A multiplicação das horas
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sábado, 14 de maio de 2005
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Emília Simeão Albino Sako tem uma agenda bem apertada. Além de juíza do trabalho, ela é, desde dezembro do ano passado, a nova representante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (Adesg) para a região de Londrina. Também é professora e dá aulas tanto para alunos de direito quanto de ciências políticas, tema de sua primeira pós-graduação. Se já não fosse o bastante para preencher boa parte dos dias e das noites, a juíza ainda está cursando doutorado em direito social na Espanha, na Cidade Real.
Uma vez por ano, durante 40 dias, Emília e outros 24 juízes brasileiros viajam até a Espanha para uma temporada intensa de estudos. Este ano, que é o segundo, a viagem está marcada para setembro. É um curso formatado especialmente para magistrados brasileiros, e a seleção foi bastante concorrida com base nos currículos, títulos e trabalhos publicados de cada um. Entre candidatos do Brasil inteiro, Emília ficou em quarto lugar na classificação final.
Mesmo com tantos afazeres profissionais, a juíza não se esquece da família. Os dois filhos mais velhos, Eduardo, 23 anos, e Fernanda, 18, seguem seus passos e são alunos de direito. O caçula Gustavo, 8, ainda tem muito chão pela frente até escolher seu caminho profissional. Por enquanto, segue a mãe em suas caminhadas matutinas. Os dois acordam todos os dias às 6 horas e, depois de tomar o café da manhã juntos, vão caminhar no Zerão por uma hora e meia. ''Mesmo no frio'', avisa Emília. ''É o nosso momento juntos'', explica a mãe carinhosa, mas também muito atarefada.
Dar atenção à família está entre as principais preocupações da juíza. ''Consigo administrar bem as coisas porque sempre procuro um equilíbrio em tudo o que faço'', ensina. E essa divisão bem calculada do tempo vem desde o início do casamento. Nascida em Chavantes, interior de São Paulo, Emília se formou em direito em Jacarezinho. Para frequentar a faculdade contou com todo o apoio do marido, com quem se casou aos 18 anos.
O primeiro filho nasceu durante o curso em Jacarezinho. Já o caçula veio na época em que Emília se divida entre Presidente Prudente (SP) e Dourados (MS), numa distância de cerca de 800 quilômetros. ''Viajava pra lá e pra cá com aquele barrigão'', lembra a juíza, que desde 1997 mora em Londrina. ''É possível que tenha que me mudar no ano que vem'', explica sem enxergar problemas em nova mudança. Pelo contrário. ''Não sou apegada a coisas materiais. Acredito que tem sempre algo melhor do outro lado e que cada experiência nos acrescenta coisas novas'', ensina.
Ela não se lembra ao certo quando foi que começou a se interessar pelo direito do trabalho, talvez um professor da faculdade tenha despertado o assunto. Em todo caso, a juíza sabe muito bem porque ainda está trabalhando com isso. ''Sempre gostei muito das questões sociais, de sentir o que o outro sente, de me envolver e tentar melhorar a condição humana. É possível fazer justiça social'', avisa.
Generosa, Emília divide suas pesquisas com os colegas. Foi assim com o primeiro livro, lançado em 2003, um manual de jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho (TST), no qual ela faz comentários sobre alguns casos polêmicos em que não existiam leis específicas. O segundo livro, ''que não tem data para ser lançado por questões de tempo'', trata da situação da Justiça do Trabalho após a emenda constitucional número 45, de dezembro de 2004, que ampliou a abrangência das questões trabalhistas.
''O ser humano é um eterno insatisfeito, mas sinto que estou num estágio bom, mesmo com intensa atividade'', diz Emília, bem tranquila. ''Quando fiz a faculdade, pensei em fazer a pós-graduação, depois veio o mestrado, o doutorado'', explica. ''Bom, pode ser, quem sabe, eu queira fazer um pós-doutorado'', sorri.
A juíza costuma ministrar palestras, muitas delas gratuitamente. ''É o meu jeito de retribuir à sociedade'', explica Emília, que estudou em escolas públicas e não pagou pelo mestrado. ''Até sobre educação dos filhos costumo falar nessas palestras'', conta. E quando se trata desse assunto, ela avisa que não é estudiosa, mas tem experiência. ''Sempre me perguntam como eu consegui criar e encaminhar bem meus filhos, qual é o segredo. Respondo que é preciso impor limites e investir numa educação forte quando eles ainda são pequenos, entre quatro e seis anos. Eles têm que aprender a ter respeito aos pais, aos mais velhos, a Deus. Independentemente da religião, eles precisam saber que as coisas têm que ser certas'', explica.


