O olhar expressivo e os longos cabelos cacheados são a marca registrada de Claudia Ohana. O visual exótico, inclusive, proporcionou à atriz uma infinidade de papéis intensos e nada convencionais, como a vampira "rockstar" Natasha, de "Vamp", e a caminhoneira Cida, de "A Favorita". Na contramão do óbvio, aos 51 anos, ela comemora a possibilidade de dar vida a uma mulher comum como Laura, de "Joia Rara", uma dona de casa devota ao marido e à família. "Com a Laura, sinto que as pessoas começaram a me ver de outra forma. O grande exercício para fazer essa personagem é me forçar a ser ‘menos’ em cena. Não preciso exibir força ou sensualidade, apenas ser simples e entender os sofrimentos dela", conta.
Carioca, filha de uma montadora de cinema e um pintor, a arte sempre esteve em evidência na vida de Claudia. Com a morte da mãe, começou a fazer figuração em tramas como "Dancin’ Days", de 1978. Até que a repercussão de sua estreia no longa-metragem "Amor e Traição", de 1979, a levou de fato para a tevê, onde estreou na série "Obrigado Doutor", de 1981. Ao longo das duas décadas seguintes, teve destaque em tramas como "Tieta", "Rainha da Sucata" e "A Próxima Vítima". "Entre sucessos, personagens grandes e pequenos, criei uma relação muito gostosa com a tevê. Tenho ficado meio distante de vez em quando. Mas, quando aparecem papéis interessantes como a Laura, fica impossível dizer ‘não’", valoriza a atriz, que, ainda este ano, lança seu primeiro projeto como diretora, estará na versão teatral de "Se Eu Fosse Você..." e em "Psi", nova série do canal por assinatura HBO.

Em "Joia Rara", Laura representa a típica mulher submissa ao marido dos anos 1940. Mas, aos poucos, ela questiona sua própria postura. Essa força da personagem a instigou a participar da novela?
Laura tem uma força mais internalizada. Ser mulher naquela época não era uma coisa tão fácil (risos). Acho que o casal formado por ela e pelo personagem do Leopoldo (Pacheco) é muito fiel ao que era um casamento dentro do contexto da classe média daquele período. A gente nem precisa fantasiar demais para chegar até eles. O que leva minha atuação por um caminho bem intuitivo e natural. Durante muitos capítulos, minha principal referência era a fragilidade dela. Aos poucos, isso foi mudando e a personagem ganhou outros contornos, enfrentando a família e envolvendo-se com causas sociais. No entanto, continuo tentando fazê-la da forma mais doce possível.

Por conta dos cabelos e do olhar, sua presença cênica é muito forte. Interpretar um tipo mais sóbrio é uma forma de fugir do óbvio?
Dar vida a um tipo mais comum e contido é uma experiência bem interessante. É engraçado, mas muita gente fala do meu olhar e sei que tenho um rosto exótico. Isso marca muito e acabo emprestando um pouco dessa força aos papéis. "Joia Rara" é toda amparada por personagens femininos de muita intensidade. A trama está a favor disso e a Laura acabou inserindo-se aí. Mesmo assim, ela não perde a doçura e o jeito mais leve de se portar. Coisa de novela! Você sabe como começa e nunca sabe como termina (risos).

Durante os anos 1990, você acumulou papéis de destaque em tramas como "Rainha da Sucata", "Vamp" e "A Próxima Vítima". No entanto, nos últimos anos, sua presença em novelas tornou-se bissexta. A televisão deixou de ser uma prioridade?
Acho que eu passei a fazer só o que tenho vontade, o que eu acho realmente relevante. Pela falta de personagens interessantes nos últimos anos, acabei concentrando meu trabalho no cinema e no teatro. Sei que não é todo dia que aparece uma Natasha (protagonista de "Vamp") ou uma vilã como a Isabela (de "A Próxima Vítima"). Qualquer atriz tem de conviver com essa sensação. É por isso que aproveito quando tenho a chance de fazer um grande trabalho.

Geralmente, seus personagens são bem diferentes entre si. É uma imposição sua?
Em partes. Televisão é muito negociação e o ator precisa ir com a maré. Funciono por convites e até hoje me surpreendo com as personagens que reservam para mim. No entanto, sinto que já estou predestinada para o exagero. Nisso, "Joia Rara" é um marco, pois tenho a chance de "imprimir" no vídeo a faceta de uma mulher comum. Sou sempre chamada para a vampira, a "stripper", a dondoca apaixonada pelo tio, a caminhoneira, a cangaceira. É tudo muito exótico (risos).

Em algum momento isso a incomodou?
Não. Eu pude me divertir muito fazendo todas essas mulheres complexas. A escalação acompanhava o meu jeito de ser. Agora, que estou ficando mais velha, consigo convencer mais e passar a imagem de uma mulher comum. Antigamente, era muito "olhão" e "cabelão". Isso fica bem claro ao pensar em "Vamp", por exemplo. Do alto dos meus 1,66 m de altura, eu virava um mulherão, que cantava rock e tinha dentes afiados (risos).

A música sempre esteve muito presente na sua vida e, em "Vamp", isso ficou evidente para o público. Por que você não investiu em uma possível carreira de cantora?
Na época, choveram convites de gravadoras. Se eu fosse esperta e boa empresária, teria investido muito em mim. Mas eu era mais uma idealista da arte, achava um absurdo a possibilidade de aproveitar aquele trabalho e a personagem para fazer sucesso.
Você se arrepende dessa postura?
Arrependimento é inútil. Gostaria de ter a grana, mas também acho bonito ter princípios. Naquela época, eu estava preocupada em não me vender (risos). Hoje, acho isso tudo uma grande besteira. Por sorte, investi em musicais e pude continuar mostrando a voz nos palcos.
Além de "Joia Rara", ainda este ano, você estará no teatro com a versão musical de "E Se eu Fosse Você..." e na série "Psi", da HBO. Como vai conciliar os três projetos?
A peça estreia em março no Rio de Janeiro, a novela vai até abril e a serie já está totalmente gravada. Só vou emendar os ensaios do musical com o final do folhetim, mas não é a primeira vez que me envolvo com diversos trabalhos ao mesmo tempo. Estou em um momento de muita satisfação profissional. A novela é linda e minha personagem, muito estimulante. No musical, eu volto a trabalhar com um monte de gente que adoro, o Daniel Filho, inclusive. E a oportunidade de fazer algo com a HBO foi muito bem-vinda. Eles dão um acabamento único para as produções que fazem.

Trajetória Televisiva

"Amor com Amor se Paga"
(Globo, 1984) - Mariana.
"Tieta" (Globo, 1989) - Tieta (1ª fase).
Rainha da Sucata" (Globo, 1990) - Paula.
"Vamp" (Globo, 1991) - Natasha.
"Fera Ferida" (Globo, 1994) - Camila.
"A Próxima Vítima" (Globo, 1995) - Isabela.
"Zazá" (Globo, 1997) - Maria Olímpia.
"A Muralha" (Globo, 2000) - Antônia.
"Estrela-Guia" (Globo, 2001) - Glorinha.
"As Filhas da Mãe" (Globo, 2001) - Aurora.
"Canavial de Paixões" (SBT, 2004) - Débora.
"Da Cor do Pecado" (Globo, 2004) - Zuleide.
"Malhação" (Globo, 2006) - Raquel.
"A Favorita" (Globo, 2008) - Maria Aparecida.
"Cordel Encantado" (Globo, 2011) - Benvinda
"Joia Rara" (Globo, 2013) - Laura.

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