Alquimia de cheiros
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de julho de 2001
Carmen Kley De Londrina 
Há muito mais dentro de um frasco de perfume do que nosso simples olfato possa suspeitar. Cada essência é o resultado de uma mistura de 100 a 150 matérias-primas naturais, óleos e produtos sintéticos, combinados com arte, sensibilidade e atenção a um mercado cada vez mais exigente. O perfumista francês Jean Luc Morineau acredita que a aceitação de um determinado perfume está sujeita ao crivo da memória olfativa e, ainda, que existe uma memória olfativa coletiva. Dono da LAtelier, empresa com sede em São Paulo, que fabrica essências para cosméticos, perfumes e produtos de higiene e limpeza, Jean Luc Morineau esteve em Londrina no final de semana, para fazer palestra durante a convenção dos franqueados da Adega Perfumada.
Para Morineau, quem compra um perfume está, na verdade, comprando um sonho, geralmente associado à memória olfativa. Ele cita como exemplo o Lou Lou, da Cacharel, cujo cheiro de coco é associado, pelos franceses, a férias em praias tropicais e que, para os brasileiros, pode lembrar detergente. Uma pesquisa com o Polo de Ralph Lauren, em duas comunidades, mostrou que ele era aceito e rejeitado pelo mesmo motivo: o cheiro de mato. Se quem morava num bairro de classe média o aprovava por lembrar o sonho de ter um sítio, uma casa de campo; o da periferia o desaprovava por associá-lo ao desconforto em que vivia.
Alguns acontecimentos podem refletir no mercado de perfumes. Jean Luc Morineau cita, como exemplo, o caso do Obsession, de Calvin Klein. O perfume vendia muito bem, até o mundo perceber a gravidade do problema da Aids e começar a rejeitar qualquer produto que sugerisse sensualidade. Como Calvin Klein, além de excelente perfumista, tem uma boa assessoria de marketing, lançou o Eternity, que há anos está na lista dos preferidos nos Estados Unidos e Europa, relata.
Nesse ranking dos perfumes, alguns têm cadeira cativa, como o Chanel nº 5, Opium, Poison e Anais Anais, entre os femininos, e entre os masculinos, Dakkar Noir, Azzaro, Polo e Pacco Rabanne. Entre os mais recentes, Eternity (tanto o masculino como o feminino) e o Dolce Gabbana feminino. Essa seleção pode parecer um tanto estranha para o brasileiro que, com razão, prefere as notas mais leves e refrescantes. Os cheiros nacionais, ou os que têm grande aceitação entre os brasileiros, são os da alfazema e lavanda.
O primeiro cheiro bom que o ser humano sente é o da mãe. Jean Luc Morineau conta que, na Alemanha, uma experiência com crianças de uma creche, todas entre 2 e 3 anos provou como essa ligação com o cheiro materno é forte. Cada mãe deixou na creche uma peça de roupa que havia usado. As peças foram deixadas sobre uma mesa, ao alcance delas, e, após algum tempo, cada criança havia apanhado exatamente a peça pertencente a sua mãe.
O segundo cheiro bom é o do talco. E, entre as pesquisas com adultos, de acordo com Morineau, vence o cheiro da terra ou planta molhada. O pior cheiro? Melhor nem falar.
O perfume, ensina Morineau, é uma questão de pele, de clima, de estilo de vida. Uma escolha absolutamente individual. E se alguém duvida, que experimente comprar um Poison, da Christian Dior, no Natal, em Paris. Vai se sentir maravilhosa. Mas, ao voltar ao Brasil, use o mesmo perfume a 40 graus...


