chef para a cozinha da sua casa, que em ocasiões especialíssimas recebe grupos pequenos para se deliciar com suas receitas. Na terça-feira, ao preparar um jantar para convidados do joalheiro Marcelo Bergerson, Freire teve a ajuda da mulher e das filhas. ''A mais nova sentou no computador e fez o menu e a mais velha preparou a sobremesa'', conta, orgulhoso.
''São eventos que não levam o glamour a sério. Os convidados não vêm aqui por minha causa'', explica o chef, que teve a idéia de ampliar a casa primeiro para receber os amigos. No portão, uma singela plaquinha avisa que ali é ''La cuisine'' (a cozinha). Mas nada de ostentação ou que chame a atenção de quem passa pela vizinhança.
''Sempre tive a preocupação de não embarcar no glamour, quando começaram as premiações. Graças a Deus nunca me desviei do meu caminho. Não quero deixar de cozinhar, sou cozinheiro'', explica. Para Freire, muitos dos profissionais que se encontram no mercado hoje foram ''formados de trás para frente''. ''Agora que é moda, as pessoas já se formam como chefs de cozinha e se esquecem que são cozinheiros'', adverte.
Como começou bem antes da badalação em torno dos chefs no Brasil, Celso Freire acabou sofrendo preconceito. ''Fui proibido de namorar uma garota porque o pai dela não queria ver a filha com um cozinheiro'', lembra ele, que hoje agradece. ''Foi bom porque depois conheci a Cris (esposa)'', diz, apaixonado.
''Cozinhar não é negócio, é dom'', avisa. ''Se fosse só por dinheiro, eu não faria. Faço isso para deixar as pessoas felizes'', conta. O ato generoso de repartir suas delícias também tem um fundinho egoísta. Mas no melhor dos sentidos. Como? É que o chef não esconde que só cozinha o que ele tem a maior vontade de comer.
''Tenho uma influência francesa, mas não esqueço o meu sangue italiano e que sou brasileiro'', conta. O destaque das suas receitas são invenções que tentam equilibrar as raízes do velho mundo com a culinária brasileira. ''E cada vez mais uso as coisas do Brasil, do Paraná, de Curitiba. É a cozinha da tua terra'', avisa.


