Conciliar culturas tão díspares, como a ocidental e a oriental, não é tarefa fácil. A coreana Son Hee Han soube disso logo que chegou ao Brasil, aos cinco anos idade. Acompanhada dos pais e dos seis irmãos, ela cresceu em um ambiente corporativo e dedicou-se quase integralmente aos negócios e à vida acadêmica antes de ver sua história pessoal mudar radicalmente. Entre a infância e a adolescência, morou no Rio de Janeiro, São Paulo e Manaus, sempre acompanhada da família. Aos 18 anos seguiu sozinha para Califórnia a fim de estudar Economia e Ciência Política, e depois para França, dando continuidade aos estudos na Sorbonne, meca dos intelectuais progressistas.
Foi quando Son Hee - pronuncia-se ''suní'' - começou a acumular experiência profissional. Focada no sucesso empresarial, a coreana de espírito brasileiro e formação acadêmica americana dividia-se entre a carreira, trabalhando com os pais nas empresas voltadas para exportação e posteriormente para construção civil, e a constante busca pessoal.
Naquela época, entretanto, o sucesso tinha uma definição bem diferente do que a executiva acredita hoje: ''Eu achava que o sucesso estava ligado ao êxito profissional. Agora acredito que sucesso é ser feliz, independentemente das nossas escolhas'', diz a empresária e monja budista. Mas vamos com calma, até reunir essas duas características, Son Hee trilhou um longo caminho. Entre países e para dentro de si mesma.
Já na França, entre a vida acadêmica e a profissional deparou-se com o conflito quase inerente às mulheres. De um lado, a pressão para casar e ter filhos, de outro o desejo de investir na carreira. Enquanto pensava na melhor decisão, tentou conciliar as duas questões. Casou-se com um franco-brasileiro, retornou para o Brasil e teve um filho. Mas nem por isso os conflitos cessaram.
Mergulhada em obrigações profissionais, recém-separada e morando no Rio de Janeiro, ela levou um susto ao deparar-se com uma situação bastante comum na vida ocidental: o estresse. O susto foi maior ainda, porém, quando se descobriu vítima de uma grave doença. ''Eu me sentia impotente, mas o susto me fez despertar. Eu não queria morrer'', conta.
Depois de submeter-se a sessões de quimioterapia e a tratamentos bastante invasivos, Son Hee passou a ver a morte de outra maneira. ''Eu comecei a entender que a vida é um eterno nascer e morrer. Eu fui juntando meus pedaços para recomeçar. Aprendi a me reinventar'', ensina. Ao contrário do que acontece com muitas pessoas que passam experiência semelhante, Son Hee fez da doença uma ponte para o crescimento.
Foi quando ela começou a buscar tratamentos alternativos, como acupuntura, e voltar-se para práticas orientais de relaxamento. Nessa época fez uma promessa: ajudaria as pessoas a fazer esse caminho e a olhar para dentro de si mesmas. Ordenou-se monja budista em 2000, mesma época em que cumpriu a promessa ao abrir uma clínica para tratamento contra estresse e outros malefícios da vida urbana atribulada. Era o embrião da Rede de Spa Shishindo, que hoje está presente nos hotéis mais importantes do Brasil.
Em Curitiba, há unidades do Spa no Rayon Deville e no Pestana. Em Angra dos Reis, o Eco Resort e o Sol Meliá abrigam o Spa, além de hotéis da Rede Deville em Cuiabá e Porto Alegre. Ainda este ano, o Shishindo também deve ser inaugurado em hotéis do Nordeste. ''É uma forma de as pessoas que estão em trânsito tomarem conhecimento de técnicas de bem-estar e relaxamento. Certamente elas vão querer repetir a experiência nas suas cidades de origem'', acredita a empresária fundadora da rede, que escolheu Curitiba para morar.
De mudança do Cabral para o Água Verde, ela encontrou na cidade um oásis dentro da selva de pedra. E em uma das unidades, no Hotel Rayon Deville, cercada por amuletos, uma piscina aquecida e salas de massagem e outras práticas de relaxamento, ela passa a maior parte do tempo. ''É um privilégio poder trabalhar num lugar assim, não é?'', brinca. Sempre bem-humorada, a empresária não pratica mais o monjado, mas comanda com espírito zen uma equipe de dezenas de funcionários da rede, cuidando pessoalmente de detalhes de todas as instalações dos Spas em operação.
Com a experiência acumulada e com o jeito leve de levar a vida, a coreana conseguiu o que era quase impossível: conciliar os negócios com as práticas zen e descobrir dentro de si o segredo que leva no significado do seu nome. Sun Hee significa ''tesouro'' em coreano e ela levou décadas para encontrar o que sempre esteve ao seu lado. O tesouro somos nós.

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