A vida em vídeo
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de novembro de 2003
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Tem gente que viaja para o México e traz um sombrero enorme. Outros preferem trazer berimbau de Salvador, ou mesmo tamanco de madeira da Holanda. Tudo souvenir de viagens que pode se transformar em boas lembranças ou então entulhos esquecidos dentro de um armário. Já para o casal londrinense Suely e Odival Matos, a viagem ao Norte do Brasil rendeu mais do que álbuns de fotos e presentinhos para a família. Na bagagem de volta, eles trouxeram um novíssimo videocassete comprado diretamente na então badalada Zona Franca de Manaus. Isso foi em meados dos anos 1980, época em que os tais aparelhos ainda eram novidade.
Por pouco o videocassete da família Matos não virou um daqueles arrependimentos pós-viagem. Ao chegar em Londrina, o casal descobriu que havia pouquíssimas opções de filmes para locação, até porque existiam apenas duas únicas locadoras na cidade. Entre aposentar o aparelho e abrir novos horizontes, a dona de casa Suely e o bancário Odival preferiram a segunda alternativa e, em 1986, abriram a Delta Video Shop.
Por conta da escolha, nos últimos 17 anos, o casal viu a vida seguir com pitadas hollywoodianas. Agora, a mais nova superprodução da dupla é a recém-inaugurada megastore de 500 metros quadrados e 10 mil fitas VHS e DVDs. ''Acreditamos no mercado'', não se cansa de repetir Suely, que não por acaso, tem muitos outros planos para a cidade, sempre ao lado do marido e de dois dos três filhos. Da família de cinco, só um preferiu a advocacia ao negócio de videolocadora os outros dois irmãos ajudam os pais nas duas lojas da família.
''Chegamos a ter quatro lojas'', lembra Odival, que também viu a proliferação de concorrentes na cidade, principalmente nos bairros. Por isso mesmo decidiram concentrar um número maior de fitas e títulos em apenas duas lojas. ''Era um sonho antigo fazer uma loja grande num imóvel próprio'', contam. A compra do terreno foi acertada 15 meses atrás, mas o prédio teve que passar por reformas para abrigar, não só a locadora no térreo como o escritório no andar superior, que pode, em alguns meses, abrigar a sede do sistema de entregas de fitas em domicílio que o casal está preparando.
''Mas em primeiro lugar está o cliente que vem à loja'', garante Suely, que adora justamente os momentos em que coloca a conversa em dia sempre sobre cinema com a clientela. ''É ótimo conversar com professores, que sempre assistem aos filmes de uma forma toda especial'', avisa a empresária, que até já produziu uma lista com fitas que podem ser usadas no dia-a-dia das escolas. ''Mas eu preciso dar uma atualizada'', confessa.
Para quem é cinéfilo como Suely, ter fitas à vontade parece mesmo ser o paraíso. ''Eu vejo filmes praticamente todos os dias'', diz. ''Até para a praia ela leva um monte'', entrega o marido. Além disso, os dois estão sempre de olho nas publicações sobre cinema e direcionadas para proprietários de locadoras. E apesar de toda a cultura cinematográfica da família, o casal ainda conta com a assessoria de uma empresa especializada para saber em quais lançamentos investir mais, sem nunca esquecer o ''feeling'' próprio.
Se as novidades nas prateleiras são sempre o chamariz do negócio, Suely também se orgulha de ter preciosidades e raridades como a cópia de O Nascimento de Uma Nação, de 1913. Mesmo que o público queira saber do futurismo de Matrix ou da ação constante de Mais Velozes e Mais Furiosos, lançamentos da vez em DVD, claro. Hoje a tecnologia digital compõe 60% dos títulos da locadora, deixando apenas 40% para o VHS tradicional, que por sinal, não dá sinais de que vai desaparecer do mercado. ''Não acabou nos Estados Unidos, não deve acabar por aqui também'', apostam.
Em questão de porcentagem, Odival também faz as contas sobre o trabalho em família. ''80% positivo, 20% negativo'', avisa. ''É que a gente acaba discutindo alguns problemas durante o almoço em família. Não tem como desligar'', explica. Mas como nos filmes hollywoodianos, tudo acaba com final feliz.


