Depois de ter exposto o sofrimento feminino com a chaga do câncer em uma coleção de início de carreira e de ter criado uma moda inspirada em Ícaro, o estilista curitibano Icarius agora está brincando de boneca. Com o Petit Palais de Paris, na última quinta-feira, lotado de convidados, jornalistas, entendidos de moda e algumas celebridades, a roupa de Icarius mostrou a todos a alquimia de uma criação baseada no amor pela alma feminina.
Abrindo a apresentação, apareceram os macacões cor de pele desenvolvidos pela malharia Resulthado de Curitiba – eles foram usados em todos os momentos do desfile como peças-chave da coleção. A idéia era fazer que as modelos parecessem bonecas nuas. Chocou. As peças, pintadas à mão, mostraram toda a anatomia feminina. Depois disso, o estilista começou a vesti-las. Como numa brincadeira, são várias facetas. Às vezes são garotas do futuro, com botas de salto altíssimo, camisas e calças bem justas e cotoveleiras, outras são mulheres cheias de charme e erotismo. Sensuais, mostram um vestido longo todo drapeado, a marca registrada de Icarius.
Em alguns momentos, a pintura da púbis e dos seios feita nos macacões dava a impressão que as modelos estavam realmente nuas. Pura irreverência e ousadia de quem já está na quarta participação no calendário oficial da Semana de Moda de Paris. Mas ele não só desnudou suas bonecas. Tratando as mulheres como deusas, Icarius investiu fundo na estruturação de algumas peças, como nos casacos pelos joelhos com ombros bem estruturados acompanhados de calças justas. Ou nas mantas esvoaçantes pregadas com tachas cor de cobre aos macacões. Além de terem sido peças-chave na versão malha, eles também apareceram em outros tecidos com elastano.
Depois vieram as cores como o vinho, para contracenar com os tons pele. E o verde-limão, escolhido para diferençar alguns detalhes como as golas de malha bem altas, um acessório que pode ser removido dando versatilidade à produção. A mistura de cores mostrou um outono-inverno fresco, colorido e claro.
Um capítulo a parte na coleção foi a blusa nervurada em crepe de seda desfiada que pode ser usada com jeans, saias ou até numa produção mais sofisticada. É uma peça que demonstra bem o cuidado do estilista em desenvolver um trabalho artesanal. Qualidade de um grande costureiro.
Outra virtude dele é o prestígio. A platéia foi bem disputada, com a presença de diplomatas e da charmosa Costanza Pascolato, que compareceu a todos os desfiles da temporada. A poderosa Claudia Raia também estava lá. Ela ficou alucinada com os macacões pintados e encomendou um. Isso sem falar nas modelos brasileiras Mariana Weickert e Marcelle Bittar circulando à vontade pelos bastidores.
Enfim, no penúltimo dia do Paris Fashion Week, o jovem estilista curitibano arrebatou para si o foco da mídia da moda. E isto não é para qualquer um. A uma quadra da mítica Champs Elysées, sobre a luz fraca de um final de tarde do inverno parisiense e emoldurada pela beleza neoclássica do Petit Palais, a estrela de Icarius brilhou.

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