A venezuelana Anik Meijer-Werner chegou para a entrevista com um sorriso largo e os traços perfeitos de quem merecia estar sob os refletores e não somente nos bastidores, criando cenários para outros brilharem. Com um português perfeito, Anik, 29 anos, vai logo explicando suas origens: nasceu na Venezuela, filha de mãe brasileira e pai alemão e, ainda bebê, mudou-se com a família para a Alemanha. É desse mosaico multicultural que nasceu sua paixão pela arte que a trouxe para o Festival de Música de Londrina (encerrado ontem).
O convite para vir para cá surgiu no ano passado, na Europa, quando ela encontrou o diretor artístico do evento, Marco Antônio de Almeida. Aqui, a cenógrafa participou de duas produções, depois de remexer alguns brechós da cidade em busca de material para vestuário e decoração cênica.
Cosmopolita desde criancinha, Anik cresceu absorvendo influências culturais dos vários países em que morou. ''Acho que a gente nunca se identifica com um único lugar; é como estar em casa e ser um pouco estrangeira'', confessa.
Sua formação européia culminou com a graduação em filosofia no tradicional Vassar College, em Poughkeepsie, Nova York, escola onde a nata das mulheres americanas aprendia a pensar com a própria cabeça, isso desde sua fundação, em 1861. Escritoras como Mary McCarthy e socialites pensantes como Jackie Kennedy Onassis graduaram-se lá.
''A filosofia foi meu próprio achado. Optei por essa área mesmo sabendo que não queria isso como profissão, mas que fosse algo que sempre me levasse à reflexão'', lembra Anik, que, na prática, sempre assistiu a concertos, óperas, e visitava galerias de artes plásticas mundo afora.
Hoje, apaixonada pela arte e focada em seu trabalho, quando se depara com um texto teatral, ela o faz com conhecimento e com prazer. ''Não me interessa tanto criar cenários realistas, mas selecionar idéias e fazer com que o público reflita. As melhores peças de teatro mostram justamente isso - novas perspectivas'', diz.
Não foi à toa que no cenário da opereta Forrobodó Chiquinha Gonzaga - apresentado por alunos da Rede da Cidadania no Festival - a cenógrafa procurou idéias simples e de fácil execução. ''O ponto central do espetáculo são as pessoas. Levo em conta a interação do visual com o espaço e o público. Não gostaria de me limitar à cenografia somente no palco. O cenário deve fazer parte da história e não apenas se restringir à função de pano de fundo'', pondera.
Em Londrina, Anik teve a oportunidade de trabalhar com a cenografia exclusivamente relacionada a um festival de música, uma vez que só tinha tido experiências com teatro, dança e ópera. ''Aliás, as óperas são produções muito interessantes; eu tive a oportunidade de ver de perto tudo isso. Foi na Europa que me encantei com esse clima de festival, de pessoas correndo de um lado para o outro, cenógrafos misturados com dançarinos, cantores e atores; é uma atmosfera diferente'', comenta.
Para ela, cenografia é um ponto de convergência com diversas áreas, como literatura, música, artes plásticas. E arrisca uma sugestão: ''Seria bacana se o Festival de Música de Londrina criasse um espaço com várias apresentações interagindo. Esse é o tipo de coisa que se passa em minha cabeça quando ouço um concerto lindo, por exemplo. O ser humano tem a mania de pensar que o que ele enxerga é a realidade. Por isso, é preciso tentar criar a possibilidade de mudar essa visão, o que tem a ver com a minha experiência de vida''.
Em 2004, durante o Forum Cultural Mundial, a cenógrafa ouviu falar pela primeira vez do FILO - Festival Internacional de Teatro - quando conheceu sua idealizadora, Nitis Jacon. Questionada a respeito do evento, Anik não hesita em dizer que gostaria de ter a oportunidade de assistir aos espetáculos e, também, se houvesse convite, trabalhar nesse festival. ''No Brasil, as pessoas improvisam muito e com pouca coisa conseguem produzir grandes espetáculos. Aprendemos, então, a ser mais flexíveis'', completa.
Em 2007, depois de morar quatro anos no Rio de Janeiro, Anik mudou-se para Zurique, onde faz mestrado em cenografia na Hochschule der Kunste. Entre tantas idas e vindas, ela ainda adequa sua agenda para visitar o namorado, que é chef de cozinha em Nova York.
Sua dinâmica de vida sugere o que ela tanto almejava ao estudar filosofia: ''Gosto muito de ter um ponto de partida, é como uma porta de entrada que vai revelando novos pontos de vista''.
No Rio de Janeiro, que só conhecia em visitas a familiares, Anik radicou-se em 2003, participando de performance/instalação, criando cenários e figurinos para peças de dança, além de ter sido assistente de direção em peça teatral, dirigida por Rubens Veloso, em São Paulo.

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