Marieta Severo incorporou a ''mãezona''. Com um sorriso sempre aberto, a atriz, que vive a amorosa Dona Nenê em A Grande Família, exibe o mesmo temperamento afetuoso da personagem do seriado que completa sete anos e a boa média de 40 pontos de audiência.
Com uma fala mansa e segura, Marieta pergunta sobre as novidades do programa, antes de completar: ''É verdade, esse ano temos mudanças!'', diz, arregaçando as mangas da camisa de estampa vibrante. Como se não soubesse. Marieta Severo sabe tudo. E conta. ''Esse ano a Nenê vai passar pelo ano mais especial de sua vida. Vai ser vovó de um filho da Bebel. Pena que também vai brigar com o Lineu e ele sai de casa!'', enumera, alterando teatralmente o tom de voz da doçura para o espanto.
Marieta é assim mesmo. Enquanto disseca o seriado bem-sucedido, também se orgulha do longa A Grande Família ter ultrapassado os 2 milhões de espectadores. ''O filme foi uma oportunidade de eternizar o seriado no cinema. O que nos surpreendeu nesse sucesso foi que nem sempre um produto que dá certo na tevê tem a garantia de ser bem-sucedido no cinema. Acredito que isso aconteceu porque este seriado está próximo da perfeição. Não consigo pensar em nada na tevê que possa me dar tanto orgulho ou mais prazer do que esse trabalho. Sou muito querida aqui. Faço um dos melhores programas da tevê brasileira. Passear por outras linguagens fora da tevê nos alimenta.''
Mas a atriz de 60 anos também não disfarça o orgulho do seu maior xodó, o Teatro Poeira, fundado há dois anos ao lado da amiga Andréa Beltrão.
Ser dona de um teatro era um sonho antigo de Marieta Severo. Em junho completa dois anos que a carioca se uniu a amiga Andrea Beltrão para erguer o Teatro Poeira. Ambas reformaram um antigo sobrado em Botafogo, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro, e construíram o teatro que exibiu mais de seis peças, além de oficinas e diversos cursos para formação e aperfeiçoamento de atores. ''Esse era um grande desejo. Um teatro que fugisse do circuito comercial. Nós também chegamos num estágio que não precisamos nem conversar ou combinar nada. Lemos o pensamento da outra'', derrete-se Marieta.
Após atuarem juntas em produções como Estrela do Lar, Sonata de Outono, Cazuza - O Tempo Não Pára, entre outros, Marieta e Andréa se preparam para estrear no Poeira a peça Centenárias, de Milton Moreno, no final deeste mês. ''Quando paramos para avaliar a pequena história do Poeira, percebemos que já é uma grande história'', diz. Além disso, em agosto, Marieta começa a rodar o longa Comédia dos Anjos, de Adriana Falcão, dirigido por João Falcão.
Trabalho é o que não falta para a atriz. Mesmo assim, há cinco anos, no Festival de Gramado, Marieta revelou que faltavam personagens para mulheres mais maduras na tevê, e continua pensando assim. ''Essa é uma queixa universal. Todas as atrizes que chegam na minha faixa etária reclamam. Na dramaturgia existem poucos personagens para a minha faixa. Tem muitos papéis masculinos bons, mas os femininos são realmente poucos. Historicamente se escrevia mais para os atores do que para as atrizes. Mas, no momento, não posso reclamar porque a dona Nenê é uma excelente personagem. Todos se identificam com ela''.
E todos os papéis que ela interpreta sempre têm uma veia cômica. Mesmo no drama, ela imprime comédia nas entrelinhas. ''Adoro humor. Ele é fundamental na vida, dá uma visão e uma dimensão fundamental das coisas. Ele nos ensina vários caminhos e pode ser muito revelador. Trabalhar com humor é minha preferência sempre. Não precisa ser a comédia rasgada, mas o papel tem de ter sempre esse olhar humorado. O humor é uma faca amolada. A Alma, de Laços de Família, por exemplo, era uma vilã assim. Tenho essa tendência de levar o humor que tenho na vida real para todos os personagens, desde o início da minha carreira''.
Ao fazer um balanço de sua trajetória, Marieta confessa que não tem nenhum arrependimento profissional. ''Há coisas que fiz e deram certo, como outras que fracassaram. Gosto da minha história, me sinto bem e confortável dentro dela. Tenho orgulho da minha vida profissional e de tudo ter culminado na construção de um teatro, onde agora eu posso desenvolver mais e melhor todos os aspectos da minha profissão que são importantes. Me sinto como uma formiguinha trabalhando para a história da cultura dramatúrgica.''

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