''Um bicho de televisão''. É assim que Regina Duarte se define quando esmiuça, em uma longa conversa durante seu almoço, os 46 anos de dedicação às novelas e minisséries. Talvez, por isso, seja tão simbólico para ela que, justamente no ano em que completa 50 anos de carreira - a atriz começou a atuar em 1941, nos palcos -, esteja no ar em dois momentos especiais de sua vida. ''O Astro' já é um dos meus principais trabalhos e poder rever ''Roque Santeiro'' fez com que eu me realizasse ainda mais agora. O acaso tem sido muito positivo para mim'', avalia ela, que interpreta a descontrolada Clô Hayalla no folhetim das 23 horas da Globo.
Aos 64 anos, a atriz garante que ainda tem muitas vontades no que diz respeito ao seu futuro na tevê. E chega a entregar alguns nomes com quem gostaria de trabalhar. ''Não conheço Duca Rachid e Thelma Guedes, mas sou louca para fazer algo com elas. Adorei ''Cordel Encantado''. E outro com quem eu gostaria de trabalhar é o João Emanuel Carneiro. ''A Favorita'' é, literalmente, a minha favorita'', elogia.
Há tempos você manifesta o desejo de interpretar uma grande vilã. Viver um tipo politicamente incorreto como a Clô amenizou essa vontade?
Com certeza. A Clô é aquele tipo de personagem que você odeia muitas vezes mas, em outros momentos, sente uma profunda compaixão por sua fragilidade, pelo lado infantil desamparado e mimado. Falta razão colocando freio naquele vulcão emocional que a forma. Ela é arrastada por emoções, o que às vezes a torna má, desagradável e profundamente antiética. Não vejo a Clô como uma vilã ou boazinha. Taxar ela desse jeito seria torná-la menor e ela é bem maior que isso.
A Clô é uma personagem com um perfil diferente da maioria que você interpretou na tevê. Isso a deixou insegura?
Toda estreia gera uma expectativa em mim. Mas a relação com a personagem não me afligia. Ela veio pronta, eu só precisava me entregar e fazer com sinceridade o que estava escrito. A insegurança bateu em relação à memória, voz, ao próprio ato de decorar o texto. Eu não estava trabalhando como atriz, estava apenas exercendo minha vida de mãe, dona de casa, esposa, um período em que você trabalha uma faixa vocal muito limitada. Voltei para as aulas com a Rose Gonçalves, minha fonoaudióloga, para trabalhar graves e agudos, abrir um pouco a minha voz. E aí, ao mesmo tempo, exercitei a memória, que precisa se aquecer. Quando você não está usando, ela esfria e fica difícil decorar três frases. Hoje, já aquecida, decoro dez com duas ou três lidas.
Mas a Clô é uma personagem carregada em certos exageros, com tons mais fortes. Em algum momento você sentiu receio de ficar ridícula em cena?
Claro que sim! Qualquer artista passa por isso. Mas não tenho medo de errar. Ator não pode se acomodar em uma área de segurança para só acertar. Tem de ser ousado, de repente até errar. Só se arriscando até a ficar ridículo, 'over' é que você consegue criar algo novo. Do contrário, fica se repetindo a vida inteira dentro de uma faixa de segurança que não acrescenta nada a você e nem a ninguém. Artista tem a obrigação de se expor ao erro para crescer, evoluir. Não me vejo sentada na poltrona fazendo a mesma coisa e não tenho medo de ficar ridícula. A graça da minha profissão é justamente voltar a ser criança. Interpretar é brincar de faz de conta. E, nesse ponto, vivo uma fase de sorte.
Por quê?
Se é que existe mesmo sorte ou destino, acho que algo está jogando a meu favor. Tenho 46 anos de televisão, mas comemoro 50 anos de carreira em 2011. Minha primeira vez nos palcos foi em um espetáculo amador, ainda em Campinas, em 1961. Eu tinha 14 anos. E, agora, o acaso me faz festejar isso com duas atuações tão marcantes na minha carreira no ar. Além da Clô, em 'O Astro', o público pode me ver também como a viúva Porcina, em 'Roque Santeiro'.
Você tem assistido aos capítulos de 'Roque Santeiro'?
Quase sempre. E adoro. Naquela época, eu não prestava tanta atenção, não tinha muito tempo. E hoje há mais recursos, a gente acompanha pela internet, grava, vê depois... O que é interessante é que tenho visto traços da interpretação e da própria abordagem dos temas que, na época, acho que não tive maturidade para perceber o quão aguda era a crítica social que se fazia.
Você trabalhou diversas vezes com a Janete Clair, que escreveu o original de 'O Astro'. O que representa para você voltar a atuar com um texto dela?
Quando falo de ousadia criativa, penso no que a própria Janete me ensinou. Ela sempre era ousada em suas propostas. Estava o tempo todo inventando novidades com convicção, fé em sua imaginação e na sua fantasia. Aprendi muito com ela e voltar a trabalhar em um texto seu é, de certa forma, reforçar esse aprendizado. Me faz perceber ainda mais o quanto não devo me acomodar e me sentir segura e superprotegida em nenhum trabalho.
Depois de 46 anos, a tevê ainda satisfaz você?
Muito! Sou um bicho da televisão. Me criei aqui, embora tenha feito muito teatro e iniciado minha carreira nos palcos amadores. Gosto do estúdio, dessa urgência característica, de fazer a cena de forma mais intuitiva. O teatro permite ao artista elaborar mais, investigar antes de chegar a um acabamento final. Na tevê não, é a sua intuição que mostra como interpretar determinada cena. Já aprendi a melhor forma de lidar com a tevê.
E qual é essa forma?
Não espero da televisão mais do que ela pode me dar. Quando eu quiser algo diferente do que ela está me proporcionando, vou procurar em outra forma de expressão. É isso, trata-se de me adequar ao veículo com tudo o que ele tem de bom e de... (pausa) Qual seria a palavra certa? Nossa, é uma definição difícil. Não é ruim. É que se trata de um veículo incompleto. Tem muita coisa que não dá para fazer na tevê. A programação entra na casa das pessoas e a gente precisa tomar cuidado com o jeito de mostrar as coisas. Principalmente para não desrespeitar esse telespectador que está sendo meio invadido.
Depois de mais de quatro décadas, o que você ainda tem vontade de fazer na televisão?
Há muita gente com quem quero voltar a trabalhar e outras pessoas com quem ainda não trabalhei. A Duca Rachid e a Thelma Guedes, por exemplo. Adorei 'Cordel Encantado'. É o tipo de novela que, assim como 'Vale Tudo' e 'Roque Santeiro', por exemplo, vão poder reprisar daqui a 20 anos e todo mundo vai curtir. Não conheço as autoras, mas sou louca para fazer algo com elas. E outro com quem eu gostaria de trabalhar é o João Emanuel Carneiro. 'A Favorita' é, literalmente, a minha favorita. O meu lado mais adulto adorou aquela novela. Já meu lado criança gostaria de ver 'Cordel Encantado' o resto da vida. Deviam transformar essa história em série.
Hoje, um convite para interpretar uma heroína poderia seduzir você? Afinal, é um posto que vem recusando desde o fim de 'Páginas da Vida'.
Tudo é uma questão de momento. Daqui a alguns anos, sei lá... O ser humano é meio assim: quer sempre o que não tem. Pode ser que no futuro, depois de fazer personagens mais radicais e libertos, eu sinta falta de viver uma mãezona de novo. Assim como naquela época, quando eu sentia necessidade de fazer mulheres menos certinhas. Mas se tem uma função da Clô, em 'O Astro', é ser mãe do Márcio, personagem do Thiago Fragoso. O resto é consequência disso.
''O Astro'' - Globo - Terça a sexta, às 23 h.

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