Amada, temida e respeitada
Elza Correia, vereadora, não faz assistencialismo, mas orienta os que a procuram a valer-se dos próprios direitos
Arquivo FolhaElza Correia: Cada pessoa é sua própria catedral
Walmor Macarini
De Londrina
Os que a conhecem a amam, os adversários políticos a temem e a respeitam, e os homem que arrastam asas por ela não ousam aproximar-se e ficam a distância, tímidos e cautelosos. Há os que lhe mandam cartas de amor, algumas anônimas; outros lhe enviam flores; e chocolate, muito chocolate.
Esta mulher amada, temida e respeitada é Elza Correia, vereadora em Londrina. Única representante feminina no Parlamento municipal, e quinta nesta cidade de 66 anos, depois de Amanda Sabino Lopes, Vera Manella Cordeiro, Iracema Mangoni e Lygia Pupatto.
Conhecida pela sua inflexibilidade em concessões que firam a dignidade do cargo, Elza Correia nem de longe é sondada por aqueles que buscam benefícios escusos.
Esta combativa mulher teve uma vida de sobressaltos e angústias, porque o pai o lendário Manoel Jacinto Correia, comunista em regime de ditadura de direita era sempre buscado ao menor sinal de turbulência, e foi preso 17 vezes. Em diversas delas, arrancado de dentro de casa, diante da mulher e filhos. Prender era preciso, mesmo sem alguma razão aparente, porque os cidadãos tinham que saber que havia muito perigo rondando... E até para justificar a existência da ditadura militar. Manoel Jacinto era muito utilizado para os fins do regime. A qualquer vento que soprasse vindo do flanco esquerdo, era dada a ordem: Prendam o Manoel Jacinto! E não apenas ele.
Nesse clima de ideologia intensa criou-se a adolescente e jovem Elzinha (como a chamam na intimidade), junto com mais dez irmãos (todos ainda vivos, e nenhum deles político), e a mãe, Anita, já falecida.
Mas a Elza mulher é delicada nos gestos, bonita, verdadeira nas palavras, uma amorosa pessoa, que gosta de música popular brasileira e ao mesmo tempo de canto gregoriano, entrega-se inteira numa roda de samba e num forró, é boa dançadeira e sempre desfila nas escolas de samba, em Londrina. (Foi fundadora da Escola Chão de Estrelas, que já não existe).
Na sua discoteca são encontráveis Chico, Caetano, Gil (e embora não citados, certamente os demais baianos), Elis, Nelson Gonçalves, Angela Maria, Marisa Monti, Armstrong, Sinatra, Billy Holliday, Edith Piaff.
Já os filhos curtem rock. Elza tem dois filhos: Thomas, de 19 anos, que cursa Jornalismo; e Thiago, de 15, cursando o colegial. Ambos com gosto pela política. E conscientes faz questão de ressaltar a mãe, que nunca dispensa o almoço com eles, todos os dias. Elza é desquitada, há 9 anos, mas amiga do ex-marido (Cláudio Muller).
Nascida londrinense, é formada em História pela Universidade de Londrina, onde também lecionou esta disciplina. Representa o Paraná no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e foi fundadora do Centro Londrinense de Atendimento à Mulher, hoje Secretaria da Mulher. Nisto seguiu os passos da mãe, Anita, que em 1949 fundou a Associação Feminina de Londrina, uma entidade de defesa dos direitos da mulher.
Costureira, a mãe escrevia poemas e textos, e deixou o livro Memórias (de uma mulher de um comunista). Este comunista, Manoel Jacinto, falecido em 1983 aos 65 anos, era um nordestino do Ceará, que deixou o lar paterno aos 7 anos, porque o pai o agredia. Cego, pobre e negro (que saga!), vivendo de ajuda popular, o pai tinha o menino como seu guia e batia nele quando o dinheiro não entrava.
Manoel Jacinto viria a aportar no Norte do Paraná. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro, foi líder de guerrilha em Porecatu, em luta pelas causas da terra. O partido acabou declarado ilegal e Jacinto nunca mais teria sossego. Quem o conheceu sabe que era um homem muito humano. Ele e a mulher eram espíritas, e boas pessoas. Jacinto foi vereador em Londrina, pelo PTB, no mandato do prefeito Hugo Cabral.
Elza herdou dos pais esse seu jeito de ser. Candidatou-se duas vezes a vereadora, sem conseguir eleger-se, até porque seu partido era o PCdoB. Só chegou à Câmara nesta legislatura, pelo PMDB.
Suas grandes bandeiras, como vereadora, são a preservação do meio ambiente, a saúde e a educação da mulher (embora ela se declare uma vereadora também dos homens), os direitos dos cidadãos como um todo e, sobretudo, a moralidade. Uma de suas batalhas, agora, é desvendar o escândalo da AMA/Comurb e ver a punição dos culpados, com o ressarcimento aos cofres públicos dos valores subtraídos, e saber onde o prefeito enfiou os 181 milhões de reais provenientes da venda de 45% das ações da Sercomtel. Alguns destemidos companheiros de Câmara a acompanham nessas causas.
Seu gabinete não é frequentado por pedidores, como acontece com a maioria dos demais. Ela não quer ser uma vereadora de assistencialismo, mas mostra, àqueles que a procuram, seus direitos naturais, dessa forma conscientizando-os. Prega que a função do vereador não é apenas produzir leis, mas fiscalizar as existentes. Informa que Londrina tem 8.000 leis e que 70% delas não são conhecidas dos cidadãos e de muitos vereadores. Por isso identifica seu mandato como didático, que é sobretudo informar e conscientizar os cidadãos.
Diz que na Câmara, até por causa desse seu estilo diferenciado, às vezes sente-se sozinha. Por isso exerce seu mandato menos com os pares e mais com sua equipe de assessores voluntários, que são profissionais da comunidade especialistas em questões de direito, economia, saúde, educação, habitação, cultura.
Esta imbatível lutadora é no fundo uma mulher que lê poesia, debruça-se em livros de filosofia, política, sociologia, aprecia fazer muqueca de peixe, é espiritualista (não ligada a religião) e revela que sua ligação com Deus é muito interior. Por isso não é atéia nem cética. E define: Cada pessoa é sua própria catedral.





