Paris John Casablancas, 63 anos, é um homem complexo desde sua origem. Nova-iorquino de sobrenome espanhol chega a ter três ou quatro nacionalidades, uma delas brasileira, oriunda de seu casamento de 13 anos com a brasileira Aline. Fundador e ex-diretor da Elite (há quem diga que a sociedade de fato não terminou), pai de um roqueiro famoso, Julian Casablancas, vocalista da banda The Strokes que tem entre seus integrantes o brasileiro Fabrício Moretti, namorado da atriz Drew Barrymore , John reaparece no cenário depois de cinco anos no estaleiro.
Seu retorno vem cheio de novidades, uma delas pode dar uma reviravolta no marasmo que se encontra o mercado das modelos. Acabou a era das supermodelos (''espécies'' criadas por ele), em que nomes como Naomi Campbell, Linda Evangelista, Cindy Crawford ganhavam milhões e viravam peças indispensáveis em qualquer campanha publicitária de grande porte. Ficou só Gisele Bundchen, seu desafeto declarado desde que a brasileira deixou a Elite e seguiu carreira milionária longe de seu criador.
Com o fim dessa fase, a brecha se abre. Atualmente, as grandes grifes de moda e beleza preferem atrizes hollywodianas a modelos. E é essa era que Casablancas pretende reeditar com seu projeto recém-criado em parceria com duas pequenas agências brasileiras. A Star System vai se basear entre Rio de Janeiro e Paris e trabalhar em conjunto, primeiro no Brasil, com o lançamento do concurso Star Models e, se tudo der certo, num país onde a beleza feminina é atávica ''a brasileira, mesmo quando é feia, é charmosa'', declarou Casablancas em recente entrevista à mídia brasileira , a fórmula vai se estender. Acompanhe a entrevista exclusiva concedida por e-mail de algum ponto do mundo onde Casablancas estava para a correspondente da Folha em Paris.

Folha- Em primeiro lugar, uma curiosidade: quantos passaportes o senhor tem? Qual a sua nacionalidade?

John- Eu tenho direito a três ou quatro nacionalidades, mas só uma da comunidade européia. Nasci nos Estados Unidos.

Folha- Qual o fato que levou ao desaparecimento das supermodelos do mercado?

John- Houve várias razões: a crise econômica dos anos 90; os exageros de conduta de algumas delas que causaram indignação em alguns clientes; o fenômeno normal de cansaço do mundo fashion, já que por definição, todas as modas e todas as tendências têm que ter um começo e um fim e às vezes o renascimento e finalmente um fim. Mas a maior razão é que a nova geração e os agentes não têm o tempo, a paciência e o conhecimento para promover, lançar e manter a imagem da supermodelo (esqueceram que se uma supermodelo não tem uma história bem contada perde o seu fascínio para o público).

Folha- Porque a sua volta agora e porque as parcerias com agências brasileiras? O padrão das meninas no Brasil ainda é o mais promissor?

John- Os padrões das meninas brasileiras continuam altíssimos. Elas têm uma atitude certa, o apoio da família e aquela mistura de raças e de etnias, o que produz aquelas belezas únicas. Voltei agora porque tinha um vácuo, ninguém estava produzindo novas estrelas, e como passo muito tempo no Brasil, agora achei que era o momento certo de voltar a descobrir e sobretudo agenciar e promover de maneira planejada e séria as carreiras dessa nova geração.

Folha- O que é necessário para que uma menina se encaixe no padrão de interesse da Star System? Quais as medidas, a idade e o comportamento da candidata?

John As medidas são aquelas de sempre: o mínimo de 1.70 m e o máximo de 1.80 m (com exceções, naturalmente dos dois lados). A idade que eu prefiro é começar aos 17 anos, mas no Brasil é praticamente impossível esperar, por causa da impaciência dos scouters, das mães e das próprias meninas. Eu pessoalmente gosto quando elas terminam o segundo grau, e estão mais preparadas para enfrentar a vida e sobretudo ter apego pelas coisas boas que vão acontecer aos poucos (quando a menina é muito jovem, ela só reclama e não tem agradecimento pelas oportunidades e pelos primeiros resultados obtidos).

Folha- Qual seria o processo para se formar uma supermodelo? Qual a trajetória que ela deve seguir? E se o senhor a encontrasse hoje qual seria o primeiro lugar fora do Brasil que ela iria? Nova York ou Paris?

John- Não tem fórmula perfeita que possa ser aplicada a todas as modelos, já que existem tantas diferenças de inteligência, cultura, resistência física, força de caráter, poder de concentração, facilidade de adaptação... A melhor escola é jogar a modelo nas águas do mundo da moda e ela vai aprender a nadar e sobreviver sem a direção e o apoio da agência e da família que a ajudam a superar as inumeráveis armadilhas e perigos. Pessoalmente, eu gosto que a modelo trabalhe alguns meses no Brasil e depois que visite mercados ditos secundários (Miami, Milão, Hamburgo e Munique). Depois disso, eu penso que Paris é mais criativo, mas em geral as brasileiras se adaptam melhor a Nova York.

Folha- Depois do Brasil, o senhor pretende realizar o Star Models fora também como fazia com a Elite?

John- Sim, se a fórmula Star Models funciona aqui, vou levar para a Argentina, México, Colômbia e a um país da Escandinávia e outro da Europa do Oeste. Será uma organização diferente da Elite, já que a Star System não trabalhará com uma rede de agências (como eu fazia no tempo em que eu era o dono da Elite), mas escolherá as parcerias com as agências preferidas, nas diferentes capitais mundiais da moda.

Folha- Porque ao invés do Brasil o senhor não começou por Paris, Milão ou Londres?

John- Comecei no Brasil porque eu passo grande parte do meu tempo aqui, tenho uma família brasileira, conheço muita gente sobre a qual posso me apoiar e tive a oportunidade de criar parceria e virar sócio de duas agências que eu achava mais interessantes da nova geração do Brasil: a 40 Graus, do Sérgio Mattos, no Rio de Janeiro, e a Lumière, do Olivier Daube, em São Paulo. Conheço ambos há muitos anos, eles foram executivos meus na Elite no Brasil e internacionalmente. A base aqui é extremamente sólida para desenvolver meu projeto.

Folha- O senhor acha que entre as modelos brasileiras que já estão no mercado poderia sair alguma supermodelo? Quem seria?

John- Da nova geração, eu gosto muito da Caroline Trentini. Ela tem realmente o potencial para ser uma supermodelo. São as agências que vão saber e transformar a carreira dela para que dure 10 ou 15 anos. Estas são decisões que são difíceis de tomar e que pouca gente sabe fazer.

Folha- O senhor pretende estender as parcerias com agências de outros estados brasileiros?

John- Sim, eu não sou realmente a Star System, (uma agência e uma organização de caça-talentos) e, sim, de supervisão de como é a parte empresarial das carreiras. Trabalhar com muitas agências através do Brasil vai ser uma parte muito importante do trabalho e espero poder construir boas parcerias com agências que gostam da nossa colocação.

Folha- O senhor acredita que a fase é para o surgimento somente de tops loiras ou podem aparecer novas Naomis?

John Não somente pode aparecer, tem que aparecer. A fatia de mercado para as modelos de raça negra é normalmente pequena e vai ter que ter grandes belezas afro-brasileira. Independentemente das conciliações de raças, isso não deveria ser um problema no País que conta com enormes reservas de beleza de todas as etnias.

Folha- E o mercado da China, tão em expansão, pode trazer alguma supermodelo?

John- Sem dúvida, a beleza oriental (China, Coréia, Tailândia, Indonésia, Filipinas...) vai ter também que achar o seu caminho, nos critérios estéticos de sucesso no Mundo Fashion. Agora, dominam a noção da estética de cultura anglo-saxônica. Mas não tenho a menor dúvida de que será em curto prazo, já que o mercado comprador vai querer se reconhecer nas modelos da publicidade dos produtos. Por agora, o extremo oriente (Japão, Tailândia, Singa Pura), são excelentes mercados para os jovens e para as jovens modelos trabalhar e ganhar bem. A Star System pretende colaborar com muitas agências no Brasil.

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