Amor pela arte de fotografar
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sábado, 24 de março de 2012
Elaine Souza <br> Reportagem Local 
De posse de seu 'armamento' leve, Grazi Diez realiza um trabalho intuitivo, desenhando com luz, questionando e denunciando por meio de suas imagens. A londrinense que há seis anos trocou o Brasil pela Inglaterra, está sempre em busca de novos desafios profissionais.
De Londres ela já enviou seus registros para publicações como Vogue Brasil, Vogue RG, Vice, Revista Real, WinkMag, além de também trabalhar para empresas como BP, McDonald's, Coca-Cola Europa, Cinven, Junior Magazine, Sunday Times Magazine, Network Rail, Invensys, entre outras.
Só que a história profissional de Grazi Diez vai bem além desses trabalhos. Dedicada e, acima de tudo, competente, foi ao se arriscar a registrar universos tão distintos que ela lubrificou ainda mais sua porção retratista. A primeira e, segundo ela, mais incrível experiência, foi quando mergulhou na cultura butanesa. No país asiático, considerado um dos mais fechados do mundo, a fotógrafa passou um mês traduzindo em imagens as diferenças culturais e momentos marcantes na história daquele povo.
''Preparei-me por muito tempo para essa viagem e acabei antecipando a data devido à coroação do novo rei Jigme Khesar Namgyel Wangchuck. Fotografei a cerimônia. Foi um momento mágico, marcado por muita superstição, mantras e tradição. Conheci a família real inteira e muitos plebeus desse reinado. O país tem fome zero, analfabetismo zero, índices de violência insignificantes e nenhum mendigo na rua. Não há registro de corrupção administrativa e o povo adora a família real. Felicidade é levada a sério no país, único no mundo a ter Gross National Happiness (Felicidade Interna Bruta) como política pública. Ao estado cabe prover as condições necessárias para que a população possa se concentrar na busca da felicidade, por meio dos ensinamentos budistas'', explica ela.
Só que ao conhecer, neste ano, uma nepalesa/butanesa que vive em Londres, as positivas impressões da brasileira quanto ao país do rei Jigme já não são mais as mesmas. Manter o povo ignorante e feliz é - e sempre foi - o objetivo daquele governo.
''É um ponto de vista que está me fazendo ter vontade voltar até lá e passar mais uma temporada apronfundada na cultura deles. Conhecer mais gente, escutar mais histórias. Quero sempre voltar lá. Quero desenvolver um trabalho longo, sério, de etnofotografia e poder dar algo de volta para esse povo que me ensinou tanto e me recebeu tão bem'', diz Grazi, que tem entre um dos seus projetos futuros, transformar a experiência tida naquele país em um livro.
Bem distante do Butão, outra vivência figura entre os grandes momentos da trajetória da londrinense. Em 2011, o destino foi a cultura árabe e persa, em meio à revolução. Durante três meses, na companhia do namorado, ela percorreu a Síria, Jordânia, Irã, Egito, Turquia e Emirados Árabes.
''Estávamos em Homs (Síria) no dia que a revolução estourou por lá. Foi muita tensão. Passamos uma situação de apuro. Com a cidade sitiada, havia somente homens armados na rua e dois deles nos seguiram com armas nas nossas costas até o hotel e, depois de muitas perguntas agressivas, mantiveram nossos passaportes até o dia seguinte. Nem fardados de policiais estavam, deveriam ser do serviço secreto. Tirando essa situação de risco e de eu ter quase morrido em um mergulho no Mar Vermelho, foi uma viagem cheia de surpresas agradáveis'', relembra.
Inquieta por natureza e neta de um imigrante italiano que era fotógrafo, sua relação com a fotografia começou aos 11 anos, quando seguiu viagem com os amigos de escola rumo a Paranaguá, Vila Velha e Curitiba. Com uma câmera emprestada de sua mãe, Grazi voltou com 10 filmes de 36 poses.
''Minha mãe levou os filmes para revelar e não tinha nenhuma fotografia minha em dez filmes de 36 poses, só havia fotografias feitas por mim. Ela me deu a maior bronca. Eu sempre brinco dizendo que ela me reprimiu no meu primeiro instinto fotográfico (risos). Como boa mãe, queria milhões de retratos da filha''.
Ao lado da jornalista Paula Diniz, Grazi arquiteta seu mais novo projeto que será em uma tribo indígena brasileira. A londrinense - que a cada clique espera que sua imagem crie um debate, cause estranhamento, informe, transmita sentimento ou que simplesmente registre algo que daqui um segundo já não vai mais existir - vem ao Brasil todos os anos rever a família e amigos que deixou em Londrina.
Sobre a busca da fotografia como forma de expressão, ela cita Henri Cartier-Bresson, um dos mais importantes fotógrafos do século XX e tido por muitos como o pai do fotojornalismo. ''De todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa para sempre o instante preciso e transitório. Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente desaparecendo e, depois de desaparecidas, não há mecanismo no mundo capaz de fazê-las voltar outra vez. Não podemos revelar e copiar uma memória''.


