A londrinense que agitou Paris
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sábado, 07 de março de 2015
Bruna Quintanilha<br> Reportagem Local 
A mente inquieta e determinada da londrinense Rosane Mazzer, de 48 anos, já lhe rendeu experiências extraordinárias. É ela a idealizadora do Favela Chic, um dos pontos mais badalados de Paris que virou referência pela boa comida, boa música e atmosfera descolada. Filha de família pioneira, Rosane deixou Londrina aos 17 anos para estudar Propaganda e Marketing em São Paulo. "Quando eu tinha 14 anos Londrina começou a ficar pequena para mim. Na adolescência eu queria ver o mundo."
Após seis anos na capital paulista, Rosane resolveu se aventurar ainda mais e embarcar para a França. "Sempre fui fascinada por culturas estrangeiras. Aos 23 anos, arrumei um namorado francês e a minha geração, que estava na idade de construir seu futuro, estava completamente decepcionada com o Collor, que tinha acabado de ser eleito. Eu tinha muita admiração por quem ia morar fora e queria ser essa pessoa, então fui para Paris." Logo após chegar na Europa, Rosane passou algumas semanas na Itália onde foi buscar alguns documentos necessários para sua cidadania italiana. De volta à Paris, foram cinco anos de muito trabalho até criar o Favela Chic, em 1995. "Com meu passaporte italiano fui construindo minha história lá. Entre o dia em que eu cheguei e a abertura do Favela Chic passaram-se cinco anos. Cinco anos em que aprendi a língua e trabalhei em lojas, agências, na Disney... fiz vários bicos", relembra.
Paralelamente a isso, Rosane passou a fazer vários eventos na cidade até que surgiu a oportunidade de ter seu próprio negócio. "Sempre fui muito festeira. Descobri que minhas brincadeiras quando era pequena era fazer eventos. Adoro essa mágica do efêmero. Transformar o cotidiano e fazer as pessoas serem alguma outra coisa durante algumas horas. O Favela Chic surgiu disso e também do fato de eu não me sentir representada como brasileira no estrangeiro."
Com uma linguagem totalmente diferenciada, o Favela logo virou sucesso. "Sempre digo que aquilo não era nem um bar, nem restaurante, nem um clube. Era um circo. Nunca foi um gueto de brasileiro, mas um lugar em que tudo se misturava. O Favela realmente foi um marco, uma linguagem de traduzir o Brasil para o mundo afora e torná-lo acessível de uma maneira bacana", traduz. Dentre os sócios no negócio estava o produtor musical e marido de Rosane na época, Jérôme Pigeon, com quem a londrinense teve duas filhas gêmeas. "Tínhamos pessoas altamente competentes. Nossa chef, a Dinha, trabalhava na casa de um dos embaixadores do Brasil. Na música tínhamos o Jérôme, um produtor de alto nível, que tem uma cultura musical incrível e que misturava música brasileira com o resto. Além do Jorge, que é um brasileiro do sul, que trouxe a estética visual do Favela Chic, a alma do lugar", conta.
Nessa época, entre viagens e produções de festas, Rosane e Jérôme conheceram vários talentos ainda desconhecidos da música, como Seu Jorge, que mais tarde firmaria uma parceria pessoal e profissional com a dupla. "Encontramos o Seu Jorge em Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Na época, ele estava começando seus primeiros discos. Levamos ele para Paris em 1999 pela primeira vez. Estávamos fazendo uma festa enorme para 2 mil pessoas e ele enfrentou o público francês sozinho no palco. Decidimos fazer um disco com ele que teve um longo processo. Nesse tempo a gente acabou ficando amigo e ele morou por três meses na nossa casa."
Anos mais tarde, após várias mudanças no Favela Chic, Rosane resolveu buscar novas experiências. "Um projeto que dura tantos anos, sofre transformações das próprias pessoas que o dirigem. Chegou uma época em que eu decidi vender e partir para novas aventuras." De Paris, Rosane partiu com as filhas para Londres, onde abriu outro restaurante: o Oui Madame. Porém, desde 2010, é um outro tipo de negócio que tem atraído a londrinense. "Comecei a rever meu olhar sobre o empresariado. Passei a entender que o mundo estava mudando e que seria superlegal se o próximo projeto em que eu me envolvesse fosse realmente um projeto de desenvolvimento urbano."
A inspiração veio de um ex-jogador brasileiro de futebol. "A primeira pessoa que me colocou na cabeça um grão em relação a isso foi o Raí com a Fundação Gol de Letra. A gente se conheceu através de amigos e ele me solicitou para dar uma força no projeto em Paris. Achei muito bacana e pensei: também quero", lembra. Convidada para ser madrinha de uma comunidade no Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro, Rosane resolveu convidar o ex-marido - e eterno parceiro de negócios - para organizar um projeto social e um festival de música no local. Assim, nasceu em 2012 o Geração Encantado, projeto que busca o desenvolvimento social, econômico e ambiental das favelas do Alto da Boa Vista e que, a cada ano, recebe o Festival Encantado. O evento conta com grandes nomes da música e reúne a comunidade com personalidades e pessoas de diferentes partes do mundo e do Rio de Janeiro.
Entusiasmada e confiante com os rumos do Geração e do Festival Encantado, Rosane acaba de vender seu restaurante em Londres e se prepara para voltar ao Brasil. "Descobri que não queria mais ficar 100% na Europa. Acho que essa é uma boa oportunidade. Minha intenção é cuidar do festival, atingir o máximo de visibilidade possível, trazer parceiros e ONGs e fazer disso um case de sucesso para poder replicar a iniciativa em outros lugares", vislumbra.


