Alma musical
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sábado, 30 de abril de 2016
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Foi na adolescência, na terra natal Joinville (SC), que Ozir Padilha descobriu a música flamenca. "Estava brincando com uns amigos do prédio quando ouvi uma música. Interrompi o que estava fazendo e fui até o apartamento em que estava tocando. Quem abriu a porta foi uma menina na mesma faixa etária que eu. Era a avó dela, espanhola de Málaga, que estava ouvindo Paco de Lucia. Pedi se ela poderia gravar o disco para mim. Naquela época era normal gravar uma fita cassete, eu tinha pouco acesso à internet. Mas era uma técnica muito distante para eu entender como se tocava aquilo", conta.
"Eu estudava violão clássico e meus professores me jogaram um balde de água fria quando disseram que não poderiam me ensinar música flamenca. Vai ter que ir para Espanha para aprender, um deles brincou", lembra Padilha. Mas sem nunca ter pisado em solo espanhol, o músico não só se tornou um guitarrista conceituado como passou a cantar também. Além de ter ampliado o repertório com outros gêneros latinos.
Radicado em Londrina há pouco mais de um ano, Padilha, em parceria com a professora Ana Paula Minari, prepara a 1ª Semana Flamenca da cidade, que acontece de 3 a 8 deste mês. Entre os professores convidados está Pedro Fernandez, de Porto Alegre. "Hoje em dia é um dos melhores bailaores (como são chamados os dançarinos) de flamenco do Brasil. Eu o conheci num workshop em Florianópolis e ele me chamou para ir para Porto Alegre, onde morei por um ano e toquei numa banda chamada Tirititrá, de flamenco fusion."
E de onde vem a paixão pelo Flamenco? "As pessoas sempre me perguntam, mas para mim é difícil explicar. Porque, apesar dos meus bisavós serem espanhóis, ninguém cantava, ninguém ouvia flamenco em casa. Já meu contato com a música veio bem cedo, minha mãe incentivava, eu já me expressava muito através dos sons, gostava de cantarolar, de batucar. Com sete, oito anos comecei as aulas de inicialização musical. Queria estudar piano, mas por não ter condições de ter o piano em casa, aquilo me desestimulou", conta.
Ele lembra que só voltou a desenvolver a musicalidade quando foi morar numa pensão com o pai - a mãe faleceu quando ele tinha 12 anos. "Fiz amizade com um estudante que tocava violão e retomei os estudos de violão erudito."
Já se vão 10 anos desde que começou a se dedicar ao flamenco. Uma amiga, sabendo do interesse dele pelo assunto, contou sobre um curso de dança flamenca que aconteceria em Joinville. "A professora, que era de Florianópolis, me recebeu bem", lembra. E aí passou a se inteirar do universo, primeiro observando as aulas de dança, depois acompanhando com o violão. "Era um jeito de eu vivenciar tudo."
A passagem por Porto Alegre, em 2009, foi um marco na carreira. Para o guitarrista, a capital gaúcha é um dos lugares onde o flamenco tem presença mais forte. "Não era mesmo o intuito ficar por lá, era para adquirir experiência e sabia que iria me abrir muitas portas", explica Padilha, que passou a ser convidado para acompanhar grupos de outras cidades, como Curitiba. "Passei a trabalhar desenfreadamente."
Apesar da mãe ter nascido em Londrina e dos pais terem se conhecido por aqui, Padilha só foi conhecer a cidade há uns três anos, acompanhando uma apresentação da Companhia Michel Cássin. "No ano seguinte, me convidaram de novo e eu vim. No final do espetáculo, aconteceu uma confraternização e foi onde conheci minha mulher. Ela era uma ex-aluna da companhia", entrega o guitarrista.
Com o casamento veio a mudança para Londrina, a primeira filha e também um novo empreendimento musical, o Sonora Mescla Trio, com repertório de música latina. "São músicas que no fundo todo mundo conhece, mas não tem oportunidade de ouvir ao vivo, como Santana, Buena Vista Social Club, Orishas e Gipsy Kings", diz. "É um gênero que está tendo muita aceitação, e não é só em Londrina", diz
"Mas toco outros gêneros também, como John Mayer, que vai para outro universo, totalmente diferente. Serve para mim como um respiro. Adoro interagir com outros gêneros, fortalece a minha identidade como músico", avisa.


