A desconstrução da moda
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de setembro de 2004
Rosângela Vale<Br>Reportagem Local 
O clima de uma semana de moda como a São Paulo Fashion Week é sempre acelerado. Ao chegarem na sala de desfiles para mais uma apresentação, bloco na mão e olho no relógio, os jornalistas se preparam para um ritual que chega a se repetir oito vezes por dia: anotar cores, tecidos e padronagens, observar tendências e analisar a coerência (criativa e comercial) da coleção. Por isso, durante o último desfile de Jum Nakao, quando ele apresentou roupas de papel, a pergunta que todos se faziam era uma só: cadê a coleção?
Mas, ao invés de roupas de tecido, o que veio foi um final apoteótico que se não agradou a todos os críticos de moda rendeu um espaço na mídia jamais conquistado pelo estilista. Desde então, Jum tem viajado por todo o País, dando palestras e falando sobre o seu trabalho. Dias atrás, foi a vez de Londrina recebê-lo como júri do concurso Catuaí Collection/UEL.
Crítico e extremamente hábil com palavras e conceitos, o estilista de 37 anos, com passagens pela equipe de estilo da Zoomp, Carmim e Polo by Kim e pela curadoria do Hotel Lycra, vive hoje um momento que considera ideal. ''Tenho total liberdade para construir um trabalho autoral'', comemora. Desde fevereiro, Jum assina a direção criativa da Viva Vida e se dedica a alguns projetos. No próximo ano, estará à frente do Instituto Brasil Arte Moda, que vai formar e exportar novos diretores de criação. Em 2005, também passa a ter parceiros internacionais, cujas identidades ainda não pode revelar. Ele adianta apenas que se trata de uma rede de lojas e de uma marca esportiva.
Essa nova fase profissional, entretanto, não foi motivada pelo seu surpreendente desfile. Começou bem antes, com questionamentos que o atormentaram durante o processo criativo, ''solitário e doloroso'' na sua definição. Para Jum, o princípio básico de todo design que haja um conceito por trás da forma se perdeu em meio ao turbilhão fashion atual. ''Hoje, tem tanta coisa que é pura casca... E isso se vê em objetos e em pessoas'', alfineta, atentando para o fato de que as soluções criativas, nas mais diversas áreas, acabam se encaixando dentro de critérios pré-estabelecidos de modernidade. ''As idéias não buscam expressividade, mas sim aceitação'', critica. Traduzir tais questões em um desfile era, portanto, o seu desafio.
''Eu estava ficando quase maluco. Como responder a tudo isso?'' Ao criar uma coleção poeticamente primorosa em papel vegetal (que consumiu 700 horas ininterruptas de trabalho) e destruí-la no final (não é isso que acontece com as coleções de uma estação para outra?), ele conseguiu decifrar o enigma. ''Destruí a forma, mas o conceito permaneceu. Se a moda nasce para morrer, resolvi matá-la antes de nascer para fazê-la viver sempre''.
Para quem acha que é filosofia demais para a passarela, Jum rebate: ''Será que a moda não deveria apontar reflexões ao invés de definir códigos? Moda foi feita para abrir territórios, não para fechar'', decreta. Logo após o desfile, o estilista pôde comprovar que o seu objetivo tinha sido atingido. ''No corredor da Bienal, uma pessoa da limpeza veio me agradecer pela imagem que tinha visto no telão e um segurança me disse que estava guardando tudo o que saía na imprensa sobre o meu trabalho para mostrar para a mulher e o filho'', conta.
Mas o projeto do estilista vai além. Ele trabalha agora na finalização de um documentário em DVD, mostrando todas as etapas de seu processo criativo, das inquietações do criador até a repercussão do desfile. Também está organizando textos de vários pensadores, convidados para escrever sobre forma, conceito, imagem, arte e mercado, para um livro que será lançado em outubro, junto com o DVD, pela editora Senac, com o apoio cultural da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). ''Quero compartilhar pensamentos, idéias e reflexões para que as pessoas tenham os mesmos questionamentos que eu tive'', justifica.
Jum conta que a sua motivação sempre foi ampliar a percepção. Para isso, começou a estudar eletrônica, passou para a moda e, buscando uma formação mais profunda, fez artes plásticas. O trânsito por essas áreas lhe permitiu descobrir a sua real vocação: ''Quero trabalhar com linguagem de moda através de outros meios, não apenas das roupas. As pessoas se vestem para estarem bem e esse bem-estar não pode ser feito meramente de tecido. A moda tem que vestir o corpo e a cabeça''.
Segundo ele, a desconstrução mostrada em seu desfile também reflete a nova realidade dos criadores de moda do mundo todo, que não administram mais a própria marca, mas trabalham sob o aval de conglomerados poderosos. ''Não tenho infra-estrutura para produzir coleções. O que tenho é capacidade criativa de articular idéias'', observa Jum, que se diz aberto a parcerias no Brasil. ''O problema é saber se tem alguém disposto a contratar um estilista que rasga roupa'', diverte-se.


