A inclusão como desafio
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domingo, 02 de dezembro de 2012
Adriana De Cunto <br> Reportagem Local 
Curitiba - O londrinense Fernando Henrique Frederico Botelho, 42 anos, quer ajudar a mudar a sorte de milhares de brasileiros que, como ele, sofrem de cegueira. O paranaense foi vencedor, este ano, do Prêmio Empreendedor Social de Futuro, concurso realizado pela Folha de S. Paulo e Fundação Schwab. É o reconhecimento por um importante projeto criado por Fernando, o software F123, que torna mais simples e muito mais barata a inclusão digital, social, educacional e profissional de pessoas que não conseguem enxergar. É um dos prêmios mais concorridos do mundo na área de empreendedorismo socioambiental. Os candidatos passam por várias etapas, incluindo análise do produto, visitas e entrevistas a familiares, amigos e financiadores. ''Foi mais fácil ganhar o green card nos Estados Unidos do que ganhar esse prêmio'', resume, com bom humor, o criador do F123.
Setecentas pessoas já utilizam o programa, mas para o ano que vem Fernando pretende colocar a novidade nas mãos de cinco mil cegos ou portadores de baixa visão que vivem em países de língua portuguesa, inglesa e espanhola. O F123 tem preço muito abaixo do valor do software para deficiente visual mais vendido nas lojas brasileiras. A versão mais barata do programa criado pelo londrinese custa R$ 250. Enquanto que apenas um leitor de tela (uma das várias ferramentas ofertadas pelo F123) é vendido no mercado com preço entre R$ 1.600 e R$ 4.500.
''É uma solução completa. O programa já vem com tudo adaptado para ser o mais eficiente possível para pessoas com deficiência visual'', conta Fernando. O F123 é um software que permite que cegos e pessoas de baixa visão naveguem na internet, trabalhem com documentos e planilhas eletrônicas, recebam e mandem e-mails e mensagens instantâneas. O programa oferece leitor de tela com alta qualidade de voz, ampliador de tela; aplicativos compatíveis com os formatos de arquivos mais usados (DOC, DOCX, ODS, ODT, PDF, RTF, TXT, XLSX, entre outros); aplicativos compatíveis com os protocolos de comunicação mais usados, como Facebook, Google-Talk, Jabber, MSN, SIP, Skype e Yahoo Messenger; ambiente digital desenhado para maximizar a produtividade de pessoas com deficiência visual; apoio técnico e qualidade tecnológica.
Segundo o seu criador, o F123 já está sendo usado em 20 países. O projeto rendeu a Fernando Botelho o título de Fellow (membro) da Ashoka e certificação como empreendedor social pela Artemísia. Essas duas organizações reconhecem e incentivam o empreendedorismo social. O F123 também recebeu os prêmios ''A World Of Solutions'', do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), e Empreendedor Social Mais Saúde, da fundação alemã Boehringer Ingelheim.
Fazendo diferença
Fernando começou a apresentar problemas de visão na infância, por conta de uma doença degenerativa chamada Retinose Pigmentar. Aos 16 anos ele ficou com baixa visão. Nessa época, o rapaz cursava os dois últimos anos do ensino médio no Colégio Marista, de Londrina. Fernando chegou a prestar vestibular para Economia na Universidade Estadual de Londrina (UEL), foi aprovado e frequentou três dias de aula, antes de mudar com a família para os Estados Unidos.
O paranaense ficou cego aos 19 anos. A doença não o impediu de levar uma vida muito dinâmica nos Estados Unidos, onde acabou cursando Sociologia na Universidade Cornell e fez mestrado em Relações Internacionais na Universidade de Georgetown.
A trajetória acadêmica e profissional de Fernando demonstra que ele é uma pessoa diferenciada. As dificuldades naturais que se apresentam aos deficientes visuais foram superadas com muita determinação e criatividade. Dominando o inglês, o espanhol e a informática, o sociólogo começou a vida profissional nos Estados Unidos. Primeiro, trabalhou na área de TI de uma Clínica de Fisioterapia. Depois, em Nova York, ajudou uma Organização Não Governamental (ONG) a criar a primeira comunidade on-line dedicada ao avanço profissional de pessoas com deficiência visual. Em Genebra, na Suíça, foi consultor da Agência das Nações Unidas Unctad. Ainda na Suíça, em Zurique, trabalhou no Banco UBS.
Mudar de cidade e de país foi uma constante na vida de Fernando. O pai, José Machado Botelho, então funcionário do Banco do Brasil, era transferido com frequência e levava a família para os lugares onde o trabalho mandava. No exterior, os Botelho moraram na Argentina, Chile, Espanha, Estados Unidos, França e ilhas Cayman. Hoje, aposentado, o pai de Fernando e a mãe, Luísa, residem em Londrina.
Volta ao lar
Em uma das muitas idas e vindas para o Brasil, Fernando conheceu a dentista Flávia de Paula, com quem casou. Os dois moraram nos Estados Unidos e depois na Suíça. Em 2007, o desejo de ajudar outros cegos a mudar de vida fez o casal voltar para o Brasil, estabelecer-se em Curitiba e fundar a empresa social F123, que deu nome à ferramenta que torna a tecnologia da informação acessível para muita gente que não pode enxergar e não tem recursos financeiros para arcar com os custos elevados das tecnologias que estão hoje no mercado. Fernando reconhece que, com a ajuda da família, teve oportunidades e acesso à ferramentas que a maioria dos deficientes visuais brasileiros não tem.
Segundo ele, enquanto empresa social, a F123 tem como missão melhorar a situação de emprego e educação de pessoas com deficiência visual. Duas fundações internacionais, a americana Ashoka e a alemã Boehringer Ingelheim, apoiam a F123 e realizam auditorias para garantir que o lucro seja revertido no desenvolvimento de projetos que melhorem a vida dos portadores de cegueira e baixa visão.
Fernando e Flávia trabalharam juntos no desenvolvimento do F123 e dividem um escritório no próprio apartamento do casal, no centro de Curitiba. Mas Fernando comenta que os prêmios conquistados, principalmente o Empreededor Social de Futuro, deram um bom empurrão nos negócios e o casal está procurando um novo espaço para instalar a empresa. O quadro de funcionários também deve crescer. Hoje, eles têm dois desenvolvedores de TI trabalhando parcialmente e a partir do ano que vem terá um desenvolvedor em horário integral. O espaço será dividido ainda por sete voluntários. Com um misto de modéstia e entusiasmo, ele dá a receita para quem deseja trabalhar, provocando mudanças sociais importantes: ''De pouco em pouco a gente faz um monte de coisas''.
Serviço:
Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail [email protected] ou no site www.f123.org. Com o apoio de parceiros, a empresa consegue doar o software para pessoas carentes inscritas no endereço eletrônico www.f123.org/cadastro.


