Taumaturgo Ferreira estava entre tintas e pincéis em seu ateliê em São Paulo quando a Globo o convocou com urgência para ‘‘A Padroeira’’. O ator de 44 anos atendeu na hora o chamado, apesar de ter só assistido à estréia da trama de Walcyr Carrasco. Uma semana depois, já estava na pele do juiz corrupto Honorato Vilela, um dos novos personagens criados para ajudar a dar uma ‘‘nova cara’’ e mais humor à novela das seis. Há três meses longe das câmaras – o ator viveu o caipira Januário em ‘‘O Cravo e A Rosa’’ –, Taumaturgo se dedicava à pintura, hoje já uma profissão paralela, e à finalização do site www.taumaturgoferreira.com.br. ‘‘O ator está sempre esperando tocar o telefone. Ele depende de convites’’, confessa o paulistano, contratado por obra.
O ator diz que não tinha por que não aceitar o papel em ‘‘A Padroeira’’. Como já havia participado de ‘‘O Cravo e A Rosa’’, conhecia toda a equipe da novela. Além disso, adorou o texto de Walcyr Carrasco e a maneira com que ele escreve personagens que, mesmo cômicos, têm um lado mais humano. E foi isso que gostou no fanfarrão Honorato. O personagem é um juiz bon vivant do início do Séc XVIII, que advoga em causa própria, é mulherengo e anda com indiazinhas ao seu lado. ‘‘O Honorato é um playboy. Um cara que abusa do poder, como acontece até hoje. É um personagem moderno’’, vibra o ator. Entre as excentricidades do juiz, está a mania de vestir como homem a filha Zoé, vivida por Cecília Dassi. ‘‘Ele acha difícil criar uma menina. Então, a trata como menino’’, simplifica.
Taumaturgo, na verdade, já esteve do lado dos que foram ‘‘detonados’’ de uma produção. O ator, em 1993, passou pela desagradável experiência de ser convidado a se retirar pelo diretor Luiz Fernando Guimarães da novela ‘‘Renascer’’, de Benedito Ruy Barbosa. O motivo alegado foi que Taumaturgo não estava convencendo. ‘‘Após este episódio, nunca sei se vou até o fim de uma novela’’, reconhece. Escaldado, Taumaturgo faz questão de não se colocar como salvador da pátria. ‘‘Não sou ingênuo para afirmar que eu, Susana Viera e Rodrigo Faro somos a cavalaria. Novela é imprevisível’’, diz, referindo-se aos atores convocados com ele, numa tentativa da Globo elevar o ibope de A Padroeira’’.
Com mais de 20 novelas no currículo e completando três décadas de carreira em 2003, Taumaturgo não se preocupou com o pouco tempo que teve para as gravações. Fez o que acha necessário nestas ocasiões: nada. Ele seguiu o exemplo do ator americano Anthony Hopkins, que é se inspirar exatamente no que está escrito no texto. Por isso, não leu livros de história, nem assistiu a filmes de época e sequer pensou em composições mirabolantes. ‘‘Sigo o texto do Walcyr. Tevê é comunicação, não é arte’’, acredita Taumaturgo, um admirador da escola de atores que ‘‘interpretam eles próprios’’. ‘‘O Gérard Depardieu é sempre Gérard Depardieu, seja em trabalhos de época ou modernos’’, observa. A novidade para ele é pela primeira vez ter de chegar à gravação junto com as atrizes.
É que o personagem de Taumaturgo utiliza uma grande peruca quando está no tribunal e também roupas pesadas de magistrado. Por isso, o ator tem de estar no set uma hora antes das gravações para se aprontar. ‘‘A peruca é engraçada. Dá um ar de MoliSre’’, brinca, referindo-se ao famoso dramaturgo francês. Taumaturgo gosta de alternar figurinos. ‘‘Quando ele está fora do tribunal, usa roupas com golas altas, chiquérrimo...’’, compara. Com apenas dois papéis no currículo que se podem considerar como galãs – em ‘‘Top Model’’ e ‘‘Mandala’’ –, Taumaturgo reconhece que é mais escalado para fazer anti-heróis. Os dois últimos trabalhos, ‘‘Andando nas Nuvens’’ e ‘‘O Cravo e A Rosa’’, exploraram a comédia. O juiz Honorato, definitivamente, não foge à regra. ‘‘Me acham mais um ator de tipos. No Brasil, o galã tem de ter estilo hollywoodiano dos anos 50’’, alfineta.

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