Amor de mãe
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de abril de 2006
Adriana De Cunto<br> Equipe da Folha 
De repente, uma tragédia muda a vida de uma família inteira. Muitas pessoas já passaram por isso e outras viram situações assim em filmes, novelas, com algum amigo ou parente. Diferente também é a reação de cada um a esses tristes acontecimentos que, sem avisar, tiram tudo da ''normalidade''.
A empresária Maria Elisa Ferraz Paciornik perdeu o filho e o marido em um acidente de carro na Cidade Industrial de Curitiba (CIC). Onze anos depois, ela consegue revelar a dor e os sentimentos de angústia e tristeza em um livro sensível e belo. ''Amor Perfeito Amarelo'' é comovente da primeira à última página. Uma lição (ou um recado) para quem, por picuinha do dia a dia, perde tempo precioso de convívio com filhos, marido e amigos.
O livro é assinado por Maria Elisa e pelo filho Felipe, o caçula morto aos nove anos, junto com o pai, o médico Jaime, naquele fatídico acidente ocorrido em 20 de julho de 1994. Explica-se a literatura a quatro mãos: o garoto Felipe puxou à mãe no gosto pela poesia e algum tempo depois da sua morte, Maria Elisa encontrou, revirando uns guardados, algumas poesias e textos do menino. Eles estão publicadas no livro, assim como uma curiosa teoria da sincronicidade, desenvolvida por Felipe. Maria Elisa conta que Felipe era um menino muito espiritualizado, e mãe e filho andavam conversando sobre sincronicidade. ''Nós tínhamos conversas incríveis'', conta a autora.
Depois do acidente, a mãe continuou ''conversando'' com o filho, mas por meio de cartas que contavam a dificuldade em superar a saudade, a dor, o dia a dia sem o marido e o caçula. São essas cartas que estão reproduzidas no livro. ''Amor Perfeito Amarelo'' surpreende já no prefácio, escrito por outro filho de Maria Elisa, Pedro, hoje com 25 anos, sobrevivente do acidente. Ele também escreve para o irmão uma das passagens mais bonitas do livro: ''Você já deve saber que algo de errado aconteceu. Vocês foram reto naquela estrada. Infelizmente, só a minha vida fez a curva (...) Ah, a mãe. Se você a visse agora. É de arrepiar. De certa forma grande parte do coração dela estava no carro com a gente. Como a medicina explica que ela tenha sobrevivido então? Como ela faz para estar cada dia mais forte, mais madura e mais bonita?''
Pedro, relações-públicas, e os dois irmãos mais velhos, os advogados Germano (29) e Ruy (27) moram com a mãe em Curitiba. ''Costumo dizer que três filhos deram à luz a uma mãe em 20 de julho de 94'', conta Maria Elisa para resumir o apoio que recebeu dos meninos mais velhos. ''Eles deram força. Eu acho que sobrevivi por causa deles''.
E o apoio recebido dos amigos? Maria Elisa não se esquece deles e cita-os em várias páginas. ''Escrever esta história foi uma catarse. Foi resgatar momentos felizes e sofridos de minha vida. Talvez tenha sido ainda uma maneira de encerrar um ciclo, foi sobretudo rever meus valores'', comenta.
Depois da publicação de ''Amor Perfeito Amarelo'', Maria Elisa, que dispensa apresentações no meio empresarial e social de Curitiba, começa agora a ser conhecida também por outras pessoas. ''Eu tenho sido procurada também por pais que perderam os filhos para conversar sobre a mesma experiência (...) Só quem passa por isso sabe o que a gente sente. Existe uma palavra para definir quem perdeu os pais (órfão), quem perdeu o marido (viúva), mas não existe uma palavra para definir quem perdeu um filho'', diz.
Apesar da tristeza, Maria Elisa não se deixou abater e deu um rumo de sucesso para a sua vida profissional. Advogada, fala fluentemente francês, inglês e espanhol. Entre muitas atividades diferentes, foi procuradora da prefeitura de Curitiba; responsável pela estruturação da CIC; secretária de Administração do Estado do Paraná de 1999 a 2000; diretora de Relações Exteriores da Renault do Brasil; representou o Brasil, de 1997 a 1998 no escritório da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Onudi), em Paris. Hoje, está à frente da empresa de consultoria Ferraz Paciornik Associados. Sem falar no trabalho social: é presidente da Alliance Française de Curitiba, chefe da Comissão do Berçário III, do Hospital de Clínicas (HC), conselheira da Federação das Indústrias do Paraná e Presidente da Associação dos Amigos do HC.
O berçário de prematuros do HC foi batizado com o nome de Felipe Ferraz Paciornik. É que o menino nasceu prematuro, teve parada cardíaca e respiratória e foi levado às pressas para aquela unidade. A família acompanhou a batalha para os médicos e enfermeiros salvarem o bebê, mesmo sem equipamentos, e desde aquele tempo Maria Elisa se dedica em ajudar o HC. Tanto que a renda do livro está sendo revertida para o hospital.
O nome do livro se deve ao fato de Maria Elisa e Felipe gostarem de jardinagem o menino tinha um canteiro específico onde gostava de plantar amor-perfeito. Maria Elisa é londrinense, mas aos 11 anos mudou-se com a família para Curitiba.
Serviço ''Amor Perfeito Amarelo'' pode ser encontrado nas livrarias e na Associação dos Amigos do HC, fone 41 3263-4708.


