Curitiba - Vera Maria Pimpão Ferreira do Amaral, hoje Vera Lupion, nasceu para ser uma grande dama. Criada em uma família tradicional curitibana, ela nunca chegou a ter as dificuldades que a maioria das brasileiras tem. Nem por isso sua glamourosa vida deixou de ter grandes percalços e desafios que a levaram a tornar-se um exemplo de uma mulher fina, bem-educada, grande anfitriã, mãe e esposa dedicada. Mas a história de Vera vai mais além do que simplesmente um relato de alguém que cedo se casou e continuou vivendo em berço de ouro. Sua trajetória é, sim, um exemplo de resignação.
Quando ainda era criança, ela paquerava o Castelo do Batel, imóvel da família do homem que tornou seu marido e onde ela viveria importantes capítulos de sua vida. ''Quando eu era menina passava por aqui e ficava namorando o castelo. O tempo foi passando, fiquei moça sempre admirando a propriedade até que me casei com o dono, quer dizer, com o novo dono, porque quem o construiu foi Luis Guimarães''.
Para se entender as nuances do perfil dessa mulher há que se explicar. O Castelo do Batel é uma das mais lindas construções de Curitiba. Foi erguido em 1924 por Luis Guimarães. Ele tinha muita vontade de morar na França, no Vale do Loire, mas sua esposa não queria sair do Brasil. Foi então que ele trouxe de lá grande parte dos materiais de construção e reproduziu em plena Avenida Batel uma réplica dos castelos franceses. Ponto. Este é um adendo para continuarmos a história de Vera.
Ela sabe as datas exatas em que seu caminho foi de encontro com o futuro marido. ''No dia 19 de janeiro de 1963, fui ao Santa Mônica Clube de Campo. Entrando lá, meu marido estava dançando com sua irmã, Joana D'arc. E o Jofre Cabral, que era o presidente do clube na época, era muito brincalhão e disse: José Ubirajara Lupion vai dançar com sua irmã. Neste momento entrei com minha mãe e mais umas amigas e ele me viu e disse para Joana que ia se casar comigo. Depois quando ele contou me ofendi, ele deveria ter dito que iria se casar com aquela moça e não mulher''.
José Lupion era um homem do mundo, filho do governador Moisés Lupion e acostumado com rodas mais modernas que as curitibanas (ele morava no Rio), por isso o desembaraço. Desta noite nasceu o início de uma conquista. Esperto José foi até a mesa de Vera dançou com todas as moças que lá estavam. Menos com ela. Estratégia masculina típica que leva ao famoso ditado ''quem desdenha quer comprar''.
Aí nascia uma paixão avassaladora que daria início a 38 anos de convivência feliz. No dia 12 de fevereiro do mesmo ano os dois ficaram noivos, e em 30 de maio do mesmo ano se casaram (iriam casar em março, mas uma das irmãs do noivo faleceu). A explicação para tanta rapidez certamente não cabe na razão, mas Vera garante que foi incrível. ''Fomos sempre apaixonados, uma paixão que só acabou no dia em que ele morreu. Ele fazia coisas mirabolantes. Era bem-humorado, tinha uma voz maravilhosa''.
Depois do casamento começou o aprendizado. Os dois foram morar numa fazenda de 39 mil alqueires. Vera até então ainda não sabia o lado administrativo de uma casa, mas rapidamente aprendeu e hoje é uma das mulheres mais elegantes, quando o assunto é receber bem. Um início recheado de amor e de alegrias que começou a modificar profundamente a vida e o destino de uma mulher que até então não tinha sido criada para ser dona de casa. Juntos Vera e José tiveram quatro filhos: Móisés, Marcelo, Maurício e Maria Amélia.
A menina, no entanto já não está no plano material. ''Houve uma tragédia na nossa vida. Ela faleceu. Se acidentou lá em casa na piscina. Ficou em coma dois anos e meio. Fiquei muito afastada de toda a sociedade. Passei por muitos percalços. Mas acho que tudo isso engrandece o nosso espírito e tudo tem um por quê. A nossa vã inteligência não alcança. Eu tentei ser feliz mesmo durante o período que minha filha, a única menina, estava em coma. Queria poupar meu marido e meus filhos. Não queria que eles ficassem traumatizados em excesso''.
A postura humilde de Vera perante a vida foi a forma como ela, apoiada na sua religião católica, levou tudo adiante. ''Peço a Deus que me dê a luz para mudar o que posso e aceitar as que não posso. E tento ser feliz da maneira que for possível''. Toda esta força serviu para que os três filhos desenvolvessem a mesma capacidade de se recuperar frente a outras crises que passaram na vida. Só uma grande mulher consegue isso. Inteligente, Vera soube usar da chamada ''pseudo-submissão'' feminina. Dica boa. ''Com o marido tem que se mostrar inexperiente, sem ser. Deixar que ele determine as coisas, mas no fundo quem determina é você. E com os filhos tem que ter pulso firme'', anotaram?
A parte de charme no castelo foi vivida junto ao sogro governador e a sogra. Lá havia muitas recepções e jantares chiques. Com o passar do tempo e a perda de filhos também na vida do governador, sua esposa quis ir viver no Rio. Foi quando que o castelo foi se ''desmantelando'' e acabou sendo passado para o Canal 12. Ano passado a família Lupion recuperou o local e hoje Vera é uma espécie de relações-públicas do que virou um empreendimento junto aos familiares. Totalmente restaurado o castelo agora é um lugar onde se fazem festas.
E lá está Vera como novamente anfitriã. Elegância e discrição juntas em uma pessoa só. Pedimos a ela que desse algumas dicas sobre como receber bem, que recomenda: ''Ter simplicidade. Ela é a base de tudo. Você tem que deixar seus convidados à vontade. Quando for em petit comitê, as pessoas têm que ser afins. Quando for um jantar formal dá para deixar o ambiente mais eclético. E quanto ao cardápio tentar montar alguma coisa que agrade a todos''.
Como agir com convidados inconvenientes? ''Na hora em que se excede na bebida apela-se para os homens da casa. E se for uma senhora, obviamente, você vai tentar ajudar. Quando a pessoa se torna enfadonha você tenta incentivá-la com muito tato a mudar de assunto. E a dona da casa tem de ser low-profile''.
O que a senhora considera uma gafe imperdoável? ''Colocar no cardápio uma bebida errada. Insistir que alguém coma o que não quer. E também, a hostess tem que ser muito tranquila. Tentar atender aqueles que não estejam muito à vontade. A gafe é conduzir mal um momento que era para ser agradável em algo que não esteja agradando a todos''.
E numa festa a anfitriã tem que ser a mais bem-vestida? ''Não. Ela tem que estar sempre discreta. Tem que dar a oportunidade para outras pessoas aparecerem.''

mockup