"Tudo o que me proponho a fazer, eu faço de verdade. Sou grato à vida", diz  José Makiolke, 71, que mantém programa diário na rádio Paiquerê FM
"Tudo o que me proponho a fazer, eu faço de verdade. Sou grato à vida", diz José Makiolke, 71, que mantém programa diário na rádio Paiquerê FM | Foto: Marcos Zanutto



A voz é inconfundível para qualquer londrinense. Quando José Makiolke, 71, cumprimentou a equipe da FOLHA nos corredores da rádio Paiquerê FM - 91,7, a familiaridade do som levou à sensação de uma conversa entre velhos conhecidos. Isso se deve ao fato de que aquele senhor alto, tamanho que justifica o apelido, já soma 54 anos de carreira no rádio. Zezão já passou pelo teatro, rádio, TV, shows e por doença que ainda enfrenta com o sorriso infantil de quem sempre trabalhou levando alegria à casa dos londrinenses.

Andando com certa dificuldade - aquele não era um dia bom -, Makiolke escolheu uma sala mais fresca para poder contar a sua história. Ao som da programação da rádio que saía de uma caixinha de som e do barulho da movimentada avenida Higienópolis que entrava pela janela, começou a contar a sua história. "Nasci na Santa Casa, em 1947, com o cordão umbilical enrolado no pescoço", diz já demonstrando persistência. As irmãs do hospital, com medo de que ele morresse pagão, resolveram batizá-lo sob o nome José Maria. "Meu nome era para ser Willian, mas meus pais abriram mão", conta.

Não havia problema com o nome até os anos na escola, quando o "Maria" virou motivo de chacota. "Mariazona, Maria gorda... Como não havia psicólogo, eu resolvi na porrada. Fiquei duas semanas suspenso da escola." Foi uma vez só para que as brincadeiras acabassem. Atitude que ele reprova, mas julga que foi necessário. "Achei que foi feio aquilo, foi feio... mas eu gostei", sorri.

ADOLESCÊNCIA

Aos 13 anos, Zezão era alto demais para a idade, fazendo com que os pequenos não se adequassem ao tamanho e os maiores não aceitassem a mentalidade. No mesmo período, a geada levou a plantação de café da família, que se viu obrigada a mudar para um bairro menos abastado. "Na vila eu era o pó de arroz, menino bem cuidado, que tinha pai e mãe com tempo e o pessoal pegava pesado", recorda. Isolado, inseguro, o menino adquiriu uma gagueira.

A salvação foi a Companhia de Teatro Estudantil Iracema Luí, que aceitava alunos matriculados na rede de ensino com a condição de que mantivessem boas notas. "Eu bloqueei a gagueira, porque eu não era mais um estranho lá. Foi o espaço que eu consegui, não fui por dinheiro, nem por predicação, mas pelo que eu tinha e não sabia, foi o meu talento", conta com humildade. "Pode parecer pretensioso...", tenta justificar o autoelogio, mas era verdade. O talento foi comprovado quando aprovado em primeiro lugar na seleção de elenco de radioteatro da Rádio Difusora, aos 16 anos.

"Essa era a parte mais encantadora. Se eu pudesse voltar, largaria tudo que fiz na vida para fazer isso de novo", sonha. Com o talento do teatro e boa voz, conseguia caracterizar personagens de diversos perfis para as radionovelas, que eram ao vivo. Ele ensina: "no rádio, você coloca peso em cada palavra. Raiva!", fala rosnando como um cachorro. "Ah, estou com uma preguiça...", boceja. "Pedra é pedra!", solta com força. "E pluma é pluma", fala com suavidade.

Com uma jarra e copo de água na mesa, Zezão fala com algumas pausas. O dia quente maltratava o radialista que sentia o corpo travar por conta do Parkinson, uma convivência de mais de 15 anos. "Foi a Uyara que notou que eu estava andando com os pés arrastando, fomos fazer os exames e se confirmou. Ainda bem que vimos no começo", comenta com amor à esposa de 43 anos de companheirismo, com quem tem duas filhas e dois netos.

NOVELA

A radionovela abriu muitas portas. Passou por várias rádios da cidade, foi convidado a fazer teatro na TV (quando tudo ainda era ao vivo) e foi para o Rio de Janeiro tentar carreira. "Eu fui contratado pela Rádio Tupi do Rio, meu maior sonho era procurar a Globo, eu queria ser ator de novela e atuar no cinema", menciona.

Foi um ano e meio de trabalho e chegou a atuar em novelas, mas o preço era muito alto. Lá ficou doente e decidiu voltar para Londrina. "Quando chegou aqui na zona rural, o ônibus parou para bater pneu e eu desci. O pessoal falou para subir de volta e eu: 'não, eu quero mijar', e eles me falando para mijar lá dentro. 'Não é a mesma coisa, eu quero mijar na terra' e tchaaaa... Eu urinando e chorando, 'ahhh Londrina, que saudade', botei minhas dores para fora", ri.

Quando voltou, já com seus 24 anos de idade, tinha prestígio para continuar na rádio e na TV, onde fazia o noticiário. No mesmo período começou a onda de rádio baile pelas cidades. "Eu comecei a fazer, coloquei uma calça jeans e imitei o Elvis, as pessoas ficaram encantadas. O rádio baile não era gravação, os artistas iam ao vivo, levavam bailarinas, e eu abria o show em homenagem ao Elvis por mais de 300 cidades de Londrina e região".

Em 1992, Zezão entrou para a política, foi o vereador eleito com o maior número de votos. "Não foi uma boa fase, não foi legal, manchou a imagem do comunicador, embora eu não tenha feito nada que prejudicasse, não tenho nada em uma folha de jornal", conta. Largando a carreira política, continuou com o programa no rádio onde trabalha até hoje. "Agora estou com dificuldade, eu faço das 22h à meia noite, gravo à tarde", conta.

GRATIDÃO

Há 25 anos, Zezão se descobriu com diabetes e a partir daí nunca mais brincou com gordura, doce, cerveja e passou a cuidar da saúde de verdade. Com o Parkinson, os cuidados foram intensificados. "Eu tomo 29 comprimidos por dia", menciona. Por conta da doença, acabou travando e lesionando uma vértebra há três anos. "Trincou e infeccionou, eu tive infecção hospitalar, aí começou a minha saga, dez dias no hospital, cinco em casa. O JB Faria e a Adriana, donos da rádio, foram muito sensíveis e em nenhum momento dificultaram qualquer possibilidade de eu estar no ar", agradece. Depois disso, ficou oito meses em cadeira de rodas e seis com o andador, instrumento que ainda utiliza. "Hoje eu ando bem, mas não posso abusar", argumenta.

Apesar dos problemas, Zezão não reclama. "Um cara que quase morreu no hospital... Eu fui para a UTI, tive alucinações, não tinha tônus muscular nenhum, foi um sofrimento danado, eu nunca estive tão próximo da morte, eu pensei: 'o que eu quero da vida?' Eu fiz muita coisa, eu estou muito satisfeito", afirma.
Positivo com a vida, explica os motivos que o levam a trabalhar ainda com as dificuldades. "O Parkinson é uma doença incurável, degenerativa e progressiva. São três palavras pesadas e, como molho, eu tenho diabetes e neuropatia. Eu agradeço, se vier mais uma o que eu posso fazer? Vou pegar o pijama e ficar deitado esperando? Tudo o que me proponho a fazer, eu faço de verdade. Sou grato à vida", afirma.

É assim no trabalho, na fisioterapia, nos cuidados com a saúde, na família e com os 48 cachorros e 16 gatos que possui na chácara onde vive. "A Uyara é a diretora geral do nosso canil, ela que cuida das feridas, trata, eu corro atrás, gasto com remédio e tenho alguns padrinhos que me ajudam, isso faz com que o tempo passe", afirma.

Depois de um bom tempo de conversa entre pausas para a água dar vazão à voz, Zezão finaliza a entrevista ainda com um programa para gravar. No estúdio é outra pessoa. "Quando eu vou fazer o programa, esqueço da vida, não sei meu nome, não sei nada. 'Alegria, alegria, alegria, gente boa, alegria comunicação do Programa do Zezão com os amigos do rádio. Vamos em frente que atrás vem gente'!", entoa com alegria e nenhum entrave.

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