À flor da pele
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de março de 2014
por Márcio Maio<br> TV Press 
Trabalhar com Manoel Carlos era um desejo antigo de Gabriel Braga Nunes. Desde que viu sua mãe, a atriz Regina Braga, se entregar à interpretação da amargurada Lídia de "Por Amor", novela escrita pelo autor em 1998, o ator começou a prestar mais atenção no texto dele. Agora, na pele do flautista Laerte de "Em Família", garante experimentar uma sensação bem similar à vivida por Regina na época. "São tramas que abordam os personagens de uma maneira muito íntima. Eu alimentava a vontade de trabalhar um texto escrito com essa sensibilidade. Acho bonita a poesia do cotidiano, dos pequenos gestos", afirma.
Chega a ser contraditório, mas Gabriel Braga Nunes não gosta de aparecer. Mesmo depois de 18 anos de carreira na tevê e mais de 20 nos palcos, ele ainda se incomoda com as câmaras fotográficas apontadas para si e filtra bem as declarações que quer ou não dar. Primeiro, pela postura mais reservada. Mas também por defender que não é a exposição do elenco de uma novela que vai levantar os resultados na audiência. "Me assusta um pouco ver o lado para onde tudo isso tem caminhado. As pessoas se preocupam em saber da minha vida pessoal muitas vezes sem sequer decorar o personagem que estou interpretando", desabafa, logo depois de ser flagrado por um paparazzo ao gravar cenas de seu personagem em uma praia carioca.
Laerte foi apresentado na primeira e na segunda fase da novela como um rapaz com certo desequilíbrio em função do ciúme excessivo. É o tipo de personagem que deve transitar entre as linhas de mocinho e vilão no decorrer da trama?
Ele é o herói romântico da trama. Teve, sim, um período conturbado na adolescência. Mas esse é um período de risco mesmo, não dá para condenar ninguém por excessos da juventude. Na terceira fase, ele já chega como um homem íntegro, maduro, talhado pela vida. A arte em especial a música lapidou sua sensibilidade. A dubiedade pode ser um traço do autor, não desse personagem especificamente.
Como foi a experiência de gravar as primeiras cenas em Goiás e em Viena?
Estive em Viena na década de 1990, mas sinto que dessa vez aproveitei muito mais, já que gravamos nos melhores lugares da cidade. Viena é uma cidade pautada pela música clássica e pela psicanálise, ou seja, um lugar bem apropriado para alguém em fase de recuperação, como o Laerte. Em Goiânia foi uma experiência mais curta, já que fiquei apenas dois dias. Não deu para conhecer melhor a região.
Você não é um ator que investe tanto em laboratório e já declarou em outras entrevistas preferir descobrir o personagem com o passar dos capítulos. Manteve isso nessa novela?
Sim. Eu acredito que o personagem aparece na relação que ele tem com os outros. O texto do Manoel Carlos é bastante preciso nas direções e, se você inventa muita coisa, tem boas chances de atrapalhar a história. Mas tive encontros importantes com músicos e maestros, nos quais percebi a dimensão que a música pode ter na vida de alguém. Pode ser fundamental, tão importante a ponto de outros detalhes parecerem mesmo menores. No caso do Laerte, eu enxergo a música como uma salvação. Não fosse pelo estudo da flauta, acho que ele teria sucumbido a problemas maiores na adolescência.
Na última década, poucos foram seus momentos fora do ar. Como está sua relação com a televisão hoje?
É verdade, fiz umas 20 novelas nesses 18 anos, desde que estreei em "Razão de Viver", no SBT, em 1996. E não estou exausto. Ao contrário, me sinto cada vez mais satisfeito e estimulado. Trabalhar desse jeito não me cansa.
Desde que você assinou com a Record, há 10 anos, só ganhou papéis de mocinhos ou vilões principais nas novelas. Esse é um fator determinante para não ter vontade de parar um tempo e se dedicar a outros trabalhos?
Sem dúvida, os papéis centrais são muito almejados pelos atores. Mas não exatamente pelo destaque. Acho que principalmente pela qualidade artística. Até porque essa visibilidade pode se voltar contra você quando não se está devidamente sustentado. Mas já vivi momentos marcantes em núcleos paralelos. E também outros não tão vibrantes como protagonista.


