A arte da resistência
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de setembro de 2008
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O dilema entre escolher uma profissão rentável e uma ocupação que dê prazer, mas com o risco da instabilidade financeira, é quase inerente ao ser humano. Algumas pessoas, no entanto, são categóricas na escolha. Independentemente dos obstáculos, fazer o que se gosta é mais do que uma opção, é uma filosofia de vida. É o caso do jornalista e produtor curitibano Marcelo Munhoz. Descendente de italianos, filho de engenheiro, ele deixou um emprego estável e uma carreira promissora para levar adiante um sonho que idealizou com o cineasta Luciano Coelho e que agora é muito mais do que realidade: o Projeto Olho Vivo.
Muito mais do que um espaço de fomento à produção audiovisual, o projeto começa a conquistar visibilidade nacional. Uma das propostas do projeto, o Ficção Viva, foi aprovada pelo Programa Petrobras Cultural e até o final do ano deve formar mais uma leva de interessados na área audiovisual. Mas a proposta do Olho Vivo, fundado por Munhoz e Coelho, começou há cinco anos e bem que poderia ser roteiro de documentário.
Jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Munhoz decidiu-se pelo curso porque desde a infância tinha uma ligação forte com o cinema e a televisão. Antes de fazer o vestibular, participou de um intercâmbio nos Estados Unidos e lá fez cursos na área e ainda arriscou algumas aulas de teatro. De volta ao Brasil e já na universidade, matriculou-se em um curso de interpretação e conheceu pessoas com quem fundaria, mais tarde, o Grupo de Teatro Resistência (1992-2001), que ajudou a escrever a história recente do cenário teatral curitibano.
Uma das peças mais conhecidas do grupo, a montagem Paredes de Vento (1995), foi responsável pela projeção nacional do Resistência, participando de festivais e ganhando inúmeros prêmios. E foi a experiência como ator que o levou a conhecer o cineasta Luciano Coelho. Ele fez um teste para o média-metragem O Fim do Ciúme (2001), ganhou o papel e percebeu que ele e o cineasta compartilhavam idéias comuns quando o tema é arte. Em 2003, uma proposta da dupla para ministrar oficinas de audivisual para a comunidade foi aprovada em um edital de ocupação do bairro Rebouças, proposto pela Fundação Cultural.
Surgia assim o Projeto Olho Vivo. Durante dois anos, com um pequeno intervalo de tempo entre eles, o projeto foi subsidiado pelo município. Depois disso, os coordenadores tinham algumas opções, entre elas, talvez a mais fácil seria abandonar o projeto e cada um seguir o seu caminho profissional. Paralelo ao Olho Vivo, Marcelo dava aulas e tinha um emprego estável em uma grande empresa. Mas o caminho mais fácil nem sempre é o mais agradável. Munhoz decidiu-se justamente pelo contrário. Ele e o sócio resolveram manter o espaço e a proposta. Munhoz deixou o emprego para se dedicar integralmente ao projeto e muitas vezes tirou dinheiro do próprio bolso para pagar o aluguel.
Isso porque uma das apostas do trabalho da companhia era o trabalho com comunidades carentes, como o ''Minha vila filmo eu'', que produziu curtas de acordo com a visão de adolescentes moradores da Vila das Torres e a montagem teatral Caninos Brancos, também com meninos e meninas de comunidades menos favorecidas. Foi com essa montagem, aliás, que Munhoz presenciou um caso difícil. Viu uma das alunas/atrizes deixar a possibilidade de seguir a carreira artística pelo imposição da comunidade e ainda pior, pelo ''poder'' das drogas.
''Isso não me faz desistir, pelo contrário. Me sinto mais forte, embora menos romântico e vendo as coisas com menos brilho no olhar'', diz. A desistência, aliás, está longe de fazer parte dos planos do jornalista. O trabalho perseverante e de qualidade faz com que o Projeto Olho Vivo, que hoje, além das oficinas, também produz vídeos e filmes e promove várias oportunidades de trabalho para os alunos que já participaram das oficinas, ganha cada vez mais projeção. Desde 2003, mais de 20 documentários já foram realizados, além dos filmes de ficção. E, se depender dele, vem muito mais por aí. ''Fazer algo em que acredito faz parte da minha personalidade. Não posso evitar'', salienta.


