Curitiba - Dar um currículo breve de Carlos Miele é tarefa difícil. O paulista está com um pé na moda desde 1986, quando inaugurou a primeira loja M. Officer nos Jardins, bairro chique de São Paulo. Era a época das calças semi-baggys e Miele foi visionário: lançou calças jeans com cintura baixa e modelagens sensuais. Formado em administração pela FGV-SP, Miele nunca se deixou influenciar pelas críticas negativas no Brasil. E quando todo mundo pensou que o sucesso lhe acomodou em um único mundo de símbolos, o estilista desvia e faz um novo caminho.
Talvez as mudanças sejam fruto da mescla entre o criador e o artista, tamanha as vezes que esses dois traços de sua personalidade já se uniram. Miele já expôs com Tunga, participou da Bienal de São Paulo e elaborou em 1999 a exposição ''Contaminação'' no Museu de Imagem e do Som retrospectiva de suas obras em diálogos com nomes de destaques nas artes plásticas, música e arquitetura. Isso só para citar algumas das muitas faces dele.
Em 2003, mesmo com um sucesso absoluto de sua M. Officer, ele novamente deu uma guinada e se mandou para Nova York, onde abriu sua loja homônima na 14th Street, no bairro de Meatpacking.
Sua flagship store é um sucesso e Miele tem como clientes nomes como Alicia Keys e Cristina Aguilera.
Agora trabalha em sua nova coleção de verão. Ela será apresentada dia 12 de setembro, na Semana de Moda de Nova York. Suas roupas são vendidas em 67 lojas de 18 países, como Saks Fifth Avenue e Neiman Marcus, nos Estados Unidos, e Browns, Harvey Nichols, Harrod's e Selfridges, na Inglaterra. No Brasil, são 95 lojas M.Officer.
Semana passada, Carlos Miele deu uma rápida passada por Curitiba para participar de uma palestra no Ciclo de Atualização em Moda, evento paralelo à Curitiba Fashion Art, a CFA. E foi antes de chegar que respondeu, por e-mail, às perguntas da Folha. Acompanhe:
Folha: Como você está encarando esta fase de ficar com um pé no mercado nacional e outro lá fora?
Miele: Mesmo com tudo dando certo até agora, acredito que este é o momento mais difícil da minha carreira fora do Brasil. Estou em uma nova fase, em que tenho de transformar o reconhecimento conceitual obtido na imprensa e no mercado internacional em resultados práticos. Em recente pesquisa do Instituto Research International, publicada na revista Exame, a M.Officer foi eleita a marca de moda preferida por jovens adultos com idade entre 18 e 30. Ela foi eleita a ''número 1'' de moda no Brasil, mesmo competindo com as grandes internacionais. Por isso estou trazendo minha experiência com a flagship store de Nova York para a marca no Brasil, trabalhando na reformulação da arquitetura das lojas e também na linha de produtos.
Folha: O que é mais gratificante para o criador: o reconhecimento da mídia e famosos ou o financeiro? É claro que o financeiro é importante, mas no seu caso você não é do tipo que investe mais no prazer da criação para depois ver os frutos em sua conta bancária?
Miele: Sim, o reconhecimento financeiro é importante, mas os elogios que tenho recebido, em especial os da crítica internacional, têm me deixado muito feliz. Acho que a minha liberdade e a minha coragem me abriram muitos caminhos. Criei uma identidade, que foi o mais difícil. Sempre acreditei nas minhas idéias e não me deixei influenciar pelas críticas negativas que recebi no Brasil.
Folha: O que a mulher contemporânea busca no momento? O que ela quer vestir? Como você capta essa necessidade?
Miele: As mulheres de hoje têm carreira, dinheiro, querem ser sexies e, principalmente, jovens. Elas querem seduzir, pois estão mais solteiras, casam-se menos e separam-se mais. Minhas clientes, atualmente, têm mais de 40 anos e essa é uma idade em que, tanto nos EUA quanto na Europa, a mulher já provou tudo o que tinha para provar. Minha prioridade agora é vestir essa mulher, que procura sensualidade, que valoriza o seu corpo, é sensual, urbana e gosta da mistura brasileira. Para isso, crio minhas estampas e modelos a partir dos meus desejos, não sigo tendências. Meu trabalho busca unir técnicas artesanais típicas da nossa cultura popular com as de alta-costura, criando vestidos que trazem a mestiçagem e a sensualidade típica do nosso País.
Folha: Qual o prazer em dar palestras como a que você apresentou em Curitiba?
Miele: Aprendi muito durante esses anos de profissão, especialmente trabalhando no mercado internacional, e acho importante dividir minha experiência com outras pessoas. Essa troca é sempre muito rica, pois nos dá a oportunidade de conhecer novas visões do mercado, novos conceitos. Além disso, esse tipo de debate gera reflexões sobre o trabalho e, consequemente, aponta soluções, trazendo novas idéias para o mercado.
Folha: Como você arranja tempo para cuidar da sua carreira? Como é seu dia-a-dia?
Miele: Todo trabalho de criação e desenvolvimento de novas coleções é feito aqui no Brasil. Também dedico muito tempo ao meu trabalho no exterior, e estou sempre em Nova York, especialmente nesse período que antecede os desfiles. Ainda assim, não descuido da saúde. Pratico esportes e mantenho uma boa alimentação.
Folha: Quais são os grandes nomes da moda mundial no momento?
Carlos Miele: Admiro o trabalho de designers como Alexander McQueen, Marc Jacobs e Stella McCartney.

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