Aprendizado na Ásia
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domingo, 28 de dezembro de 2014
Karla Matida<br> Reportagem Local 
Ter nascido e crescido em Guarulhos, cidade do maior e mais movimentado aeroporto internacional do Brasil, causou uma inquietação em Gabriel Bernardo da Silva, de 25 anos. "Sempre quis viajar o mundo; não o mundo dos cartões postais, mas o mundo do cotidiano materializado nas pessoas que nele habitam", avisa em seu blog, o Daqui pra lá (www.daquiprala.com).
A proximidade com o aeroporto o levou a observar os aviões e também a "imaginar o que se passava na cabeça daqueles viajantes, de onde vinham, para onde iam, o que comiam, que língua falavam", completa. Já adulto, Silva criou a própria história ao cruzar o planeta. Por 11 meses, vivenciou outras culturas, saboreou outras comidas e ouviu várias línguas.
Parte do projeto de Voluntariado Internacional do Marista, a experiência acabou neste mês, com a volta para o Brasil. "Fui uma cobaia", explica, sobre ter sido o primeiro da regional a topar o desafio. Durante quase todo o ano de 2014, Silva morou com refugiados e deu aulas para crianças vítimas de guerra na Tailândia e no Sri Lanka, além de compartilhar sua vivência na Suíça e na Itália.
Advogado e cientista social, Silva se mudou com a família para Londrina há 10 anos e por aqui ganhou o apelido de Paulista. De tão usado, acabou se transformando em um novo sobrenome: Gabriel Paulista. "Antes de termos a casa, escolhemos onde eu iria estudar", lembra. A escolha se mostrou acertada, considerando que além de completar seus estudos no Marista, Silva se tornou funcionário do colégio e, agora, voluntário internacional.
"O Marista está presente em mais de 80 países e agora estão começando a criar o setor de Voluntariado Internacional. E os lugares que têm Marista recebem pessoas para fazer esses trabalhos voluntários, principalmente nos locais que precisam mais, como eu que fui para a Ásia", explica. "É um intercâmbio, mas não um intercâmbio só pela questão da cultura, tem algo por trás que é toda a espiritualidade Marista."
Uma das perguntas que Silva mais ouve é 'de onde surgiu essa vontade de viajar e ajudar'. "Para mim foi algo muito natural, desde 2005 participo de atividades de solidariedade, do Núcleo de Pastoral. Fui sendo 'treinado' para isso", define Silva, que se preparou por quase um ano para a viagem. A escolha do destino envolvia não só a necessidade local, como também se as habilidades dele se encaixavam no que o local precisava.
No Sri Lanka, onde passou os primeiros seis meses, ele deu aulas, principalmente de inglês e geografia, para uma média de 150 crianças, a maioria vítimas da guerra civil e do tsunami. Eram atividades extras, em que o professor privilegiava mais "o estar com eles"(crianças).
"Aqui a gente tem a realidade do fazer e fazer e para mim foi muito difícil abrir mão do fazer e simplesmente ser, estar com eles lá e dar a oportunidade para eles serem crianças. Eles viveram os horrores da guerra civil", define. O grupo tinha participação de crianças de 4 a 5 anos até adolescentes se preparando para o ensino médio. "Era uma casa que os irmãos (Marista) tinham e que dava um reforço muito grande no contraturno", explica.
Silva ficou em uma cidade distante quatro horas da capital, que tinha problemas com falta de energia e água. "Nossa casa era a melhor da vila porque era de tijolos", lembra, sobre uma das poucas diferenças, já que ele próprio não tinha colchão. "Dos sete dias da semana, três não tinha energia." Mesmo depois de 10 anos do tsunami, que matou 60 mil pessoas em três minutos, ainda há destruição no Sri Lanka, e também muitos órfãos, segundo o voluntário. Durante o tempo que passou na Ásia, Silva emagreceu oito quilos e também precisou raspar os cabelos por causa dos piolhos.
"Na Tailândia foi uma outra experiência, eu morei no campo de refugiados mesmo", conta. Com 115 alunos, Silva precisava levar e buscar um a um. "Porque eles corriam riscos de ser sequestrados por milícias, que pediam resgate ou vendiam os órgãos", explica. Além das aulas para as crianças, o voluntário também prestou assessoria jurídica para os refugiados. Como sede da Organização das Nações Unidas (ONU) na Ásia, a Tailândia concentra muitos refugiados de países vizinhos, como Mianmar.
Para manter a família e os amigos atualizados com suas notícias, Gabriel Silva criou o blog com relatos e fotos das suas experiências. "Mas tem algo que pouca gente sabe e só contei para os meus pais quando cheguei e eles viram que eu estava bem", afirma. No Sri Lanka, ele ouviu uma ameaça à sua vida. "A guerra acaba, mas não acabou a brasa", explica.
Por dois meses, Silva esteve em Genebra (Suíça) e teve contato com a ONU para compartilhar suas experiências na Ásia, atuando com a Fundação Marista de Solidariedade Internacional (FMSI). Em Roma foi visitar a sede da Fundação e por lá passou o último mês da viagem. "Fui a dois extremos, do campo de refugiado ao auge do desenvolvimento humano, na Suíça", pontua.
No balanço que fez no blog, Gabriel Silva lista 15 lições que aprendeu durante o voluntariado. Um dos grandes ensinamentos, enfatiza, "é que a gente consegue ser feliz com muito menos. Percebi isso quando vi que a minha vida cabia dentro de uma mochila e ali era eu e Deus", diz.
Os trechos aéreos foram pagos pelo programa de voluntariado, que também deu uma ajuda de custo de 120 dólares por mês. "As despesas pessoais eram por minha conta", lembra. Uma surpresa? "A internet era muito boa e barata. O pacote de 5GB, que é muita coisa, custava uns R$ 3,50."
Ainda curtindo férias, Silva não pensa em planos para o futuro. Talvez um livro com o que viu por lá. "Não sei se em forma de crônicas, como fiz no blog", relata. Histórias é que não vão faltar.


