A outra face
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de fevereiro de 2002
André Bernardo TV Press 
Desde que começou a gravar a novela O Clone, Dalton Vigh não sabe mais o que é pegar um cinema ou tomar uma cervejinha com os amigos. Nos últimos meses, este carioca de jeitão circunspecto se limita a ir de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Mas Dalton não fala da falta de tempo em tom de queixume ou aborrecimento. Muito pelo contrário. O ator define o muçulmano Said como o personagem mais importante de sua carreira, iniciada há sete anos, na novela Tocaia Grande, da extinta Manchete. Por mais que já tivesse trabalhado em outras emissoras, não tinha escapatória. Chega um momento que você tem de buscar uma projeção maior e essa projeção só quem dá é a Globo, valoriza.
Antes de interpretar o personagem, que tem a ingrata tarefa de separar Jade de Lucas, Dalton passou pelo SBT, Record e Cultura. Na Globo, fez uma rápida participação em Andando nas Nuvens. Depois disso, voltou a ser convidado para atuar em A Muralha, de Maria Adelaide Amaral, e Chiquinha Gonzaga, de Lauro César Muniz, mas não pôde aceitar os convites. Sempre que me convidavam, já estava comprometido com outros trabalhos. Mas foi bom ter começado numa emissora pequena. Sofri menos pressão do que se estivesse na Globo, acredita.
Hoje em dia, aos 37 anos, Dalton Vigh comemora a boa fase profissional. Mas admite que nem sempre foi assim. Antes de abraçar a verdadeira vocação, cursou Publicidade. Na ocasião, chegou a dar aulas de inglês num cursinho para pagar a faculdade. No último período, desconfiou que não estava no caminho certo. Para não se tornar um ator frustrado, resolveu se matricular num curso de teatro. Só por curiosidade. Desde então, não abandonou mais a profissão. É claro que a carreira de ator é angustiante. É chato quando você sai de um trabalho e não tem nada em vista. Mas cheguei à conclusão que não seria feliz fazendo outra coisa, derrama-se, com um sorriso de orelha a orelha.
O Said começou a novela como um típico bom-moço, capaz de atos heróicos. Hoje, ele já assume ares de vilão. O que você acha disso?
Acho ótimo. O mais interessante nesta profissão é justamente a possibilidade de interpretar um personagem com nuances de comportamento. E, no caso do Said, esta mudança no comportamento é perfeitamente explicável. O personagem possui um conflito interior muito grande. É apaixonado por uma mulher, mas sabe que ela ama outro. No lugar dele, eu tentaria esquecer a Jade e partir para outra. Mas, dramaturgicamente falando, é ótimo. Quero explorar outras características do personagem. Além de enriquecer minha composição. Os vilões costumam ser mais interessantes de fazer que os mocinhos.
O público está aceitando bem esta mudança no perfil do personagem?
Quase não tenho tido tempo para sair às ruas. Mas as pessoas que conheço falam muito bem do personagem. Algumas dizem: Você está muito bem como Said!. É bom saber que há pessoas torcendo pelo meu personagem. De certa forma, é como se elas estivessem torcendo por mim também. Outro dia, uma amiga minha de São Paulo telefonou dizendo: Puxa, Dalton, você está ficando mau, hein?. Mas essa maldade, como eu já disse, tem razão de ser. Ele sempre aceitou todo tipo de provocação da Jade porque acreditava que, um dia, ela o amaria. Mas, depois de tanto tempo, resolveu partir para a vingança.
O que o Said Rachid representa para a sua carreira?
Ele representa um salto muito grande. É, sem dúvida, o meu papel de maior projeção e um dos meus personagens mais densos. Além disso, é a chance que eu precisava para mostrar meu trabalho para um público que ainda não me conhecia. Quando o Jayme Monjardim me convidou para a novela, pensei: Ufa, até que enfim!. Há tempos, queria fazer alguma coisa na Globo. Não tem como você fazer carreira sem passar por lá. Por mais que eu já tivesse trabalhado em outras emissoras, chega um momento que não tem muita escapatória. Você tem de fazer Globo para obter uma projeção. Como se não bastasse o fato de ser uma novela das oito, estou trabalhando numa novela que está dando muito ibope. Sem dúvida, Said é um marco na minha carreira.


