Foram nove dias de desfiles prêt-à-porter, com quase cem eventos dentro da programação oficial, além do sempre inovador circuito off. Não é à toa que Paris, apesar de ser a última etapa do circuito fashion oficial do prêt-à-porter, é a mais agitada.
E este ano, com o flop de Nova York, o esvaziamento de Londres – sem o cipriota Hussein Chalayan, que, comenta-se, vai desfilar em território francês – e Milão caminhando para a pasteurização, temendo a crise, sobrou mesmo para Paris. Além disso, desde a última estação sente-se um clima de revalorização da cidade como a capital da moda no mundo.
E, nas passarelas, atrativos mais que suficientes. Alexander McQueen fez sua última coleção para a Givenchy (o inglês Julien McDonald assume a criação da marca na próxima coleção), enquanto Tom Ford fez sua segunda apresentação para Yves Saint Laurent, novamente no museu Rodin. Foi um dos desfiles mais elogiados pela mídia de moda.
Na Chloé, Stella McCartney desfilou no novo espaço Ephémere Trocadero, uma tenda armada aos pés da torre Eiffel para a temporada francesa, onde também desfilaram Thierry Mugler e a dupla holandesa hype Viktor & Rolf.
No território hype, crescem os nomes de Bernard Wilhem, que é um refresco para a temporada, e Alexandre Matthieu, que passou a existir depois que Björk usou aquele polêmico vestido com que apareceu no Festival de Cannes. Os brasileiros também marcaram presença: Icarius e Alexandre Herchcovitch, que recebeu elogios de Suzy Menkes, conceituada editora do ‘‘The International Herald Tribune’’.
Em uma coleção que fez a mídia de moda cair de quatro, Tom Ford introduziu aos poucos o uso da cor na paleta de Yves Saint Laurent. O estilista já disse que, como o mestre era um exímio colorista, qualquer tentativa deve ser feita com cuidado. Ford demonstrou isso abrindo seu desfile com sensuais vestidos-camisola de decote V em jérsei brilhante rosa ou ameixa, franzido, de perfume vitoriano.
Tops e bermudas em preto vieram em seguida, usados com sandálias de tiras que deverão ser coqueluche. Com amarrações no pescoço tipo sequência da outra estação, blusas pretas giletadas ganharam cintos largos em couro, e saias de franja emprestaram atmosfera cigana (remetendo às famosas ciganas de YSL) até as botas altas, vitorianas, entrarem com saias longas em A e casacos fechados, de cintura, nada sexy, que aparecem em versão em couro.
A Chloé de Stella McCartney fez desfile cheio de peles falsas, e a tentativa de atualizar o romantismo de época para os dias de hoje não agradou muito à mídia de moda.
Ungaro brincou de elegância parisiense e o jogo masculino/feminino. Foi bem até a metade, misturando terninhos com bermudas de cetim vermelho, com looks em tweed de pernas amplas e os vestidos de jérsei preto ou também vermelho. Estampas de cerejeira em vestidos fluidos introduziram mais cores, o verde e o rosa, ao som de Je T’Aime. De repente, a leitura embaralhou e ficou tacky o inverno da marca.
Jean Paul Gaultier fez desfile numa passarela de plumas na maior sala do Carrousel do Louvre, com look de topete inspirado no cantor Prince – a trilha sonora também. Uma coleção desdobrável, com terninhos que se transformavam em saias e tops, mangas soltas e approach masculino/feminino, ornamentado por casacões de peles. O anarquista da moda, Jeremy Scott, em clima de game show circense fez mais uma de suas extravagâncias fashion num desfile nada comercial e mostrou sua última roupa perto da meia-noite.
‘‘Ooops, he did it again’’. Parafraseando a trilha usada pelo próprio estilista em seu desfile no ano passado, ele fez de novo. John Galliano fez mais uma brilhante coleção para a maison Christian Dior. O desfile aconteceu no Théatre National de Chaillot, em frente à torre Eiffel.
Apoiado por números que dão conta de um crescimento de cerca de 35% no prêt-à-porter (US$ 277,4 milhões) e de cerca de 61% na alta-costura (US$ 13 bilhões), em 2000, Galliano mandou ver e se soltou nessa sua nova maneira pós-moderna, digamos, de tratar a moda.
Trata-se de um grande liquidificador de tendências e estilos, que encontra seus momentos de maior brilhantismo quando consegue misturar vários elementos num mesmo look. Parece que é quando Galliano gosta mais.
Desta vez ele segue algo também caro a sua personalidade inglesa: abordar o sempre polêmico território da cultura de rua, das manifestações dos subgrupos e guetos. Overpants grafitadas em plástico, em material tipo holográfico, fluo. É uma explosão de cores – otimista e bem-humorada. Casacos enormes, gorros de lã new age, macacões... Há tanta cor e clubbing que mais parece Wild & Lethal Trash, a extinta marca favorita da moda para dançar. A atitude livre vem da cultura rave, que se mostra nos detalhes como as calças esportivas; os vestidos de chiffon e tops de seda. E na famosa estampa do Smiley com o C e o D da grife no lugar dos olhos.
O inverno da Dior entra para a história, aula para gerações futuras e roupa para se querer já.

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