A longevidade é colorida
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sábado, 08 de dezembro de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 

Aos 68 anos de idade, mantém a firmeza da juventude espiritual. Colorida. Ri quando espera-se choro. Cultiva plantas na sacada do apartamento em que vive com Napoleão, o cachorro. Valoriza a vida. Coloca energia em tudo o que faz. Colou pedras coloridas na mesa, pintou as cadeiras, costurou tecidos para o sofá, fez a mesa de centro da sala e produz apenas um vestido de festa por mês, seu ofício, porque precisa viver mais. Essa é Rute Reghini, vencedora do Prêmios Longevidade 2018, patrocinado pela Bradesco Seguros. Com a crônica "Cheiro de Saudade", ganhou na categoria Histórias de Vida, no final de novembro, ao contar as experiências de férias dos netos. Troféu e certificado são apresentados com orgulho na sala de jantar em Londrina.
"Você batalha, mas pode ser feliz, independente do que passou", ensina com energia. Quem pensava que a aposentada fosse ficar triste após a morte do marido, em 2015, não errou, mas contornar a situação com otimismo vem de família. "Nós fomos muito pobres, passamos por muitas coisas, mas sempre fomos muito felizes. Nunca abaixamos a cabeça. Sempre rindo, sempre brincando", afirma. Foi assim com a viuvez, criou rodas e asas e partiu em viagem. Conheceu Sul e Nordeste do Brasil, foi à Europa e após conhecer tanto conclui: "No fundo, é todo mundo igual", ri.
Aprecia a liberdade de poder passar o dia de pijamas deitada no sofá, sem hora para lavar a louça. A gargalhada vem fácil até em situações em que outros chorariam ao contar o drama da própria vida. De família pobre, vê o copo sempre meio cheio. "Acho interessante ver a evolução da minha mãe. Eu e minha irmã dormíamos em tarimba, não é como é hoje, mas a minha mãe dormia no mesmo saco que ela usava para colher café. Minha avó veio de Angola, ela era escrava", compara. Da tarimba para o colchão de palha, do colchão de espuma e cheio de pulgas para a cama box de hoje e aos quartos individuais dos netos. Assim, se considera uma ponte progressiva da qualidade de vida entre as gerações, herança que deixa aos descendentes e que pede continuidade.
Tudo não sem esforço, mas nada abala a mulher que aprendeu a ser forte com a mãe. "Minha mãe tinha uma autoestima incrível, isso ela passou para nós. Ela fez questão que as filhas mulheres estudassem para que não dependessem dos maridos. Olha a cabeça da minha mãe naquela época!", admira-se. Foi com essa autoestima que a mãe deu um jeito de matricular as filhas na escola pública de Colorado (Centro-Norte), para onde a família foi após passar por outras cidades.
LIVROS
A filha de empregada doméstica com pedreiro - o maior construtor que ela já viu - conseguia material escolar e uniforme doados. "Na escola era separado, filha de empregada doméstica, eles não eram meus amigos, mas era assim mesmo. Era uma cultura, não podia ir à festa de ninguém. Era lé com lé, cré com cré, era regra. Então eu fui uma grande observadora", comenta. Devoradora de livros, leu tudo que podia na biblioteca, teve acesso a clássicos e dava uma contornada na doutrina religiosa da mãe, que não permitia leitura de fotonovelas, revistas e gibis. A educação foi pública e de qualidade. Arrisca até hoje algumas palavras em francês, aprendeu inglês e sabe se comunicar como ninguém.
Por conta disso, após trabalhar como babá e empregada doméstica desde a infância, conseguiu um trabalho como enfermeira na Santa Casa de Misericórdia de Maringá (Centro-Norte), cidade onde está hoje a maior parte da família. "Meu salário melhorou muito, comprei fogão para minha mãe, comprei um jogo de copa de fórmica...", recorda. Essa paixão pelo cuidado da casa ainda está presente. Na parede, pratos de porcelanas pintados, toalhas de crochê e caçarolas coloridas enfeitam uma estante de madeira na sala de jantar. Tudo com uma carinha de vó e que combina com a personalidade colorida de Reghini.
ENERGIA
Autenticidade e energia que lhe custaram uma reputação. Após um romance, tornou-se mãe solteira e sua fama não era das melhores. "Imagina uma mãe solteira em 1972, naquela época você era prostituta. Enfermeira já não tinha boa fama, já era tachada de vagabunda. Não podia entrar em casa de família. Eu evitei também, queria que meu filho fosse respeitado", diz, avaliando o próprio pensamento como ultrapassado e que hoje não faria isso. Mas foi breve. O encontro com quem viveu o resto da vida foi no ano seguinte. Com ele teve mais dois filhos e ganhou seis netos. Os que ela menciona na crônica "Cheiro de Saudade", enviada para concorrer ao prêmio.
Está em Londrina desde 1982, quando o marido, aprovado no concurso para a Polícia Militar, foi direcionado para a cidade. É nesse ambiente que criou os filhos, costurando vestidos de noivas, de festas e até fantasias para escola de samba. "Sou meio bruxa e meio fada. Bruxa tem instintos e eu adquiri isso durante a minha vida. Fada, porque eu amo realizar sonhos. E o que é costurar vestido de noiva? Eu trabalho com sonho das pessoas", afirma.
A memória é muito boa, lembra do PF que teve que dividir com o marido e irmão em São Paulo após o desemprego. De ter que voltar a trabalhar a menos de um mês após a segunda gestação. De dividir casa com a mãe e viver separada do marido por falta de condições. De não poder dar tudo que podia aos filhos, por isso, quando chegaram os netos, fez questão de fazer diferente. "Eles vinham nas férias de julho e em dezembro, passavam uma semana, no mínimo. Minha casa virou meio mágica, ali era nosso mundo. Tínhamos festas temáticas, escolhíamos um país e passávamos o dia vestidos de acordo com aquela cultura, ouvíamos músicas, fazíamos a comida daquele povo, era muito divertido." Na programação, passeio a shoppings e restaurantes da cidade.
SAUDADE
Foram 15 anos assim, em todas as férias. O motivo da crônica e do prêmio. A saudade das crianças continua. Hoje já crescidas também sentem a falta do tempo na casa da avó. Ela, de cabelos esvoaçantes, roupa alegre, unhas azuis, faz da memória um acervo para lidar melhor com o futuro. Sempre com imaginação, alegria e animação. É assim que chegou aos 68, idade que não a coloca para baixo. "Eu lembro que quando a minha mãe fez 60 anos a gente achava que ela já ia morrer, hoje não. Meu pai está com 92 anos, e eu ainda tomo cervejinha com ele", brinca.
Ativa, conectada, usa aplicativos no smartphone, tem Facebook, escreve seus textos no computador que fica ao pé da cama. Lá ela mostrou o texto premiado. Naquele quarto ao lado do cômodo adaptado para o ateliê, onde ela limita a produção de vestidos para aproveitar a vida. "O fato de você estar bem, conectado com a vida, se preocupando com as pessoas, isso vale a pena. Eu valorizo a vida. Eu não guardo dinheiro, eu vou gastar. O que eu tinha que fazer eu já fiz. No dia da premiação, eu ganhei um valor, reunimos na churrascaria e paguei para todo mundo", menciona.
Nessa sede de viver com vigor sem se esquecer do passado, Reghini faz da maturidade um ensinamento. "A gente passou por isso tudo, mas não houve época que eu fui infeliz", avalia. Sobre o futuro, confessa que ele não existe. O futuro é hoje. "Se amanhã ou depois eu morrer, amém! Todo mundo vai morrer, mas, então, que hoje seja o melhor dia da minha vida!", gesticula com vitalidade. Com essa alegria, sentada com o vestido vermelho na cadeira que ela mesma pintou, em torno dos objetos que ela costura, martela, constrói, vive a intensidade da longevidade colorida que criou.


