Otávio Augusto é daqueles atores que usam a intuição para desenvolver papéis. Com o Poeta em ''A Padroeira'' não foi diferente. O ator conta que buscou aspectos engraçados e críticos para construir o personagem. O mesmo recurso foi utilizado por Otávio para compor outros tipos, como o Matosão, o vampiro de um dente só de ''Vamp'', ou ainda o Conde de Gouvarinho de ''Os Maias''. E, na novela das seis, o ator tinha mesmo de usar a intuição. Afinal, Otávio foi chamado apenas uma semana antes do começo das gravações - o Poeta ia ser interpretado por Ney Latorraca, que não pôde fazer a novela. Com isso, ele acabou não participando dos workshops para a trama. ''O ator é intuitivo por natureza. Interpretação só técnica é muito chato. Tem de explodir alguma coisa dentro de você com aquele personagem'', ensina.
Nesta construção do personagem, Otávio trilhou um caminho que gosta e que conhece muito bem: o do humor. O ator acabou pegando o lado crítico social do Poeta para transformá-lo num tipo mais descontraído. Essa estratégia, aliás, Otávio aprendeu com diferentes papéis cômicos que fez na tevê, em especial na fase em que participou do extinto ''TV Pirata''. ''O brasileiro gosta mais da crítica à realidade discutida através do humor'', acredita.
Você foi chamado às pressas para fazer o Poeta. Isso não atrapalhou na composição do personagem?
Acho que não, porque a novela não é uma obra fechada. Você está sempre exposto a cada semana mudar o rumo do personagem de acordo com o interesse dramático da novela. Uma preparação maior é importante em termos de prosódia, mas a própria tevê não fica usando muito os termos da época, pois as pessoas podem achar aquilo chato. A época é respeitada mais em termos estéticos do que em estrutura linguística.
Mas como você construiu o personagem?
Quando fui chamado eu falei que ia pela intuição. Pensei: ele se formou em Portugal, então tem de ter um leve sotaque. Além disso, é um crítico da sociedade da época, do aspecto colonialista, do poder pelo poder. Também percebi que ele é visto como uma pessoa meio marginal e que é muito gozado pelos outros. Disso foi desenvolvido um humor.
Então, você se definiria como um ator que vai mais pela intuição para compor os papéis...
Me entrego muito criando o personagem. Fico 24 horas com aquilo na cabeça, pensando como seria o comportamento do personagem. Vem tudo de uma forma intuitiva de percepção. Fico pensando: como viveria, onde viveria esse personagem? Foi assim em ''Vamp'' com o vampiro de um dente só, idéia que eu sugeri ao Antônio Calmon. O ator que trabalha só tecnicamente acaba se tornando chato. Tem de explodir alguma coisa dentro de você com aquele personagem senão vai ficar uma interpretação morna.
Você está explorando o Poeta pelo humor e papéis engraçados como o Matosão de ''Vamp'' não faltam em sua carreira. Você se sente mais à vontade com tipos cômicos?
Sem dúvida. Acho chato quem se leva muito a sério. Até porque hoje se você não tiver um pouco de humor você morre enfartado. Além disso, o público brasileiro aceita muito mais uma crítica a uma realidade discutida através do humor. O humor relaxa a percepção. ''Vamp'' e ''TV Pirata'' são bons exemplos. Foram trabalhos feitos a partir de uma crítica social.
Por falar em crítica, ''A Padroeira'' vem sendo muito questionada pelas recentes mudanças no rumo da novela, como decotes mais generosos para as mocinhas e camisas desabotoadas para os mocinhos. Você acha que isso descaracterizou a trama?
É muito difícil colocar uma trama de época num horário em que se tem uma faixa etária diversa. Tem senhoras de gerações mais antigas e jovens e a novela procura fazer uma mescla daquilo que a mídia determina. E isso depende de uma série de discussões das quais eu nunca participei. De repente, são apelos que não acho exclusivamente da novela ou da Globo. A mídia hoje vive em função disso. O Brasil está vivendo uma fase cultural ruim, pois tudo está sendo nivelado por baixo.

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