À sombra do Palmerah
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domingo, 03 de janeiro de 2016
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Enquanto caminha pelas ruas do Residencial Vista Bela (zona norte), onde mora há cerca de quatro anos, o músico e educador social Leandro Claudino da Silva aponta para a falta de árvores. "Construíram o bairro sem árvores", conta. Conhecido não só pelos vizinhos como Palmerah, o apelido nada tem a ver com a planta e sim com o time do coração. "Sou palmeirense desde pequeno", explica.
Aos 34 anos, Leandro Palmerah virou referência como líder comunitário aliando música à uma nova perspectiva para os jovens da região. Durante 2015, ele promoveu ações culturais como as oficinas de música e, mais recentemente, o Sarau da Consciência Negra, no final de novembro. Com um misto de verba do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) e ajuda da comunidade, os eventos renderam visibilidade positiva para o bairro.
Em tempos de redes sociais, os feitos de Palmerah ultrapassaram as fronteiras de Londrina e foram parar no Projac (estúdios da Rede Globo). Indicado pela Cufa (Central Única de Favelas), o londrinense participou de um encontro na cidade cenográfica da novela Paraisópolis. Trinta líderes de bairros de periferia de todo o Brasil foram convidados pela emissora para participar de um dia de debates e dinâmicas de grupo.
Sem saber ao certo no que vai resultar o material reunido, Palmerah garante que, para ele, o balanço é mais do que positivo. "Achei legal esse intercâmbio, essa junção, porque a gente acaba conhecendo a realidade como ela é", define. "Eu era um dos mais velhos e também um dos únicos do interior, tinha uma moça de Santos, mas os outros eram todos das capitais como Rio de Janeiro e São Paulo", lista. "Cada um teve cinco minutos para resumir o que faz", explica. Entre os novos contatos que fez, Palmerah cita Wallace Vidigal. "Ele já tem a favela no nome dele, ele tem orgulho de onde mora. É isso o que a gente quer fazer pro Vista Bela, dar esse orgulho para o bairro."
Uma das possibilidades é que o encontro carioca resulte em novos episódios para o Conexão Favela, um quadro do Fantástico, que no ano passado fez a troca de moradores do Vidigal, no Rio de Janeiro, e Paraisópolis, em São Paulo. "Pode ser também algo para o (programa) Esquenta, da Regina Casé, ou uma outra novela", enumera Palmerah. Previsões globais à parte, o londrinense tem seus próprios planos para o ano que está começando. Já tem um novo projeto aprovado pelo Promic. "A gente quer ir muito além", garante. Uma das novidades é agregar a contação de histórias às ações culturais, que devem ter ainda mais oficinas para crianças e jovens.
"Passei na primeira fase do vestibular e vou passar na segunda também", enfatiza Palmerah, que concluiu o ensino médio em 2014 e se prepara para cursar Ciências Sociais. "Com meus 20, 25 anos, achava que faculdade, principalmente universidade pública, era coisa de gente rica. Era o que minha mãe falava quando eu era criança e eu acreditava. Mas universidade é para todos", lembra.
"Quando eu vim pra cá (Vista Bela), já tinha em mente trabalhar dentro do bairro, inscrever algum projeto. Imaginei que teria muita gente trabalhando com projetos sociais aqui, mas na verdade não tem ninguém. Outra coisa que decepcionou também é que não tem nenhum equipamento público, não tem escola, apenas um posto de saúde que foi inaugurado há três meses. E a gente não tem ainda a perspectiva de ter uma escola aqui. Então eu resolvi fazer esse projeto, que é um projeto de música baseado na história do rap, que tem o apoio da Universidade Estadual de Londrina (UEL)", explica.
"A partir do momento que mudei para cá, aconteceu muita coisa, muita coisa boa. Tenho um programa na Rádio UEL FM. Consegui aprovar esse projeto no Promic, que me ajudou em parte, mas aconteceu com ajuda da comunidade, que me deu muito apoio. Conseguimos fazer quatro eventos na rua, fizemos música popular, hip hop, grafite e desfile das crianças. Aconteceram de dois em dois meses atingimos 300 a 400 pessoas. Fizemos oficinas de música com 20 alunos e o professor João de Carvalho. É um trabalho que me ajudou muito a crescer dentro do bairro."
Para Palmerah, a vontade de ter a oficina de música é antiga. "O sonho de trabalhar com oficina de hip hop a gente já tinha desde a Rede da Cidadania (início dos anos 2000), mas eu ainda não tinha uma experiência", diz. Foi quando passou a trabalhar na Rádio que ele começou a colocar o plano em prática. "Passei a ter envolvimento com a galera com formação acadêmica, estava sempre lá na UEL participando de palestras. Até fiz um curso de produção cultural, chamado Encantação. Estou fazendo ainda, ganhei uma bolsa, é um curso de extensão. Comecei a aprender com eles, me deram dicas e escrevi o projeto, com a ajuda da minha mulher. Escrevemos o projeto em parceria com a Rádio UEL, que me apoia, com o João de Carvalho. Ficou fácil, mas não foi fácil", diz.
"Faço isso não é só porque é meu sonho. Faço isso na verdade para melhorar as condições do nosso bairro. Há uma facilidade do jovem de se envolver com o tráfico, com o crime, tem o abandono da escola. A nossa preocupação é essa. Não é pelo dinheiro, até porque ninguém ganha dinheiro fazendo isso", afirma. "Tem muito talento aqui no bairro", avisa Palmerah. Na sua sombra, a vizinhança vai longe.


