A arte de emocionar
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de janeiro de 2004
Camilla Rigi<br>Reportagem Local 
Café da manhã, exercícios de alongamento, limpeza da casa, ensaio para o próximo espetáculo, almoço, exercícios de canto. Uma rotina agitada que muitos jovens não conseguiriam acompanhar. Mas isso nunca foi problema para um homem cuja mistura da vida pessoal com a profissional se tornou a marca de sua história. Aos 55 anos de idade, Marcos Ferreira Silva, mais conhecido como Marquinhos Silva, sequer parou um minuto de respirar arte.
Nascido em 1949, na cidade paranaense de Sertanópolis, Marquinhos mudou-se para Londrina em 1957. Iniciou sua carreira na adolescência, como cantor mirim, no programa Ala Jovem da TV Coroados, e desde então a arte tornou-se sua vida. Hoje, Marcos Silva é cantor, ator, bailarino, mímico, gerontólogo e formado em educação física pela antiga Faculdade de Educação Física (FEF), hoje Universidade Norte do Paraná (Unopar).
A descoberta das artes cênicas aconteceu em meio a brincadeiras. ''Lembro que eu e meus amigos encenávamos as fotonovelas. E um dia todos se espantaram com uma interpretação minha. Ali, eu senti que sabia transferir a emoção'', revela. Mas foi uma encenação da morte de Jesus na Catedral de Londrina, em 1972, a verdadeira estréia de Marcos nos palcos. De lá para cá, ele passou por vários grupos, como o extinto Proteu, e ingressou no teatro infantil com o Grupo TED Experimetal Decisão.
A busca por outros tipos de arte, segundo Marquinhos, veio como uma complementação e um aperfeiçoamento do trabalho desenvolvido nos palcos. Durante anos, a expressão corporal foi o carro-chefe de sua carreira, e até hoje Marquinhos não deixa de lado os exercícios de balé. Durante oito anos ele ensinou a dança para crianças de várias cidades do Paraná. Marcos também passou pelas Oficina de Dança, Adanac e escolas de samba da cidade
Pai de quase ''100 filhos'', Marcos não se casou. ''Meus personagens são como filhos'', explica. E o crescimento de cada um deles pode ser acompanhado a cada reestréia sua. Atualmente, ele mora com uma irmã e afirma que não se sente só. ''A solidão é um estado de espírito. E quando a gente sabe que é querido não se sente solitário'', relata.
O artista também trabalhou na prefeitura de Londrina, primeiro na Coordenadoria Especial da Mulher e depois na Ação Social. Foi nesse período que teve contato com mulheres idosas, com as quais desenvolveu um trabalho de expressão corporal e também cursou gerontologia. O aprendizado mostrou a Marcos que manter os idosos produzindo é a melhor ação social. Uma lição que também foi aplicada em sua própria vida. ''Eu tento dizer para as pessoas que nunca parem de fazer o que gostam''.
Ao longo de sua trajetória, Marcos enfatiza que sempre buscou a valorização do ser humano, um tema que sempre fez questão de incluir em seus espetáculos. ''Quero amadurecer em paz e contribuir com a sociedade''. A pesquisa de outras culturas também se tornou marca dos trabalhos desse artista. Músicas orientais, mescladas com cantos indígenas, são algumas das combinações resultantes do estudo da cultura japonesa, que hoje é parte integrante da vida de Marcos Silva. ''Eu frequento a Acel, porque acredito que sempre posso aprender mais''.
Com um corpo e uma disposição invejável, Marcos começa o ano de 2004 com um novo desafio: montar o espetáculo ''A vida é arte''. O artista, que participou do início da vida cultural londrinenese, hoje vende peças de artesanato para sobreviver. Aulas de balé também ajudam a complementar a renda, mas isso não abala a esperança de reencontrar o público. ''Ultimamente percebi que estou brincando de gato e rato com o público''.
Na nova montagem de ''A vida é arte'' o artista conta, através de seus personagens, sua própria história. Contudo, ainda não pode contar com grandes investimentos. ''Até agora o que tenho é um final de semana reservado no teatro Zaqueu de Melo''. Mesmo com todas as dificuldades, a arte impregnou na vida de Marquinhos. ''Espero continuar assim por muito tempo'', diz ele.


