55 ANOS DA FOLHA - O homem é 75 por cento de passado
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de novembro de 2003
Oswaldo Militão 
Uma boa oportunidade para contar algumas historinhas de anos atrás que aconteceram com o pessoal da Folha, que na quinta-feira, dia 13, comemorou 55 anos de existência, de serviços prestados a Londrina, ao Paraná e também ao Brasil.
Lembrei-me então do jornalista Wilson Silva, o nosso eterno Marquês de Araçoiaba, que durante anos fez sucesso com sua sempre bem humorada coluna ''Atrás do Tôco''.
A frase é dele: ''O homem é 75 por cento de passado, 25 por cento do futuro e 5 por cento do presente!'' E um dia o narrador esportivo Osmar Santos me disse, aqui na Folha, em 1977, quando veio transmitir um jogo entre Londrina e Corinthians, pelo Campeonato Brasileiro de Futebol, que ''a vida é momento''.
Se o momento é esse, e lembrando Chico Anísio, com quem jantei no Hotel São Jorge, quando ele aqui veio, para uma entrevista no programa de Antonio Euclides Sapia, pela TV Coroados, que dizia: ''Se recordar é viver, vamos recordar!'' Então vamos.
Por causa da gripe
Eu entrei na Folha por causa da gripe que o jornalista Walmor Macarini pegou, em 1956, fruto de um dia de muito sol, ao lado de sua bela namorada de então, à beira da piscina do Picapau Amarelo, que ficava ali para os lados do Iapar de hoje.
Vim para cá estudar, fazer o curso colegial, e minha mãe comprou um exemplar da Folha na estação rodoviária, para encontrar um local para eu morar. Achou um anúncio de Walmor, que procurava colega para alugar quarto na Avenida Higienópolis. Gentil, disse para minha mãe que eu poderia dormir no mesmo quarto que ele no Lar Hotel, que ficaria mais barato para ambos. Ele ficou dois ou três dias de cama, pois havia tomado muito sol.
Como eu tinha diploma da escola Remington de datilografia, de Santo Anatácio, fui quebrar o galho para ele. Copiei receitas de bolos e filés, preceitos de saúde, poesias do dia, os filmes que estavam nas telas da cidade e a listagem de aniversários, que era o começo da coluna Sociedade. E acabei ficando.
- Honorina de Andrade Chaves, que escrevia artigos para a Folha, era a chefe de gabinete do prefeito Antonio Fernandes Sobrinho, em 1956, o homem que criou o Lago Igapó. Ela, com o auxílio da senhora Guiomar Moreira, enviava uma lista de aniversariantes para a Redação. Honorina foi para o Rio e acabou sendo a colunista Nina Chavs, famosa do jornal O Globo. Inclusive morou alguns anos em Paris.
- Eu auxiliava o João Rímoli na Ronda pela Cidade e, em 1957 ou 1958, colhia informações para a coluna Sociedade, criada pelo diretor de redação Nilson Rímoli, e que era assinada por Sady Safady, um pseudônimo. Nilson batizou-o com esse nome, em homenagem a Ibrahim Sued, o turco que já fazia sucesso como colunista no Rio, ao lado de Jacinto de Thormes, que ainda está vivo. Há dois anos o encontrei no Copabacana Palace, conversando com Jorginho Guinle, na noite de autógrafos de Ricardo Boechat, que escreveu a história do famoso hotel.
- Walmor Macarini tocava violão. Tinha um azul, da mesma côr do de Juca Chaves, que toda vez que vinha a Londrina não deixava de ir a dois lugares: visitar a Redação da Folha e as boates da Diana e da Laura, que depois foi para São Paulo. Uma vez Juca veio fazer show no Grêmio, onde Fuad Sérgio Ferreira, amigão de Nilson Rímoli, era o diretor social. Juca foi a pé, violão nas costas, do hotel à famosa Vila Mattos, hoje Terminal Rodoviário de Londrina.
- Wilson Silva disse-me que toda vez que ouve a música Esmeralda lembra-se de mim, que um dia cheguei cantarolando o grande sucesso de Carlos José e todo mundo aprendeu. Ele e Estélio Feldman recordaram a música pelo telefone. Música que Nilson Rímoli (baita coração) fez eu cantar para a Dóris Monteiro ouvir, aqui na Redação, quando ela veio se apresentar em show no Grêmio. Por educação, ela aplaudiu muito.
- E como as histórias são sempre do passado, já que o futuro a Deus pertence e o presente é muito curto, devo dizer que alguns dos melhores textos de jornalistas do Paraná são todos da Folha: Wilson Silva, Nilson Rímoli, Walmor Macarini, Estélio Feldman, Ricardo Sampaio e outros grandes nomes.
- No final dos anos 50, Arceno Attas, do departamento de esportes, foi cobrir a Copa Rocca em Buenos Aires, que reunia as seleções da Argentina e do Brasil. Ele chegou no hotel e o recepcionista perguntou-lhe:
''Su nombre?''
E ele: ''Arceno Attas''
''Sua apellido?''
E Arceno: ''Turco Magro...''
- Wilson Silva estava em busca de alguma reportagem interesante entre Mandaguari e Jandaia. De repente encontra um andarilho. Pára o jipe Willys, desce e pergunta:
''Como é seu nome?''
E o cara: ''Wilson Silva!''
Título da matéria publicada: ''O nome dele Wilson Silva. Texto e foto são do outro''.
- Foi ele também quem ganhou o prêmio nacional pela cobertura da fundação e inauguração de Brasília. Em 1960. Nada de grana. Apenas um certificado. Para o feito, Wilson Silva usou uma roleiflex emprestada de Aimoré Kley, o Pirajá, e comprou, fiado, 12 rolos de filmes da loja do Kato.
- Nilson Rímoli era um amigão. E gostava de sua 'tropa'. Tanto que quando ia a São Paulo, de avião, trazia a famosa lasanha verde do Gato Que Rí para os redatores. E sucesso também faziam os quibes que Cristina, irmã de Abrahão Andery, fazia e enviava à Folha de vez em quando. Professora do Hugo Simas, Cristina era ótima também na cozinha. Abrahão Andery, era o 'turco gordo' da Redação. Uma grande figura, que hoje mora em Salvador, Bahia.
- O saudoso Carlos da Silva sempre apostava com José Carlos Abrahão, também redator, hoje destacado professor de direito, quem acertaria os campeões das Olímpiadas. Costumavam fazer uma relação no último dia do ano, sobre o que achavam que iria acontecer no ano seguinte.
- Jantar dançante no Country Club, em 1956 e 1957: a Orquestra Panamericana, de Newton Vieira Lima, médico em Londrina, uma das melhores que o Paraná já teve, atacava de Mon light Serenade ou de Mon River, toda vez que o jornalista Nilson Rímoli chegava. Vieira Lima faleceu recentemente em Salvador, onde passou seus últimos anos.
- Nelson Severino era do departamento de esportes. Trabalhava comigo. Um baita cara. Certo dia, nasceu um tumorzinho na cabeça dele. Levei-o ao consultório do médico e amigão Oswaldo Alberto de Souza Palhares, o nosso Vinicius de Moraes. Palhares olhou, examinou-e e diagnosticou: não é nada, é a inteligência dele aumentando ainda mais... deu um remedinho e Nelson Severino, que hoje mora em Cuiabá, sarou.
- Redação da Folha, em 1978 ou 1979: Oscar e Carioquinha, da seleção brasileira de basquetebol, vieram disputar, pelo Country Club, os Jogos Inter-Sociedades, que eu e o Flávio Campos criamos em Londrina. Ao pessoal do departamento de esportes, Oscar Schmidt falou firme e forte: ''Eu não deixaria minha irmã jogar basquetebol...'' E disse a razão.
- O presidente Jânio Quadros, na Folha, diz a João Milanez: vou cancelar a concessão da TV Coroados para o Chateaubriand e vou dar a vocês, porque acho que a Folha merece. Milanez recusou o presente polidamente. Meu negócio é fazer um grande jornal disse ele ao presidente.


