A crítica como trampolim
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de agosto de 2004
Ana Clara Garmendia<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Enquanto uma grande leva dos artistas plásticos mundiais se rendem ao estilo contemporâneo, Luiz de Souza, 33 anos, autodidata, vai na contramão e, em poucos anos de profissão, sobrevive da sua arte surrealista. Luiz faz obras que remetem facilmente a comparações com Salvador Dali ou Giorgio De Chirico.
O encontro com a arte veio fluido, imperceptível. Luiz trabalhava numa empresa de publicidade. Na verdade sempre gostou de desenhar passar para o papel suas impressões sobre o que vê na rua, na mídia, todos os dias. ''Sempre desenhei, sempre gostei de arte, o desenho foi o meu forte desde criança. Um dia, um amigo me disse para eu colocar cor no meu trabalho e comecei a pintar as primeiras telas e não parei mais até hoje.''
''Nasci numa cidade pequena, em Lauro Muller, interior de Santa Catarina, e as pessoas me perguntavam: o que você quer ser? E eu não tinha uma referência. E pensava: quero ser um desenhista. Quando eu via uma obra de arte, me chamava muito a atenção, principalmente quando ia à igreja.'' Essa relação com o sacro acabou entrando nas telas do artista através das cores. ''As cores que uso são muito baseadas nas obras renascentistas, como as de Caravaggio, que tinha aquela questão do claro e escuro'', conta.
E a criação em si vem de várias maneiras. Uma é o fluxo de consciência, ou seja, a idéia pronta, fato que também pode não acontecer. ''Às vezes tenho que sair. Ando na rua e vejo alguma coisa, ligo a televisão. Vou juntando tudo isso. Vão surgindo misturas que, quando vejo, a imagem está pronta. Mas primeiro passo por um estudo para depois começar a nascer o trabalho.''
Quem vê o artista contando imagina que tenha sido fácil em menos de dez anos ele vender quadros que variam entre R$ 4 mil e R$ 30 mil. ''Foi rápido, mas teve os seus percalços também. Hoje em dia, meu trabalho vende bem porque existe uma maturidade. E o surrealismo e o realismo fantástico exercem nas pessoas uma fascinação.''
Nos primeiros anos em que se dedicou somente à arte, Luiz dava aulas, ''até que o trabalho ganhou força''. E há também o papel do marchand. Luiz tem um representante na cidade (Luiz Barbosa, da Creta Galeria de Arte) que cuida das suas obras. Mas é aí que aparece o lado batalhador do artista. Na verdade, além do talento nato, Luiz tem uma outra particularidade: ele não se cansa de ir atrás de contatos. Não se cansa de mostrar o que faz e gosta das críticas. ''Não foi só pelo marchand. Eu sempre visitei galerias de arte e levava meu trabalho. Pedia para alguém que eu achava que entendia de arte fazer uma crítica. Sempre gostei disso. O artista compõe com uma série de ansiedades e não vê direito o que faz, e alguém, mostrando às pessoas, pode dar toques técnicos.''
Com essa atitude de dar ''a cara para bater'' e de gostar de críticas, Luiz conquistou uma rápida evolução. Se sobreviver de qualquer profissão já é difícil, de arte é mais complicado ainda. Ao resolver que as críticas poderiam pontuar sua evolução, o artista se mostra incansável. ''Quando uma galeria fala: olha, seu trabalho está muito bom, mas não conseguem uma crítica a respeito, eu parto para uma outra galeria.''
Mais um desafio, uma nova crítica e hoje Luiz de Souza já tem obras suas vendidas até em Paris. ''Levo meu trabalho para o exterior, para as melhores galerias. Peço as críticas. Acho que foi por isso que evoluí muito rápido.''
Além dessa preocupação em ser criticado, Luiz também tem outro hábito: ir a livrarias. Vai quase todo o dia. Sua biblioteca é vastíssima. O ler e observar é uma grande contribuição. ''Acho a observação a contribuição maior.''
Pelo menos uma vez por ano, Luiz vai para fora. Agora, como incansável batalhador por sua arte que é, está de malas prontas para viver em São Paulo. Lá vai passar por um período de adaptação. Luiz quer morar em Paris, mas antes, como está acostumado com o lado brasileiro de ter sempre alguém ajudando nas lides da casa, quer aprender a se virar sozinho.


