Alguns amigos, vários talentos e muitas ideias na cabeça
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de julho de 2010
Omar Godoy<br>Equipe da Folha 
Um imóvel de esquina destoa em meio ao comércio tradicional do bairro São Francisco, no centro histórico de Curitiba. É a Galeria Lúdica, um ambiente híbrido que funciona como loja de roupas e acessórios, escritório de design, espaço para exposições e café-bistrô. Tudo muito ''contemporâneo'' e ''conceitual'', para usar dois adjetivos um tanto batidos - porém precisos.
Inaugurada há pouco mais de seis meses, a galeria é o desdobramento natural do Mega Bazar Lúdica, evento semestral criado em 2007 e que rapidamente se tornou uma referência para os novos criadores da cidade. A ideia, da arquiteta Débora Mello, era simples: reunir, num único local, estilistas e artistas com grande potencial, mas pouca visibilidade. Três anos depois, muitos deles já participam do circuito ''oficial'' da moda e da cultura.
Nesse meio tempo, Débora conquistou parceiros como o publicitário Felipe Pedroso, hoje responsável por toda a parte de comunicação do empreendimento. Em entrevista à reportagem da FOLHA, os dois explicam que todos os projetos ligados à marca Lúdica são discutidos e desenvolvidos em conjunto por uma equipe multidisciplinar. Ou ''coletivo'', nome atual do bom e velho núcleo de produção.
Além deles, formam o grupo a designer e fotógrafa Michele Micheletto, a estilista Naty Fogaça e o artista plástico Cláudio ''Dimas'' Celestino. Todos interessados em arte urbana, tecnologia, estilo e novas tendências em geral. Há, ainda, um ''padrinho'' que investiu cerca de R$ 150 mil na montagem do espaço (por não ser do meio, ele prefere não ser identificado).
Débora, mentora e motor da galeria, é uma paulista de 34 anos que se mudou para Curitiba há cerca de uma década, acompanhando os pais. Sempre desenhou cartuns e histórias em quadrinhos, mas decidiu cursar Arquitetura por ''questões financeiras''. ''Mesmo assim, nunca quis trabalhar num escritório'', conta.
Antes de chegar ao Paraná, trancou a faculdade e passou uma temporada nos Estados Unidos, onde trabalhou numa lanchonete e cortou grama, entre outros serviços. ''Voltei achando que este é um dos melhores países do mundo. Principalmente por causa das pessoas, que são mais extrovertidas e espontâneas. O americano é muito robotizado'', diz a arquiteta, que viveu nos estados da Califórnia e do Colorado.
Definitivamente radicada em Curitiba, Débora se envolveu com a cena artística da cidade e logo descobriu, entre seus amigos, vários talentos desperdiçados. Dessa percepção, surgiu o embrião do Mega Bazar Lúdica. ''Começamos num formato pocket, mas já existia o projeto de abrir a galeria'', revela. A primeira edição aconteceu no natal de 2007 e, desde então, o evento é realizado sempre nos meses de junho e dezembro.
ESPÍRITO INQUIETO (INTERTÍTULO)
A trajetória de Felipe, a ''voz'' do coletivo, é parecida. Como a amiga, ele também deu um tempo na faculdade para morar fora do país. Largou-se para Londres e lá viveu durante dois anos, estudando e fazendo bicos. ''Tenho um espírito muito inquieto e não estava me sentindo bem aqui. A viagem abriu 100% minha cabeça'', afirma o publicitário de 25 anos.
De volta à capital paranaense, onde nasceu e foi criado, Felipe atuou como booker de uma agência de modelos, prestou serviços de assessoria em comunicação e fez estágio numa empresa de publicade. Em 2006, conheceu Débora, que já naquela época montava pequenos estandes de roupas em festas. A amizade virou parceria profissional e o resto é história.
História que, se depender, da arquiteta, não vai terminar tão cedo. Segundo ela, o próximo passo do coletivo é criar um eixo com iniciativas semelhantes de outros estados e, se for possível, abrir filiais da galeria. ''Por que tudo o que é legal no Brasil tem de sair do Rio de Janeiro ou de São Paulo? Minha meta mais ambiciosa é que nosso trabalho seja reconhecido internacionalmente''.
Mas Curitiba não está excluída dos planos do grupo, que também pretende batalhar pela revitalização do bairro São Francisco. ''Estamos no coração da cidade, nossa história está aqui'', diz Felipe, atualmente empenhado em criar um relacionamento com os lojistas da região. Débora arremata: ''Se a gente servir de exemplo de empreendedorismo para outros jovens, tudo isso já valeu a pena''.


